EDUCAÇÃO

Liceu Alexandre Herculano: Querer é poder, mas desejar não é querer

Guiada a visita por uma historiadora, coadjuvada, no liceu, por professoras responsáveis pelos vários setores por onde íamos passando, encontrei-me dentro da História da Educação e da Pedagogia do início do século XX, data do nascimento desta escola.
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Há alguns anos participei numa visita guiada ao Porto da I República, organizada pela Câmara Municipal do Porto. Questionei-me sobre o que levaria a que a visita começasse no Liceu Alexandre Herculano, que apenas conhecia do exterior. Foi com grande curiosidade que atravessei a porta de entrada naquele estabelecimento de ensino, que nunca mais deixei de olhar com grande admiração.

Guiada a visita por uma historiadora, coadjuvada, no liceu, por professoras responsáveis pelos vários setores por onde íamos passando, encontrei-me dentro da História da Educação e da Pedagogia do início do século XX, data do nascimento desta escola. O Liceu Alexandre Herculano não é uma escola qualquer (com todo o respeito que merece qualquer escola). O Liceu Alexandre Herculano é uma escola, como todas as outras, e é um museu (que seria bom que pudesse estar totalmente) vivo. Quem não conhece as velhinhas escolas primárias (do Plano dos Centenários) com casas para os professores? E quem sabe que, no Liceu Alexandre Herculano, havia uma casa para o reitor, no último piso do edifício, virada para um átrio de recreio dos alunos? Mas o Alexandre não reservava apenas esta surpresa. Museus, piscina, sala de projeção de cinema, laboratórios: estas são algumas outras riquezas ilustrativas das conceções de pedagogia subjacentes à sua criação, que descobri nessa visita. O estado de degradação da casa do reitor e de vários outros espaços emblemáticos era já tão avançado, que não puderam ser visitados.

O Liceu Central Alexandre Herculano nasceu no início do século XX, no despontar da I República. Foi ocupando instalações provisórias, até assentar definitivamente no edifício que continua a ocupar, da autoria do arquiteto Marques da Silva, igualmente autor da estação de S. Bento, também no Porto. Em 1916 foi lançada a primeira pedra pelo Presidente da República, Bernardino Machado, e, no ano letivo de 1921/1922, foram acolhidos os primeiros alunos, apesar de as obras ainda não estarem terminadas.

Este edifício, marcante na arquitetura nacional, denota a estreita colaboração que, na sua conceção, existiu entre a arquitetura e a pedagogia, ou seja, entre a equipa liderada pelo arquiteto Marques da Silva e a equipa de pedagogos com quem ele trabalhou. As conceções avançadas de uns e outros resultaram numa escola, o Liceu Alexandre Herculano, em que a estética e a funcionalidade pedagógica se conjugavam harmoniosamente, oferecendo infraestruturas e equipamentos capazes de fazer inveja a muitas escolas atuais. Além das salas de aula, havia laboratórios bem equipados; salas específicas para Física e Química, Ciências, Geografia, Desenho e Música; uma biblioteca; uma sala de cinema; uma piscina; ginásios; vários pátios de recreio; refeitório; alojamento para o reitor. Monumento de interesse público: assim foi classificado o edifício da Escola Secundária Alexandre Herculano, em 2011.

O Liceu Alexandre Herculano que, há alguns anos, visitei lutava para, contra ventos, chuvas e outras adversidades, preservar a sua história, de que faziam parte a velhinha e muito degradada biblioteca e muitos instrumentos patentes no Museu da Física. O Liceu Alexandre Herculano que visitei não tinha, no entanto, parado no tempo. A atestá-lo, encontrei uma biblioteca nova e dinâmica, apesar das instalações muito precárias; o Museu da Física e o Museu da História Natural, este último integrado na rede nacional de museus.

Doía e indignava ver o estado de degradação do edifício, com tetos e paredes parcialmente caídos, humidade a marcar as paredes, infiltrações de água. Por isso, foi com esperança que, passado algum tempo, vi o Alexandre ocupar páginas dos jornais e tempo dos telejornais, com imagens de uma degradação impressionante, aquando da formação de um movimento cívico para a sua preservação e da mobilização de diversos grupos parlamentares em torno do mesmo objetivo. Não obstante, a degradação continuou a aumentar. E foi assim que, em janeiro de 2017, o inevitável aconteceu: as chuvas deram o golpe de misericórdia e o Liceu fechou portas. Dias depois, abria novamente, mas só para parte dos alunos; os outros foram acolhidos por uma escola do mesmo agrupamento. Em março, foram finalmente aprovados, pela Assembleia da República, projetos de resolução para a reabilitação da Escola Secundária Alexandre Herculano. Estes projetos recomendavam ao Governo que tomasse diligências para uma intervenção urgente nesse sentido. Tendo, entretanto, recebido apenas algumas obras prioritárias, o Alexandre Herculano continua ainda sem condições para acolher todos os seus alunos; continua a resistir ao tempo e às adversidades atmosféricas e de outras naturezas.

Os meus votos vão para que as obras de requalificação no Liceu Alexandre Herculano sejam profundas e urgentes e lhe devolvam a qualidade arquitetónica e as condições pedagógicas que merece; preservem o espólio que ele encerra; garantam que a História da Educação e da Pedagogia, bem como a da Arquitetura, que guarda sejam preservadas e divulgadas; que os seus museus (re)tomem vida – sejam eles os que já têm essa designação ou os que, não a tendo, a merecem e poderão vir a tê-la, como a casa do reitor ou a velha biblioteca, por exemplo.

Como disse Alexandre Herculano, o escritor homenageado no nome deste liceu: “o erro vulgar consiste em confundir o desejar com o querer. O desejo mede obstáculos; a vontade vence-os.” (Da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal: tentativa histórica, Tomo III, p. 46. Imprensa Nacional, 1859). Haja, portanto, vontade do Poder em resgatar o liceu da degradação e em o reerguer e revitalizar, não apenas como escola, mas como museu e monumento de interesse público.
Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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