PSICOLOGIA

Necessidade de adaptação ou de reorientação?

A distância entre a exigência dos ensinos Básico e Secundário é tão grande que a mudança só pode ser dolorosa!
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"O meu filho mais velho, com 15 anos, está a frequentar agora o 10.º ano. Sempre foi um aluno mediano. Com a entrada no 10.º ano e a escolha da área de Ciências, as coisas complicaram-se. A exigência a nível das matérias triplicou, os professores também estão muito mais exigentes, e fazem questão de lhes fazer sentir isso, e as notas descambaram por completo. Neste momento está completamente desmotivado. Estudar para ele é um fardo pesadíssimo. Apesar das constantes conversas que eu e o meu marido temos com ele sobre o seu futuro, as suas motivações e as implicações resultantes do seu desinteresse total pelos estudos, nada parece fazê-lo mudar de atitude. Embora noutro contexto, partilho a angústia e desespero da mãe que falam no artigo "Os equívocos frequentes de pais preocupados", em não conseguir "chegar até ele". Sinto que há algo a bloqueá-lo. Ele diz que não estuda o suficiente mas também não consegue fazê-lo. Nem com explicações consegue melhorar. Que mais podemos fazer?"
Maria Manuel Junqueira

Certamente muitos pais se reveem no desabafo desta mãe. A transição para o ensino secundário é tremendamente difícil para a maioria dos alunos, estando alguns dos motivos já referidos neste testemunho. Efetivamente, a distância entre a exigência dos ensinos Básico e Secundário é tão grande que a mudança só pode ser dolorosa!

No 9.º ano uma das tarefas que realizo, como responsável pelo Serviço de Psicologia e Orientação de uma escola básica, é ajudar os alunos a refletirem no futuro e na escolha do curso mais ajustado, para darem continuidade aos seus estudos. Um dos cuidados que tenho sempre é o de alertar os alunos e os pais para esta diferença de exigência e para o facto de, frequentemente, o 10º ano ser um ano de reorientação vocacional. Sei que esta mensagem não tem grande impacto, uma vez que os alunos que estão a finalizar o ensino básico estão muito longe de perceber as exigências que terão de enfrentar no secundário e os esforços acrescidos que terão de desenvolver, no sentido de vencer as dificuldades.

Todos os anos, atendo individualmente, ou na presença dos pais, mais de uma centena de alunos que têm como objetivo definir o seu futuro após o 9.º ano. Nestes atendimentos, os alunos fazem referência ao 10.º ano como o ano em que "tudo será mesmo a sério, porque até agora as notas não contam para nada". Porque até aqui "as notas não contam para nada", não é necessário fazer grande esforço, até porque, com a informação recebida nas aulas, lá se vai conseguindo o mínimo para passar. Para os que nunca ambicionaram notas elevadas e, por isso, foram estudando muito pouco ou nada, a mudança ainda dói mais, até porque há conhecimentos básicos que se foram perdendo e que no Secundário acabam por fazer falta.

Como disse anteriormente, o 10.º ano é um ano de reorientação vocacional porque, só estando nesse ano, se consegue ver o que antes não era possível percecionar. Tenho a certeza de que, em muitas situações que acompanho, as decisões tomadas não são as melhores, pois há um desajuste completo entre o percurso efetuado durante o ensino básico e a opção tomada. Dando um exemplo, há alunos que optam pelos cursos científico-humanísticos (cursos orientados para o prosseguimento de estudos), tendo um percurso no básico marcado por grande insucesso. Quando alertados para esta discrepância, os alunos referem que no 10.º ano vão começar a estudar e os resultados serão diferentes.

Para este adolescente, a mudança está a ser muito dura e, aparentemente, ele não se está a adaptar. Face a esta situação, vejo duas hipóteses. Uma vez que a mudança exige adaptação e uns adaptam-se mais facilmente que outros, pode colocar-se a hipótese de que este jovem ainda não se tenha adaptado a esta elevada exigência, pelo que fará sentido dar mais algum tempo para ver o evoluir da situação.

A outra hipótese, que deverá ser equacionada no final do ano letivo, passa por uma eventual reorientação escolar e profissional. Será realmente este curso o mais ajustado para este jovem? A escola que frequenta tem Serviço de Psicologia e Orientação? Este serviço, se existir, pode ser um local onde poderão pedir ajuda. Há atualmente uma oferta muito diversificada nas escolas secundárias, que poderá, eventualmente, ajudar este adolescente a encontrar um novo rumo.

Por fim, uma última questão, que também é muito dolorosa para os pais. Os filhos deixaram de ser tão acessíveis e passa a ser mais difícil "chegar até eles". Por muito que isto gere sentimentos de angústia e impotência, este progressivo distanciamento das figuras parentais faz parte de um processo de desenvolvimento saudável.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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