PSICOLOGIA

Adolescência, o lado deles!

O sentimento de incompreensão levou-o a procurar alguém... esse alguém fui eu. Confesso que me impressionou a necessidade do Miguel em captar a atenção dos adultos. Na sala de aula também já o tinha feito através de intervenções descontextualizadas.
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'Afinal fiz bem em vir à psicóloga. Agora já sei melhor o que é um psicólogo e acho que tomei mesmo a decisão certa em vir falar consigo. Neste momento já me estou a sentir melhor.
A minha mãe não me compreende... diz que eu sou muito novo... o meu pai, imagine só, diz que eu só posso namorar quando tiver 18 anos. Diga-me lá se ele sabe alguma coisa da realidade. De certeza que ele já se esqueceu do período em que tinha a minha idade. Lembra-se de lhe ter dito que sentia muita raiva. Agora já lhe posso dizer o porquê da minha raiva: 80% deve-se à Joana, a rapariga de que gosto, e 20% ao quisto que tenho na cabeça. Sinto pela Joana aquilo que os noivos sentem antes de casar, sinto um amor excelente. Ela é tão bonita, gosto da maneira de ela ser e da roupa que veste, usa umas saias justinhas e umas calças que lhe ficam muito bem: tem um estilo muito desportivo. Tenho é pena que ela só goste de mim 20%. Se falasse nisto à minha mãe, ela não compreenderia nada, por favor, não lhe fale da Joana.
Quando estive pela primeira vez consigo a minha raiva era de 100%, agora é apenas de 80%, porque a minha relação com a Joana está a melhorar. Já gosto dela há quatro anos. Quando a conheci andava no quarto ano de catequese e ela andava no terceiro.
Posso pedir-lhe uma ajudinha? Queria que convencesse a minha mãe a não me vir buscar à escola porque os rapazes já gozam comigo por causa disto.'

Este relato verídico do Miguel, que se designa de pré-adolescente (12 anos), deixou-me a pensar. É típico os pais de adolescentes referirem que os filhos não falam de si próprios. De facto, por vezes estes têm pouco espaço para o fazerem. Desvalorizar aquilo que sentem 'ainda és muito novo' é o primeiro passo para fechar a porta à partilha de pensamentos e sentimentos.

O sentimento de incompreensão levou-o a procurar alguém... esse alguém fui eu. Confesso que me impressionou a necessidade do Miguel em captar a atenção dos adultos. Na sala de aula também já o tinha feito através de intervenções descontextualizadas. Quando o Miguel me relatou pela primeira vez a intensidade da sua raiva, capaz de o levar a ser fisicamente agressivo, não compreendi imediatamente a sua mensagem. A riqueza deste relato e o apelo deste adolescente, ou pré, tal como ele fez questão de sublinhar, é o apelo de muitos outros, por isso decidi partilhá-lo.

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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