PSICOLOGIA

Divórcios?...

Fazer do divórcio um momento isento de dor para os filhos é uma missão impossível, torná-lo menos doloroso é a missão que só os pais podem levar a cabo! Como tornar então este momento de rutura e dor menos doloroso?
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"Desde há uns tempos que o Pedro e eu ouvimos os nossos pais discutir. Eu sinto que aquela alegria, que cá havia antes, se foi embora.
O pai muitas vezes não está em casa e a mãe anda muito, muito triste, e os seus olhos andam sempre vermelhos e pesados de tanto chorar (...)
Ontem à noite ouvimos barulho, gritos e gritos e muita zanga no quarto durante muito, muito tempo. (...)
Eu tapei os ouvidos com as mãos quando ouvi o meu pai gritar e falar em divórcio e o barulho de alguma coisa que se partiu. (...)
Divórcio... Será que eles se vão divorciar como os pais de alguns amigos meus lá do colégio? Será que divórcio quer dizer que um deles se vai embora cá de casa?
"

As crianças e o divórcio - O diário de Ana, de Maria Saldanha Pinto Ribeiro


A separação dos pais é sempre causa de sofrimento para os filhos. Mesmo que a vida diária se tenha tornado um inferno, os filhos sofrem com a separação e, muito frequentemente, passados anos, continuam a sonhar com a reconciliação dos pais. É que, apesar dos gritos, dos objetos partidos e dos insultos, "havia sempre o passeio ao domingo, o beijinho de boa noite do pai e a visita quinzenal ao MacDonald's...".

A separação é, não só para os pais, mas também para os filhos, uma transição de vida e consequentemente um processo de luto e readaptação a uma nova situação. Nem sempre os pais têm consciência que também os filhos têm de lidar com sentimentos de perda e também eles têm de reconstruir um novo sentido para a vida, tarefa muito dolorosa e por vezes bastante confusa!

Fazer do divórcio um momento isento de dor para os filhos é uma missão impossível, torná-lo menos doloroso é a missão que só os pais podem levar a cabo! Como tornar então este momento de rutura e dor menos doloroso?

- Prepare conjuntamente com o seu cônjuge a conversa que irão ter com o vosso filho, no sentido de lhe comunicar o final da relação conjugal. Esta conversa deverá acontecer quando a decisão de se separarem estiver devidamente consolidada e pouco tempo antes de um dos elementos do casal deixar o espaço físico, que anteriormente era partilhado por todos.

- O local escolhido para esta conversa deverá ser calmo e a posição corporal deverá permitir o contacto físico. Um abraço no momento certo ajudará as palavras a 'ganharem' mais sentido.

- Nessa primeira conversa e em conversas posteriores, sublinhe sempre que, apesar da relação conjugal ter terminado, o amor que sentem por ele(a) continuará sempre bem vivo e que jamais terminará. Ele(a) deverá sentir que é um tesouro na vida dos pais e que a separação não altera este facto.

- As razões da separação devem ser explicadas de uma forma muito simples, não sendo necessário nem aconselhável explicar razões concretas. Concretizar demasiado só servirá para magoar a criança e para reduzir uma realidade muita vasta e profunda, que nem sempre é possível traduzir por palavras.

- Quando as crianças são pequenas, por vezes, julgam-se culpadas da separação dos pais. Converse com o seu filho sobre este sentimento, e faça-o compreender que ele não é culpado da separação.

- Sentimentos de perda, abandono, incredulidade, negação e dúvida são frequentes face a uma situação de divórcio. Por esta razão, é fundamental criar situações em que todos estes sentimentos possam ser expressos. Prepare-se para as lágrimas, para lhe responder a todas as suas questões de uma forma verdadeira e clara e sobretudo para o ouvir.

- O quotidiano da criança deve assemelhar-se, na medida do possível, àquele que ela tinha antes do divórcio. Grandes alterações do estilo de vida da criança só contribuirão para que esta tenha de se adaptar ainda a mais situações diferentes, o que só dificultará o processo. Por exemplo, se era o pai que a levava à escola, isto deverá, se possível, continuar a acontecer.

- Denegrir a imagem do outro é pôr à frente dos interesses da criança o seu desejo de retaliação e vingança. Mantenha os seus conflitos afastados da criança e ajude-a a manter uma imagem positiva do outro cônjuge. Ela tem o direito de viver com ambos, de ter uma imagem positiva dos dois e de ser livre de amar todos: avós, tios e, eventualmente, novos companheiros da mãe ou do pai.

- Não faça do seu filho um mensageiro entre si e o seu ex-cônjuge. Ele nunca deverá ser o transmissor de mensagens, quer elas se tratem de dinheiro, férias ou problemas de outra ordem. Todas as negociações deverão ser feitas diretamente pelos pais, nunca envolvendo os filhos neste tipo de situação.

- Os amigos da escola, os primos, os avós, os professores e outras pessoas de quem a criança gosta podem ser uma grande ajuda neste momento difícil. Os pais devem, por isso, rodear-se dos entes queridos dos filhos. O seu isolamento e o isolamento dos filhos é a pior opção.

- Ambos os cônjuges devem passar o máximo de tempo possível com os filhos. Se tal não for possível a um dos pais, é importante que o pouco tempo que passem juntos seja de qualidade. Se um pai não puder estar com o seu filho no mínimo de 15 em 15 dias, é indispensável que fale com ele para lhe explicar os motivos. Esta informação poderá ser dada via telefone, devendo ser transmitida à própria criança, e não ao adulto com quem ela vive.

Todas esta sugestões fazem ainda mais sentido se tiver em consideração que não é tanto o divórcio em si que tem consequências nefastas, mas sim a forma como os pais se separam!

"Perguntei à Teresa, lá no colégio, como tinha sido a separação ou o divórcio dos pais dela. Ela disse-me que os pais dela tinham ido lutar para o tribunal, e depois o Juiz é que decidia quem ganhava e quem perdia. (...)
Percebi que nem todos os pais se divorciam da mesma maneira.
Foi nessa altura, em que a Teresa me estava a contar o que sofreu, aqui no jardim da casa, debaixo do pessegueiro, que eu entendi o amor dos meus Pais pelo Pedro e por mim.
Foi assim que percebi que as pessoas são muito diferentes, quando se separam
".

As crianças e o divórcio - O diário de Ana de Maria Saldanha Pinto Ribeiro

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Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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