PSICOLOGIA

Exames finais obrigatórios: sim ou não?

Se queremos promover o sucesso, então é imprescindível que seja dado um apoio imediato, nos primeiros anos de escolaridade, a quem está com dificuldade em aprender a ler e escrever.
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Uma das medidas propostas, no ponto 2, da Revisão da estrutura curricular, de 26 de março, "promover o rigor na avaliação obtendo dados fiáveis sobre aprendizagem, através da introdução das provas finais no 4.º ano e da sua manutenção no 6.º e no 9.º anos, a Português e a Matemática".

Uma vez que trabalho há já vários anos em contexto escolar e tenho, sobretudo, contacto com os alunos marcados por maior insucesso escolar, este ponto causou-me uma imensa preocupação. Se queremos promover o sucesso, então é imprescindível que seja dado um apoio imediato, nos primeiros anos de escolaridade, a quem está com dificuldade em aprender a ler e escrever. A introdução de exames vai gerar mais insucesso, desigualdade, injustiça e em nada vai contribuir para uma maior aprendizagem. Afirmar que os exames acabarão com o facilitismo é uma falsa questão, porque quem não aprendeu não irá aprender devido à existência de exames.

A minha já longa experiência, no Serviço de Psicologia e Orientação de um grande agrupamento de escolas poderá ilustrar um pouco melhor a minha perceção sobre esta questão. Como responsável pelo referido serviço, sou frequentemente contactada por professores e pais de crianças que, por motivos variados, não aprendem. Quando avalio estas crianças, geralmente constato que estas apresentam efetivamente barreiras em termos de aprendizagem. Umas têm dificuldades de acesso ao saber porque têm graves problemas de leitura e escrita. Outras têm famílias desorganizadas, que desvalorizam a escola e que, de forma alguma, conseguem mobilizar-se para apoiar os seus membros nas tarefas escolares. Outras, ainda, apresentam défices cognitivos, de memória ou atenção, que dificultam a organização e assimilação dos conteúdos académicos. Outras apresentam o somatório de todos estes problemas, e, eventualmente, até outros. Poderia continuar a descrever outros obstáculos que limitam o acesso ao saber, mas o que me parece realmente importante salientar é que as barreiras existem e, por vezes, a única saída é mesmo o encaminhamento dos alunos para vias profissionais. Concretizando, pensemos, por exemplo, num aluno com 14 anos, que ainda frequenta o 6.º ano e que irá fazer os ditos exames finais no final do 6.º ano. Para este aluno, que já teve várias retenções e que claramente apresenta dificuldades já identificadas, os exames serão certamente barreiras intransponíveis. O que lhe vai acontecer? Quando se cansar do insucesso, o que não será difícil, irá abandonar a escola. Terá ele alternativa?

Pensando no projeto de vida de alunos como o que atrás referi, os professores sensíveis, e bem, a este tipo de problemas adequavam as estratégias de ensino e de avaliação às características e problemas de cada um, contribuindo para que realizassem algumas aprendizagens e pudessem progredir para vias profissionalizantes. Desta forma, tal opção, vista por muitos como facilitismo, era bem o contrário disto. De resto, implicava mais trabalho para esses professores, que tinham consciência de que retenções consecutivas arrastam consigo problemas graves de auto-estima e, em muitos casos, problemas muito sérios de indisciplina. Para estes alunos, a quem o sistema não acudiu em devido tempo, logo no início da escolaridade, se esta ajuda dos professores não existisse, permaneceriam indefinidamente no mesmo ano, não lhes sendo dada oportunidade para fazerem aprendizagens de ordem mais técnica, para as quais estão claramente mais vocacionados, nem de escaparem a um futuro de exclusão.

Reforçando o que inicialmente referi, existem certamente outras medidas bem mais úteis que estes exames. De entre elas destaco o reforço do acompanhamento dos alunos com dificuldades de aprendizagem nos primeiros anos de escolaridade, que seria certamente muito mais benéfico. No primeiro ano, todos os alunos que manifestassem dificuldades deveriam beneficiar de um apoio suplementar, dado por professores especializados, no sentido de os ajudar a quebrar barreiras, quando estas poderiam ser ainda transponíveis!

Enquanto as medidas educativas não tiverem em consideração os alunos reais que frequentam as nossas escolas, só estarão a fomentar aquilo contra o qual tanto temos lutado: o abandono escolar!

Exames finais obrigatórios? Não, muito obrigado!

Nota da autora:
Depois da redação deste artigo, tomei conhecimento do estudo da OCDE, divulgado nos últimos dias, que critica o facto de a avaliação dos alunos estar excessivamente centrada nos resultados, nomeadamente nos testes e nos exames.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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