PSICOLOGIA

Haverá um bom presente?

Haverá solução para este esvaziamento de que os presentes também parece terem sido alvo? Vou lançar uma sugestão que acredito ser muito eficaz, particularmente com crianças um pouquito mais crescidas que o Menino Jesus.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Reza a história que há muito, muito tempo nasceu em Belém um menino aparentemente igual a todos outros. Apesar de ter nascido num curral, na companhia dos pais e de animais domésticos, foi procurado e encontrado por humildes e poderosos, com a ajuda de uma brilhante estrela que, por ser diferente, foi percecionada como especial. Quando encontraram o menino numa manjedoura, pastores e reis adoraram-no e deixaram os seus presentes, convictos de que este menino poderia fazer a diferença, num mundo tão desigual. Que teriam os pastores oferecido ao menino? Que eu tenha conhecimento, em nenhum relato histórico nos é revelado de que constavam os presentes dos humildes, tendo-nos sido apenas dado a conhecer o “ouro, incenso e mirra” dos poderosos! Está a chegar aquele momento do ano em que todos os meninos, apesar de muitos deles já terem nascido há muitos anos, quererem ser presenteados como o menino de Belém. Para nós, que nesta altura do ano assumimos a missão dos pastores, pelo menos a maioria, dado que não temos o poder económico dos reis, surge a questão: “Que oferecer aos nossos meninos que têm quase tudo e que abrem os presentes e quase imediatamente de seguida os abandonam?”

Na história de Belém, apesar de o menino não ter valorizado os presentes, dada a sua idade, acredito que os pais ficaram felizes e deslumbrados, e o frio do curral terá sido substituído pelo conforto de toda aquela gente anónima que os encontrou no lugar mais improvável. Nós, pais de meninos mais crescidos, que se habituaram a ter tudo, questionamos as horas que perdemos e o investimento que fazemos em prol de um momento de magia, que tem uma duração extraordinariamente curta. Contrariamente aos pais do menino de Belém, em vez de ficarmos reconfortados, questionamo-nos: “Mas afinal que é isto??? Para que serviu tanto dispêndio mental e económico?” Muitos pais sentem-se mesmo tristes e defraudados.

Haverá solução para este esvaziamento de que os presentes também parece terem sido alvo? Vou lançar uma sugestão que acredito ser muito eficaz, particularmente com crianças um pouquito mais crescidas que o Menino Jesus.

Talvez essa ideia seja uma estratégia capaz de lhes ir incutindo desde cedo a paixão pela leitura. Penso nos livros, livros que deverão chegar muito cedo às mãos das crianças, muito antes do 1.º ciclo se aproximar. Se quisermos desenvolver a paixão pela leitura de uma criança, não poderemos pensar que os livros são úteis e necessários apenas quando o momento de aprender a ler se aproxima; muito menos quando a adolescência começar a semear as suas primeiras marcas e nos parecer importante que leiam sobre determinados assuntos, entre os quais a sexualidade. Se a esta oferta precoce de livros, acrescentarmos material impresso espalhado pela casa e manuseado pelas mãos dos adultos, talvez o bichinho “paixão pela leitura” se torne grande e insaciável.

O meu amor pelos livros é um bichão, que me deixou como herança o meu avô materno, ao tornar-se cúmplice da Anita, aquela a quem querem chamar ou já chamam Martine. Apesar de não ter crescido rodeada de livros, tinha este avô que teve o feliz propósito de me mostrar o mundo maravilhoso da Anita. E também havia a biblioteca itinerante, onde todo o processo, desde a requisição à leitura, se foi tornando apaixonante. Mesmo que o meu avô não me tivesse deixado mais nada, tinha em relação a ele uma dívida enorme por saldar, porque ler é aquela paixão que me protege sempre do tédio e dos momentos mais difíceis!

Livros, livros e mais livros: o presente que não deve deixar de dar a crianças, nomeadamente às que ainda não sabem ler! Há livros maravilhosos feitos com tecidos coloridos, com abas e sons. Há livros que são simultaneamente jogos, construções ou apelam à interação. Se, para além dos livros, comprar uma estante para ir enchendo, talvez, quando as crianças forem mais crescidas, já adolescentes, haja sempre a possibilidade de um presente-livro com um valor especial, que não vai ficar no canto dos esquecidos!

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.