PSICOLOGIA

Palavras: para quê?

Quantas vezes já sentiu o quão desnecessárias são as palavras? Quantas vezes já sentiu o poder de um gesto e de um abraço? Quantas vezes transmitiu múltiplas mensagens, mesmo sem nada dizer? Palavras: para quê?
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Abordou-me à entrada do gabinete de atendimento do Serviço de Psicologia e Orientação, afirmando ter necessidade de falar comigo. Pedi-lhe para aguardar, visto que estava um outro atendimento ainda a decorrer. Desconfiei que não era comigo que queria falar, mas com a aluna que eu estava a atender. As minhas suspeitas confirmaram-se, pois, quando o atendimento terminou e a jovem saiu, as duas desligaram-se de mim e abraçaram-se de uma forma tão emotiva que me comoveu. Ambas partilharam durante um ano letivo inteiro a mesma turma, os mesmos professores, o insucesso constante, o diagnóstico de hiperatividade e défice de atenção e a sensação de que, sendo diferentes - e usando as palavras da letra da canção do Rui Veloso - "é mais forte o que nos une, que aquilo que nos separa". Curiosamente, já noutra ocasião as encontrara abraçadas a chorar, no final do ano letivo. As lágrimas eram partilhadas por outros elementos da turma que, também agarrados uns aos outros, choravam copiosamente. A cena era caricata e inusitada, gerando, por isso, uma certa perplexidade, pois a maioria dos alunos festeja com entusiasmo o final das aulas. A compreensão daquele "espetáculo" só poderia ser alcançada por quem, como eu, conhecia bem todos aqueles jovens e a aridez para onde as férias os remetiam, a todos, sem exceção. Contextos familiares desestruturados, com múltiplos conflitos e pouco apoiantes, eram a alternativa à escola, que, embora lhes passasse um diploma de incapacidade, lhes dava o outro lado, relacionalmente mais afetivo

Confesso que aqueles abraços me tocaram especialmente, porque me remeteram para uma memória pessoal nunca partilhada com ninguém, que, não sendo recente, também não posso considerar muito antiga. Na Alemanha, onde passei um mês em 2005, na sequência da doença da minha filha, cruzei-me no hospital várias vezes com a mãe de uma outra criança, também submetida a tratamentos oncológicos. Nunca dirigimos a palavra uma à outra, cumprimentando-nos com um sorriso ou com um aceno de cabeça quando nos cruzávamos no corredor. Quando o momento de regresso a Portugal se aproximava, tentámos desejar uma à outra a rápida recuperação dos nossos filhos. As palavras rapidamente deram lugar a um abraço muito apertado com muitas lágrimas à mistura. Ambas sabíamos a grande imprevisibilidade de que a vida dos nossos filhos era alvo; conhecíamos bem a dor de estarmos ali e não termos alternativa de fuga; estávamos encurraladas e lamentávamos que tivéssemos sido nós as protagonistas daquilo, que, parecendo um filme, era mesmo a vida real! Nunca esqueci este abraço e esta mãe, de quem nada sei, mas que naquele momento e naquela circunstância específica parecia conhecer na totalidade. A nossa realidade fora do contexto da doença dos nossos filhos seria certamente muito diferente, mas naquele momento sentíamo-nos fundidas por uma dor profunda e inconsolável, a dor face a uma perda que poderia ser iminente, mesmo que contra ela travássemos uma luta sem tréguas.

Quantas vezes já sentiu o quão desnecessárias são as palavras? Quantas vezes já sentiu o poder de um gesto e de um abraço? Quantas vezes transmitiu múltiplas mensagens, mesmo sem nada dizer? Palavras: para quê?
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.