PSICOLOGIA

Dependência online

O Jorge é uma presa fácil para a “amiga” net: apresenta baixa autoestima, isolamento e baixa perceção de coesão familiar. A depressão é o único ingrediente que lhe falta para ser a presa perfeita.
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O Jorge é um adolescente afetuoso e interativo, de quem facilmente se gosta e com quem se cria empatia de imediato. Quando frequentava o 6º ano, foi encaminhado para o Serviço de Psicologia e Orientação, devido a insucesso escolar. As fragilidades da sua retaguarda familiar eram óbvias, e os riscos decorrentes da pouca supervisão eram ainda mais evidentes. Logo nos primeiros atendimentos, questionei-me sobre o futuro daquele rapaz, rodeado de adultos sem capacidade para o orientar. Agora, a frequentar o 8º ano, adormece nas aulas e assume que tem um problema que não consegue ultrapassar sozinho. Os jogos online cercaram-lhe a vida, de tal forma que, mesmo querendo, mesmo planeando fugir-lhes, não consegue. A sua vida emocional, o seu rendimento académico e as suas relações de amizade foram profundamente abalados, provocando-lhe sofrimento. Como a família não tem capacidade para pôr fim ao problema, a escola é obrigada a recorrer a outras entidades para socorrer este jovem que pede ajuda!
Tal como é referido na literatura, o Jorge é uma presa fácil para a “amiga” net: apresenta baixa autoestima, isolamento e baixa perceção de coesão familiar. A depressão é o único ingrediente que lhe falta para ser a presa perfeita. Acredito que a aridez familiar o foi empurrando para a Internet na busca de um óasis, onde a adrenalina, termo que ele usa frequentemente quando fala dos jogos, lhe foi dando sensações para além do cinzento do seu ambiente familiar. Quando os professores o começaram a pressionar para a necessidade de se manter de olhos bem abertos nas aulas, acordou para a certeza de que a net era o centro da sua vida e não a conseguia tirar desse lugar dolorosamente central. “Quando falo consigo, acho que serei capaz de chegar a casa e estudar, de seguir o plano de estudo traçado, mas algo mais forte me empurra para o computador.”, “Passo, no computador, cerca de 100 horas por semana, pois, logo que chego da escola, vou de imediato para lá e só o deixo por volta das 4 horas da manhã”. Esta incapacidade para parar de estar online, apesar da tentativa de reduzir o número de horas lá passadas, é um ciclo típico de outras situações clínicas associadas ao consumo de substâncias.

Atualmente, já existem intervenções terapêuticas destinadas a tratar o uso problemático da Internet. Na Ásia, onde este problema parece ter surgido primeiro, criaram-se campos de treino, onde, de uma forma geral, a intervenção passa pela privação de dispositivos eletrónicos, acesso limitado ao telefone, organização de atividades de grupo para promover o contato face a face e realização de exercício físico. Nos Estados Unidos foram criados programas de internamento com duração média de 3 meses, com o objetivo de estimular estilos de vida saudáveis, explicar a natureza do processo de dependência e recuperar as áreas de vida afetadas. Após a alta, os envolvidos continuam a ter acompanhamento, elaborando-se um plano de uso equilibrado da Internet.

Também na Europa, em quase todos os países, nomeadamente em Portugal, há centros de tratamento ambulatório, internamento e consultas da especialidade, em hospitais centrais, mais especificamente nos departamentos de psiquiatria. As terapias cognitivo-comportamentais, o modelo dos 12 passos, a intervenção familiar e o tratamento das comorbidades parecem ser fundamentais para o tratamento deste tipo de patologias. O objetivo principal da intervenção é estimular a autoestima, o autocontrolo e a resistência à frustração.

Em Portugal, foi no Hospital de Santa Maria, em 2013, que surgiu a primeira resposta para atender jovens e famílias que se confrontam com o problema do uso abusivo das tecnologias: “O núcleo de utilização problemática da Internet”. A intervenção nem sempre é fácil, pois os jovens muito frequentemente não reconhecem o problema e, por isso, não colaboram na sua resolução. Procuram, assim, uma forma de retaliação sobre a família, por esta os obrigar a submeterem-se a essa intervenção que não desejam.

Apesar de a interação com a tecnologia em muitos casos não ser problemática, o uso abusivo da Internet é um problema que tem vindo a crescer em todo o Mundo. Por isso, é fundamental toda a nossa atenção e intervenção, para que este problema não se venha a tornar ainda maior.

Bibliografia: Patrão, I., Sampaio, D. Dependências online. O poder das tecnologias. Edição Pactor.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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