EDUCAÇÃO

Carta de uma professora ao Pai Natal

Sinto-me cada vez mais cansada. E cada vez mais sufocada de indignação. Já desejei (e desejo ainda) ter 66 anos e não apenas 62, só para me poder reformar! Gostava tanto de me despedir da minha profissão com saudades dela! Gostava tanto de me despedir com a imagem que criei de professora cumpridora e íntegra!
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Uma jovem amiga minha tinha o grande desejo de ser médica. Ao seu sempre aturado estudo e às suas notas altas, decidiu acrescentar outras estratégias para assegurar a almejada entrada em Medicina, tão marcada por feroz competição. No 12.º ano, resolveu usar as suas 12 passas na meia-noite da passagem de ano para repetir a cada uma delas o mesmo desejo: entrar em Medicina. Mas… esqueceu-se de um aspeto importante da tradição: os desejos não podiam ser revelados. Pouco antes das badaladas mágicas da meia-noite, revelou o seu desejo aos parentes e amigos, a quem pediu que o reforçassem, formulando numa ou mais das suas passas o desejo de a verem entrar nesse curso.

Mas… a tradição manteve-se: a revelação dos desejos inutilizou a magia das passas. A minha amiga ficou a uma unha negra de entrar em Medicina e teve que escolher outro curso.

Após o Natal, encontrei-me com uma amiga especial, já desde os tempos de estudante, a Josefina. Professora como eu e com idade próxima da minha, sempre confiei muito nela por a achar uma profissional responsável e de inesgotável energia e entrega à docência. Muitas vezes recorri a ela para trocarmos opiniões sobre casos mais difíceis. Em jeito de brincadeira, perguntei-lhe que desejos iria formular ao engolir as suas passas da meia-noite de entrada em 2018. Levou a conversa a sério e não me quis contar; conhecia a história da tal jovem, também sua amiga. No entanto, permitiu-me ler e revelar neste artigo a sua carta ao Pai Natal. Afinal, nem ela nem eu tínhamos jamais ouvido que tal inibisse o Pai Natal de favorecer os pedidos que lhe chegavam. E aqui vai a carta da Josefina ao Pai Natal.

Querido Pai Natal,
Não te escrevo há tantos anos, que receio que possas estar zangado comigo. Escrevia-te em criança e nunca me deixaste ficar mal. Na lareira lá de casa, junto ao meu sapatinho, de manhã bem cedo, lá estava o presente que te tinha pedido. Depois meteram-me na cabeça que não tu não existes, vê lá! A partir daí, os presentes de Natal nunca mais foram o que eram; não correspondiam aos meus desejos e, muitas vezes, até os contrariavam.

Tornei-me professora, sabes? E gostei! Entreguei-me de tal forma à profissão, que nem quando estava doente faltava. Quando me falavam em reforma, assustava-me. Para que me queria algum dia reformar, se me faziam tanta falta a escola e os alunos?

Os anos passaram. Hoje já tenho mais de 60 anos. Ser professora tornou-se uma profissão socialmente nada valorizada e profissionalmente cada vez mais descaracterizada. São tantas as horas que passo a escrever relatórios e a fazer grelhas! São tantas as horas que passo em reuniões em que, dos alunos, pouco se acaba por poder falar a não ser para preencher grelhas e fazer mais uns relatórios! A burocracia inunda a escola e abafa tudo. Como a detesto e como ela me arrasa, Pai Natal! Ainda consigo-me sentir feliz dentro da sala de aulas, mas já não consigo negar o desgaste que o tempo me tem causado. Aquela capacidade para estar atenta a tudo, para gerir a disciplina e a lecionação dos conteúdos programáticos, para dar atenção à turma e a cada aluno, para intervir prontamente em situações mais inusitadas ou mais comuns, aquela capacidade que era tão natural que eu nem me apercebia dela - vivia-a -, essa capacidade… comecei a ter consciência dela e… da sua diminuição. Percebi que é mesmo verdade que a idade lentifica o processamento de tanta informação e a tomada de decisões; passei, assim, a tomar consciência da forma como ocorre este processo, algo que dantes fluía naturalmente. Continuo a gostar de estar na sala de aula, continuo a gostar de trabalhar com os alunos; mas gostava de me despedir deles com dignidade e as dificuldades crescentes que sinto e que descrevi mostram bem que chegou a hora da reforma, para que essa dignidade não se esvaia.

Sinto-me cada vez mais cansada. E cada vez mais sufocada de indignação. Já desejei (e desejo ainda) ter 66 anos e não apenas 62, só para me poder reformar! Gostava tanto de me despedir da minha profissão com saudades dela! Gostava tanto de me despedir com a imagem que criei de professora cumpridora e íntegra!

Mas, no fundo, eu quero ter só os meus 62 anos. Eu quero viver e quero fazê-lo ainda durante alguns anos com saúde e com liberdade de escolher em que empregar o meu tempo. Na verdade, desde que entrei na escola, aos 6 anos, não voltei a sair de lá. Trabalhei como estudante até concluir a minha licenciatura e depois trabalhei como professora. Ou seja, afinal trabalho desde os seis anos, uma longa carreira de trabalho! E, pelo meio, fui acumulando os dois papéis: estudante e professora. E quando decidi fazê-lo, paguei do meu bolso os estudos adicionais e decidi fazê-los para ser melhor professora. Jornada dupla, portanto.

Para não te roubar mais tempo, aqui fica a prenda que te peço para o Natal: dá-me a reforma! Sei que não vais poder pôr esta prenda ao pé da árvore de Natal (local onde agora elas são postas aqui em casa). Mas eu tenho paciência e aguardo. Podes até dar-ma nos meus anos… Sei que terás que ir com as renas dar algumas voltas para me conseguires trazer este presente. Fico à espera!

Muitos beijinhos para ti e para toda a equipa que te ajuda a fazer felizes os meninos (e alguns adultos que conseguem voltar a acreditar em ti).
Josefina

Se eu acreditasse no Pai Natal, fazia o mesmo pedido que a minha amiga Josefina: uma reforma com dignidade, ou seja, aos 60 anos, que já tenho! Em segunda escolha, pedia para, num lindo dia de 2018, acordar igualzinha ao dia anterior, mas já com 66 anos (já nem pedia os meses adicionais que me assegurariam a reforma mesmo imediata).

Um feliz 2018!
Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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