PSICOLOGIA

Quem manda aqui?

Mesmo que a educação seja rígida, esta não trará problemas por si só, se for acompanhada de muito amor.
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Gostaria de ver abordada a problemática do medo que os pais têm de exercer a disciplina. Confunde-se disciplina com autoritarismo, compram-se as crianças com objetos ridículos (e provavelmente perniciosos também para a saúde) como telemóveis e outros e ouvem-se coisas verdadeiramente extraordinárias como: 'aos 13 anos já não as controlas, saem à noite, todos saem...' Isto parece-me inaceitável. Digo sempre que educar é a coisa mais difícil do mundo e DÁ MUITO TRABALHO! Acho que este é um dos maiores problemas. Dá muito mais trabalho que dizer não do que, pura e simplesmente, ceder, impor regras e garantir que são cumpridas do que viver cada um como quer. Por favor, de uma vez por todas, as regras são benéficas para as crianças e não são sinónimos de severidade, pelo contrário.
Considero os pais portugueses PÉSSIMOS EDUCADORES.


Isabel Machado, Estoril

Porquê que os pais têm tanto medo de exercer a disciplina? Esta é uma questão interessante, sobre a qual me parece importante refletir. Provavelmente a maioria dos pais reconhecem que em determinados momentos é importante dizer não à criança e admitem que as regras são importantes na sua educação, mas no dia a dia nem sempre é fácil concretizar estes aspetos. Afirmar que exercer a disciplina é difícil porque dá trabalho parece-me uma justificação superficial, uma vez que não exercê-la acaba por dar muito mais trabalho. Os pais que têm filhos que constantemente fazem birras sabem-no bem. O que acontece frequentemente é que os pais têm medo de ser exigentes com os filhos porque receiam perder o afeto destes. Esta é que me parece ser a raiz da questão. Frequentemente pais divorciados têm dificuldade em exercer regras, com receio de serem vistos como os maus da fita. Não é raro ouvir estes pais dizerem que em alguns momentos só não dão uma palmada no filho porque se o fizerem ele vai gostar mais do outro progenitor, já que este tem uma atitude educativa mais passiva.

Quando impõem regras os pais correm o risco temporário de gerar na criança antipatia e ressentimento uma vez que esta se vai sentir frustrada, pois os pais vão constituir uma espécie de barreira para a sua ação. A reação negativa da criança face às regras é que torna tão difícil a sua imposição. Na verdade, esta é provavelmente uma das formas mais difíceis de dar amor à criança pois temporariamente gera rejeição e só mais tarde retribuição. As crianças perdoam sempre a atitude firme e passam a amar mais os pais em resultado desta, pois sentem que a firmeza é o reflexo do envolvimento e preocupação dos pais. As crianças precisam de regras pois sentem-se seguras se souberem até onde podem ir, se não conhecerem os limites do que é tolerável não sabem como comportar-se. A existência de linhas claras ajuda-as a desenvolver o seu próprio autocontrolo.

Não é tão pouco frequente como isso as crianças fazerem asneiras para tentarem forçar os pais a fornecerem-lhes diretrizes. Quando estes não o fazem, estas vão experimentando constantemente os limites, tornando-se cada vez mais insuportáveis com o objetivo de provocar uma reação. Quanto mais os pais adiarem a imposição de regras claras, maiores serão as explosões e mais tempo demorarão a passar. Por esta razão é fundamental ir fornecendo às crianças, desde muito novas, diretrizes quando estas as pedirem para se irem adaptando lentamente, à medida que desenvolvem o seu autocontrolo.

Mesmo que a educação seja rígida, esta não trará problemas por si só, se for acompanhada de muito amor. Os estudos mostram que é preferível errar por excesso de firmeza do que ser indulgente, uma vez que, os efeitos de uma disciplina muito austera tendem a desvanecer-se com o tempo, ao passo que os efeitos do excesso de indulgência são mais perniciosos, pois a aquisição de auto-controlo é uma tarefa bastante árdua.

Embora a imposição de regras não seja por vezes nada fácil, parece ser uma boa aposta, pois a criança, embora não se aperceba disso na altura, acabará por reconhecê-lo mais tarde.

Bibliografia:Skynner, R. & Cleese, J. (1983).
Famílias e como sobreviver com elas. Porto, Edições Afrontamento.

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Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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