PSICOLOGIA

Quando uma criança perde alguém especial…

Embora o grande desejo dos adultos seja evitar que a criança sofra, tal é impossível. Por isso, o que eles devem fazer é tentar, numa linguagem ajustada à idade da criança e num ambiente calmo, transmitir-lhe a difícil notícia, não adiando muito no tempo esta conversa.
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"- Quem é aquela menina, mamã?
- É a tua mana.
- Mas eu só tenho um mano, o João.
- Tens razão, agora só tens um mano, mas tiveste uma mana, que morreu antes de tu teres nascido.
- Uma mana? Como é que ela se chamava?
- Helena."


O diálogo verídico, atrás reproduzido, ocorreu recentemente numa visita ao cemitério, quando a Lara, a minha filha de 4 anos, viu a fotografia da irmã, que falecera pouco antes de soprar a vela dos dois anos de vida.

Muito frequentemente, os adultos, ao serem surpreendidos com o falecimento de alguém afetivamente próximo, ficam muito perturbados e confusos e não sabem como agir junto dos mais novos, procurando o apoio de um psicólogo, que os possa orientar num momento em que eles próprios se sentem incapazes de lidar com a dor!

Depois de deixar espaço para os adultos expressarem o seu próprio sofrimento, é importante esclarecê-los que a morte de alguém próximo não exige acompanhamento psicológico e que este tipo de apoio é, sobretudo, prestado em situações de luto patológico. Embora o grande desejo dos adultos seja evitar que a criança sofra, tal é impossível. Por isso, o que eles devem fazer é tentar, numa linguagem ajustada à idade da criança e num ambiente calmo, transmitir-lhe a difícil notícia, não adiando muito no tempo esta conversa.

A criança, se não for demasiado pequena, deve ser convidada a participar nos rituais que envolvem a morte. Há algum tempo atrás, numa aldeia em que é frequente os mortos ficarem em sua casa até ao momento do enterro, vi duas crianças (7 e 10 anos), netas do avô que ali aguardava o momento do enterro, a deambular pela casa, perto do local onde estava o corpo e as pessoas que estavam no velório. Enquanto no passado esta era uma situação habitual, atualmente as crianças são afastadas dos contextos que rodeiam a morte, como se a morte fosse algo da qual elas devessem ser totalmente afastadas. A morte tornou-se um tabu e, por isso, os próprios adultos não sabem bem como agir face a ela!

Recentemente, uma mãe, que me procurara no momento em que o filho adolescente perdera o pai, voltou a procurar-me pouco tempo depois. Qual a sua preocupação? O filho ia ao cemitério todas as semanas e ela temia que tal não fosse muito benéfico para ele. Procurei tranquilizá-la, afirmando que este ritual do filho poderia ajudá-lo no processo de luto do pai e que não havia qualquer motivo para preocupação, antes pelo contrário. A participação das crianças nos rituais associados à morte deverá, sempre que possível, ser incentivada, embora a criança nunca deva ser forçada a participar neles, se tal não for o seu desejo.

Depois de a morte ocorrer e de os rituais associados a esta estarem finalizados é importante que a criança sinta que, à sua volta, há imensas pessoas que gostam infinitamente dela e que continuam incondicionalmente presentes no seu dia a dia. A possibilidade de recordar quem morreu e de falar abertamente sobre essa pessoa deve ser sempre incentivada pelos adultos, ainda que as memórias do passado tragam consigo lágrimas.

Para terminar, parece-me importante deixar claro que os adultos, face a este tipo de situação, nunca deverão esquecer que o carinho é fundamental, mas as regras deverão continuar a existir. Já me tenho confrontado com situações terríveis em que o que parece ter marcado mais a criança não foi a morte de alguém especial, mas o facto de, depois de ela ter ocorrido, ter passado a ser tratada como uma "coitadinha", a quem tudo é dado, como forma de compensar a perda, esquecendo-se a importância dos limites!
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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