PSICOLOGIA

Mitos e sexualidade: uma dupla que faz estragos!

Foi possível concluir que, relativamente à contraceção, há vários mitos que poderão contribuir para que os adolescentes assumam comportamentos de risco.
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"O número de adolescentes que dá à luz em Portugal está a diminuir, embora continue alto, quando comparado com outros países da União Europeia (UE). De acordo com dados da ONU de 2009, relativos a 2007, Portugal tem das mais altas taxas de fertilidade em adolescentes da Europa. Na tabela dos 27, Portugal surge em oitavo lugar, com uma taxa de fertilidade em adolescentes de 16,5. Em 2009, o número de nados-vivos de mães com idades entre os 11 e os 19 foi o mais baixo desde finais da década de 70, mas mesmo assim ultrapassou os quatro mil, o que significa que, por dia, 12 adolescentes tiveram bebés."
Jornal Público (21/01/2011)

Apesar de os jovens terem mais informação que no passado, a taxa de gravidez na adolescência continua a ser elevadíssima em Portugal. Para este facto haverá muitas explicações. Gostaria, no entanto, de alertar para um aspeto que por vezes é esquecido e que pesará, certamente, nestes números: os mitos relativos à sexualidade. Um estudo realizado neste ano letivo, na Escola Básica de Leça da Palmeira, orientado por mim, como responsável do SPO (Serviço de Psicologia e Orientação), e pela enfermeira Cármen Vieira (enfermeira de saúde escolar da UCC de Leça da Palmeira), com alunos do 9º ano, mostra claramente que os adolescentes ainda têm muitas ideias erradas sobre sexualidade e contraceção, que é urgente clarificar. Aos 69 alunos de 9º ano (31 raparigas e 38 rapazes) que participaram neste estudo, foi-lhes pedido para responderem a um questionário que consistia num conjunto de afirmações sobre sexualidade, em relação às quais tinham de assinalar: "Concordo", "Discordo", "Gostaria de ser esclarecido".

Mediante a análise das conclusões deste estudo, foi possível concluir que, relativamente à contraceção, há vários mitos que poderão contribuir para que os adolescentes assumam comportamentos de risco. Os adolescentes continuam a acreditar que: "O coito interrompido permite evitar uma gravidez", "Só se engravida se houver ejaculação", "A pílula engorda" e "Praticar sexo anal evita as ISTs (infeções sexualmente transmissíveis)". Curiosamente, face à afirmação "Na primeira vez em que se tem relações sexuais não se engravida", todos os jovens assumem uma opinião discordante, o que significa que, para estes adolescentes, este mito parece já estar ultrapassado.

A masturbação é outro assunto sobre o qual nos deparamos com alguns mitos. Um elevado número de jovens acredita que "quem se masturba muito na puberdade fica com menor potência na vida adulta" e ainda há quem considere que "a masturbação é pecado". Relativamente à primeira relação sexual, parecem existir também algumas confusões, dado que ainda há um elevado número de adolescentes que concorda que "na primeira relação sexual a mulher sente sempre dor" e que "na primeira relação sexual a mulher sangra sempre".

Na adolescência, ser igual a todos os pares é um aspeto que tranquiliza. É um facto que os adolescentes se andam sempre a comparar com os da mesma idade, para confirmar se são normais. Assim sendo, parece-me urgente clarificar, de uma vez por todas, que, contrariamente ao que eles continuam a acreditar, o tamanho do pénis não é indicador de maior potência sexual. No estudo a que tenho vindo a fazer referência, 28% dos jovens concordam que "quanto maior for o pénis, maior é o prazer que a mulher vai sentir".

Face ao exposto, o que concluir? Que no âmbito da educação sexual ainda muito há a fazer e que os muitos entraves que os adultos continuam a levantar relativamente à abordagem destes temas de uma forma aberta só contribuirão para que, pelos piores motivos, continuemos no topo da tabela!

Infelizmente a nova estrutura curricular revista pelo MEC parece criar ainda mais obstáculos ao seu tratamento aprofundado nas escolas. Refiro-me ao desaparecimento das áreas curriculares não disciplinares, à redução da carga horária das disciplinas e à pressão dada pelos exames a um trabalho direcionado para a aquisição de conhecimentos e treino de resposta a exames.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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