PSICOLOGIA

Uma ferramenta útil em tempos de crise

Não é raro as pessoas referirem, em momentos de crise, que o melhor é "viver um dia de cada vez". Estas palavras provavelmente não têm o mesmo significado para todas as pessoas.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
O testemunho que se segue é de alguém que aprendeu/adquiriu "ferramentas" importantes, na sequência de uma situação marcada por profunda adversidade. Estando todos nós ou, pelo menos, uma grande maioria dos portugueses mergulhados num contexto marcadamente negativo, parti do pressuposto de que este poderia ser um testemunho importante/útil. Confesso que hesitei bastante e me questionei relativamente à possibilidade das palavras que se seguem terem alguma aplicabilidade, dado que certas aprendizagens só se fazem, provavelmente, vivendo em contextos/circunstâncias profundamente adversos.

Não é raro as pessoas referirem, em momentos de crise, que o melhor é "viver um dia de cada vez". Estas palavras provavelmente não têm o mesmo significado para todas as pessoas. Seria até interessante explorar melhor o que cada uma quererá dizer com isto. Quando, há seis anos, entrei no IPO com a minha filha gravemente doente e com uma perspetiva reduzida de sobrevivência, tive de fazer uma duríssima aprendizagem, para sobreviver emocionalmente àquela situação completamente inesperada para mim.

Curiosamente tive de aprender a viver um dia de cada vez. Para mim, que adorava fazer planos, foi uma aprendizagem muito dolorosa. Nessa altura, sempre que planeava algo, surgia constantemente um dado novo a alterar tudo e a pôr "por terra" o que ia estruturando como mais ou menos seguro. Uma pequena luz ao fundo do túnel surgia para, pouco tempo depois, se transformar numa escuridão profunda. Deixei então de fazer planos, ou quando os fazia tentava que, mentalmente, tivessem um estatuto provisório: pode ser que... ou talvez não... Sempre que uma má notícia alterava o rumo da esperança, solidificava-se a certeza de que planear só trazia sofrimento.

Quando mergulho na crise, penso nesta importante ferramenta, que adquiri ao longo dos setes meses em que toda a família lutou contra a doença, e no quanto esta foi e ainda é importante para mim. Viver um dia de cada vez não significa, de todo, que não planifique nada e que deixe tudo entregue à sorte; significa apenas que todos os meus planos são acompanhados por um "talvez". Quando recentemente ouvia um grupo de amigas falarem das férias de verão, em que cada dia tinha já um destino específico, só pensava: "Não consigo fazer este tipo de planeamento: daqui até às férias pode tudo mudar!" Este tipo de pensamento, contrariamente ao que possa parecer, tem um efeito libertador e pacificador, pois introduz sempre o fator da imprevisibilidade. A vida é tão imprevisível, que demasiados planos só atrapalham, porque temos de ter flexibilidade mental para continuamente mudar. Viver um dia de cada vez significa, também, que não vale a pena esperar por nenhum acontecimento específico para nos sentirmos bem. A vida é hoje e não há melhor dia para tentar viver melhor do que hoje. Os acontecimentos especiais meticulosamente planeados transformam-se frequentemente em momentos de grande frustração, porque os idealizamos sem o já anteriormente mencionado "talvez"!

Não vale a pena gastar muita energia mental a pensar no futuro e a antecipar que será ainda pior que hoje, pois o desgaste deste processo impedirá e comprometerá o aproveitamento máximo de tudo o que de positivo vai acontecendo à nossa volta, ainda HOJE!

A todos um excelente ano de 2013, pensando em cada um dos 365 dias do ano e não apenas nos supostamente especiais!
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.