PSICOLOGIA

Palestras para alunos

Abordar temas variados e haver profissionais exteriores à escola a fazê-lo não me parece de todo uma falácia; o problema é o que é dito e a forma como é exposto, que muitas vezes têm um impacto quase nulo nos alunos. Os estudantes de hoje não são os que habitavam as salas de aula do passado, em que um PowerPoint arranjadinho tinha um poder quase garantido no que se refere à manutenção da atenção.
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¿“Estávamos no 6.º ou 7.º ano, quando a enfermeira da escola, uma espécie de general furibundo, fez a sua aparição na aula. Durante duas horas, afrontou sozinha e heroicamente trinta e oito rapazes aparvalhados, revelando-nos todos os factos da vida. Descreveu, impassível, órgãos e funções e traçou no quadro, com giz de cor, os diagramas de todos os canais. Não nos escondeu nada, dos espermatozoides aos óvulos, glândulas, vagina e trompas. Depois passou ao espetáculo dos horrores: assustou-nos com descrições aterradoras dos dois monstros escondidos à entrada, o Frankenstein e o lobo mau do mundo do sexo, o perigo da gravidez e dos contágios.
Saímos da palestra perplexos e aturdidos, para um mundo que me pareceu, subitamente, um gigantesco campo de minas ou um planeta infecto. (…) a enfermeira corajosa, que não hesitara em revelar-nos tudo, desde as hormonas às regras de higiene, esquecera-se muito simplesmente de nos dizer, ou mesmo aludir, que naqueles processos complexos e perigosos havia por vezes algum prazer. Sobre isso não disse nada. Seja porque nos queria proteger, ou porque desconhecia.”

Amos Oz. Uma história de amor e trevas. D. Quixote


É desta forma absolutamente deliciosa que Amos Oz (escritor israelita, a quem foram atribuídos vários prémios literários) descreve na sua autobiografia um episódio vivido enquanto estudante. Para quem trabalha em contexto escolar, esta descrição tem obrigatoriamente que conduzir a uma reflexão, pois a escola tem sido invadida por múltiplos voluntários, de proveniências profissionais várias, disponíveis para abordar uma panóplia infindável de temas. Aos poucos, parece ter despertado, na sociedade, este desejo súbito e inesperado de ir para as salas de aula, debitar temas que, eventualmente, poderão contribuir para a boa formação global dos estudantes, esses seres hipoteticamente ávidos de conhecimento.

A propósito de uma destas sessões, uma aluna do 8.º ano comentava, com enfado, que o tema abordado era o mesmo do ano anterior e, curiosamente, o PowerPoint e o vídeo, pela descrição melodramática, eram também os mesmos que ela vira nesse ano, quando frequentava o 7.º ano. Não averiguei se os dinamizadores da dita sessão eram igualmente os mesmos ou se, quem sabe, seriam outros a quem o material a apresentar fora disponibilizado! Abordar temas variados e haver profissionais exteriores à escola a fazê-lo não me parece de todo uma falácia; o problema é o que é dito e a forma como é exposto, que muitas vezes têm um impacto quase nulo nos alunos. Os estudantes de hoje não são os que habitavam as salas de aula do passado, em que um PowerPoint arranjadinho tinha um poder quase garantido no que se refere à manutenção da atenção. Temos hoje alunos que já passam um longo período de tempo a visualizar vídeos e que já têm muita informação.

Para chegarmos aos alunos é fundamental conhecer um pouco do seu processo desenvolvimental. Vamos pensar numa sessão sobre sexualidade para adolescentes. Qualquer sessão sobre este tema deve ser preparada tendo em consideração determinados pressupostos, entre os quais o de que nesta faixa etária o perigo mora sempre na casa ao lado e nunca na sua. Além disto, há uma série de mitos típicos desta idade que é importante abordar. E já agora, voltando ao tema da sessão de que nos fala Amos Oz, para quê reduzir a sexualidade à contraceção e aos perigos, se sabemos que a sexualidade é, em primeiro lugar, algo positivo. O que vamos nós dizer sobre este ou aquele tema? Que impacto vai ter na cabeça de cada um, com histórias de vida por vezes tão díspares? Contribuirão as ditas sessões para apaziguar dúvidas agudas ou para as acentuar? Chegaremos a eles ou apenas concluirão: “Será que aquele(a) “cota” acredita mesmo naquilo que disse?”.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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