PSICOLOGIA

Falta de tempo

Profissões extremamente exigentes, com horários muito preenchidos, roubam quase todo o tempo de que os pais poderiam usufruir para partilhar com os filhos.
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Uma das angústias que os pais frequentemente partilham no atendimento prende-se com a falta de tempo para estar com os filhos. Profissões extremamente exigentes, com horários muito preenchidos, roubam quase todo o tempo de que os pais poderiam usufruir para partilhar com os filhos. Esta questão do tempo dá que pensar e não é tão objetiva quanto à primeira vista possa parecer. O relato verídico de duas mães com vidas profissionais muito exigentes poderá ajudar a clarificar a afirmação anterior.

Uma destas mães dizia que sempre fizera questão em passar férias com o marido durante um período de tempo, sem a presença do filho, e que, aos 9 meses, fez o desmame do seu bebé e foi para Paris passar algum tempo com uma familiar. Com este tipo de atitudes pretendia contribuir para a autonomia do filho e ajudá-lo a adaptar-se a diferentes situações e contextos. Curiosamente, este filho, antes de entrar no 1.º ciclo, pelo facto de ser uma criança muito precoce, foi avaliado por um psicólogo, tendo caracterizado a mãe como sendo 'muito disponível'.

A outra mãe afirmava que ficou muito triste porque as filhas se lamentavam por ela ter uma profissão que lhe ocupava demasiado tempo. Segundo esta mãe, era sempre a primeira a sair do local de trabalho (17h30) e faz questão de estar com as filhas após a saída deste local. O seu TPC é feito só quando as filhas se vão deitar e também não pega nele ao fim de semana.

Estas duas histórias podem levantar-nos imensas questões, nomeadamente a qualidade do tempo que passamos com os nossos filhos. Os estudos têm demonstrado que o mais importante não é passar muito tempo com eles, mas que esse tempo tenha qualidade. Às vezes estamos sem estar e o pouco tempo que estamos é tão pobre que é quase como se estivéssemos ausentes... Quando não conseguimos deixar o trabalho, mesmo tendo saído do seu local, acabamos por ter a cabeça tão cheia que pouca disponibilidade temos para lhes darmos alguma atenção.

Quando penso na mãe que passa algum tempo das suas férias sem o filho, parece-me que esta poderá, de certa forma, dar um tempo a si própria, para depois ter disponibilidade mental para estar com o filho. A falta de tempo para nós próprios absorve a paciência que é necessário ter para estarmos verdadeiramente com eles. Como arranjar um pouco de tempo para a própria pessoa e até para o casal é algo que, apesar de ser uma missão quase impossível, será importante equacionar...

Este é de facto um tema que, como diz o povo, 'dá pano para mangas', sobretudo porque encontrar a dose e a qualidade certa não é fácil. Ótimo seria se também para esta difícil questão fosse possível encontrar uma receita. Como ela não existe, resta-nos apenas ir gerindo da melhor maneira o tempo que temos, de forma a que, apesar de pouco, tenha os ingredientes adequados para ajudamos os filhos a crescerem equilibradamente.

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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