PSICOLOGIA

Masturbação na infância

A masturbação é, nesta e noutras idades, um comportamento normal, devendo ser encarado como tal. Só na nossa cabeça poluída de adultos é que a masturbação infantil é encarada como algo de perverso e lascivo.
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"Temos uma filha com 5 anos, que anda no jardim de infância. Gostaríamos de ter a sua opinião sobre a forma como devemos lidar com a situação que a seguir descrevemos. Verificámos que com cerca de 3 anos ela começou a masturbar-se em casa quando estava a ver televisão, quando estava sozinha na sala ou quando se ia deitar à noite. O mesmo acontecia no jardim de infância, quando era deixada sem nenhuma atividade que a ocupasse. Tomámos algumas medidas, como deixá-la ver desenhos animados apenas na televisão da cozinha, ficar na cama com ela até adormecer e explicar-lhe que não o deveria fazer à frente de outras pessoas.
Há poucas semanas, a educadora de infância disse-nos que tinha reparado que na "hora da manta", quando as crianças estão sentadas ou deitadas a ver histórias, a nossa filha se masturbava, sem que os colegas se apercebessem. Gostaríamos de ser devidamente aconselhados relativamente a esta situação."


Com o passado negro que tem a masturbação e com todos os preconceitos e mitos que ainda giram à volta desta questão, não é de surpreender que continue a causar receio e perplexidade. Ainda hoje, a masturbação é considerada, à luz de algumas religiões, moralmente reprovável e há quem considere (erradamente) que pode estar na origem de impotências sexuais, em ambos os sexos. O facto de se ter negado a sexualidade infantil durante muito tempo dificulta ainda mais a aceitação deste ato como algo que se enquadra na normalidade.

Por muito que nos custe a acreditar, as crianças realmente masturbam-se, fazendo-o sobretudo a partir dos 3 anos de idade. Este comportamento ocorre porque a exploração dos órgãos sexuais lhes dá prazer. A masturbação é, nesta e noutras idades, um comportamento normal, devendo ser encarado como tal. Só na nossa cabeça poluída de adultos é que a masturbação infantil é encarada como algo de perverso e lascivo.
 
A grande questão que se coloca relativamente à masturbação é o facto de se tratar de um comportamento que requer intimidade e privacidade, devendo esta mensagem ser passada à criança. Curiosamente, a menina de que falei na introdução deste artigo assimilou a mensagem da privacidade, pois, se aos três se exponha ao olhar dos outros, aos cinco masturba-se "sem que os colegas se apercebessem". Depois de tudo o que foi dito, escusado será dizer que um comportamento repressivo é de todo desnecessário e desaconselhável. Quanto menos importância for dada a este assunto, mais rapidamente passará esta etapa.

De forma a reforçar tudo o que já foi referido, resta-me acrescentar que, no livro Educação Sexual na Escola, do conhecido sexólogo Júlio Machado Vaz, é defendida a referência à masturbação no programa de educação sexual em idade pré-escolar (0-6 anos). Nesta faixa etária, ao nível dos conteúdos específicos/objetivos específicos é importante, segundo o autor, "aprender a realizar a masturbação, se existir, na privacidade".

Resta acrescentar que, se a criança começar a masturbar-se de uma forma claramente obsessiva em qualquer lugar, e não houver redução deste comportamento à medida que o tempo for passando, então poderá ser necessário recorrer à ajuda de um psicólogo.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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