PSICOLOGIA

Um divórcio com período de gestação

"Vou-me divorciar: os meus filhos ainda não sabem que tal decisão já foi tomada por mim e pela mãe deles. Venho cá em busca de estratégias que possam ajudar os meus filhos a ultrapassar esta situação, que certamente lhes irá causar dor."
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São múltiplos os acontecimentos/motivos que levam pais, professores e até alunos a recorrer ao Serviço de Psicologia e Orientação. Recentemente, um pedido deixou-me a pensar, devido ao seu caráter pouco habitual. Note-se que, sendo um pedido invulgar, gostaria, como profissional, que fosse frequente. Tenho a certeza de que, se pedidos como este "chovessem", muitos problemas nem sequer teriam oportunidade de se manifestar."Vou-me divorciar: os meus filhos ainda não sabem que tal decisão já foi tomada por mim e pela mãe deles. Venho cá em busca de estratégias que possam ajudar os meus filhos a ultrapassar esta situação, que certamente lhes irá causar dor."

Revendo as muitas situações de divórcio que já acompanhei, o mais habitual são pedidos orientados para a "colagem de cacos". Perspetivando psicólogos com poderes quase milagreiros, o que lhes é pedido é que ajudem os filhos a esquecer batalhas antigas e a aceitar verdadeiramente a separação dos pais. Diz o povo que o que "nasce torto, tarde ou nunca se endireita". Por isso, o desejo deste pai em começar bem uma nova etapa no relacionamento parental pareceu-me francamente positivo. Pensando no estado de ebulição interior em que este homem estava e no contexto extremamente delicado que envolvia toda esta separação, quase arriscaria dizer que não há desculpa para não se começar todo o processo de divórcio tendo em conta o elo mais fraco: os filhos!

Tendo como referência a nossa cultura, diversas etapas importantes da vida humana são acompanhadas de uma preparação prévia: o casamento é antecedido pelo namoro, o nascimento de um filho segue-se a um período de gestação. Também o divórcio deveria contemplar uma etapa prévia de amadurecimento e preparação, em que os filhos ocupassem um lugar central... Compreendo que, sendo uma etapa marcada por sentimentos dolorosos e muitas vezes contraditórios, seja difícil primeiro pensar e só depois agir, refreando ânimos, acalmando emoções, mas, se tal não acontecer, uma vez mais todos sairão a perder!

O que fazer então quando o divórcio estiver em fase de gestação? Os pais deverão planear o contexto em que a notícia será dada aos filhos, um contexto em que mãe e pai estejam presentes e em que os filhos sejam ajudados a acreditar que o amor, apesar de entre os pais ter terminado, será eterno no que a eles se refere. As rotinas, que obrigatoriamente se alterarão, deverão também ser comunicadas, para que as crianças nem precisem de se desgastar com a pergunta: e agora com quem fico, como vai ser a minha vida? A vida dos filhos tem de ser programada minuciosamente no dito período de gestação. Se eles sentirem que a sua vida não corre riscos de ficar à deriva, tudo será mais fácil!

As circunstâncias dos conflitos parentais não devem ser partilhadas com as crianças. Muitas vezes, o elemento do casal mais ferido procura denegrir o outro, tentando demostrar que a separação se deve a comportamentos e atitudes menos positivos da parte deste, entrando em pormenores que os filhos não devem saber. O amor entre os pais terminou: esta é a mensagem que tem de ser transmitida, sem entrar em aspetos mais íntimos, que só ao casal dizem respeito.

O facto de o pai e a mãe se separarem já é uma grande mudança. Por isso, há que evitar outras alterações, tentando manter as rotinas o mais semelhantes possível ao que eram antes da separação!

Se pai e mãe elegerem como questão central, no dito período de gestação e em todo o período posterior à separação, "O que fazer para que o divórcio seja o menos penoso possível para os nossos filhos?", estarão certamente a evitar o já mencionado "colar de cacos".
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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