EDUCAÇÃO
Armanda Zenhas
Visitadores domiciliários
Alfredo faltava às aulas e tinha comportamentos bastantes indisciplinados. O contacto com a família fazia-se através de carta ou de telemóvel. Quando convidado a ir à escola, o pai ou não podia ir ou marcava e não aparecia.
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Num artigo anterior, falando sobre a violência e a indisciplina, referi-me à necessidade de haver uma rede de profissionais e de instituições, trabalhando em parceria com a escola, para fazer frente à multiplicidade de problemas com que ela se defronta, numa era de massificação do ensino e de crescente diversidade cultural da população. De facto, não são apenas a indisciplina ou a violência que levantam tal necessidade. São os casos de crianças mal nutridas, maltratadas ou até verdadeiramente abandonadas em casa. São os alunos provenientes de outros países, que desconhecem a língua e a cultura portuguesas. São tantos outros problemas, a que a escola tem que dar resposta, para a qual faltam apoios.
Nesse artigo, falei da figura do visitador domiciliário. Como se compreenderá pelos exemplos que vou dar, carece de uma formação e de um perfil adequados. Não cabe aos professores essa tarefa.
Naquela escola, havia uma associação de pais e encarregados de educação (AP) extremamente dinâmica. Quando havia problemas a apontar, fazia-o criticamente, sempre numa perspetiva construtiva e com o objetivo de os resolver. Quando havia necessidade de colaboração, não a negava. Um papel importante desempenhado pelo presidente da AP foi o de visitador domiciliário, trabalhando em colaboração com os conselhos de turma, os diretores de turma e o conselho executivo. Aqui ficam dois exemplos de problemas graves, cuja história terminaria mal, se não tivesse havido esta intervenção, sendo que não foram os únicos em que ele interveio, sempre com sucesso.
Anabela tinha sido deixada pela mãe, ainda bebé, em casa da avó, que a criou, sem nunca ter regularizado a situação do poder paternal. Anabela encontrava-se no 6.º ano e morava com a avó, a alguns quilómetros de distância da mãe, cuja profissão nunca ficou muito clara. A avó, muito velhinha e muito meiga, comparecia a todos os atendimentos marcados pela diretora de turma (DT) e prontificava-se a colaborar com ela para acabar com as diabruras e os "tiritos" às aulas que a neta ia dando. A certa altura, Anabela desapareceu totalmente das aulas. Telefonema da DT para a avó, constatação do desespero desta: a neta fora para casa da mãe e não conseguia falar com nenhuma, pois não lhe abriam a porta. Participação da DT à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco. Alguns dias depois, presença da mãe na escola, querendo falar com a DT. Não podendo esta recebê-la, por estar em aulas, ficou a ameaça no ar: "Isto Não fica assim. Fazer queixa de mim?! Não trato do assunto aqui, trato lá fora. Ela não perde pela demora." Conversa da DT com o presidente da AP e este disponibilizou-se a ir a casa da aluna, então a morar com a mãe e a avó (que entretanto adoecera). Na conversa, assertiva, com a mãe, a que a avó assistiu, ele deixou claro que a encarregada de educação e interlocutora da escola era a avó, que o dever de assiduidade era imposto pela lei e que as ameaças aos professores eram inadmissíveis. Garantiu que ele próprio apresentaria queixa na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco se tal voltasse a suceder. A mãe desapareceu de cena, no que à escola diz respeito, e o ano terminou serenamente para Anabela, regressada à escola e acompanhada de perto pela avó.
Alfredo faltava às aulas e tinha comportamentos bastantes indisciplinados. O contacto com a família fazia-se através de carta ou de telemóvel. Quando convidado a ir à escola, o pai ou não podia ir ou marcava e não aparecia. Desconfiando da situação, a DT e o conselho de turma pediram a colaboração do presidente da Associação de Pais. Deslocando-se este a casa do aluno, encontrou uma família muito desestruturada, que não recebia as cartas (surripiadas pelo Alfredo) nem atendia os telefonemas (pois quem tinha o telemóvel era também o nosso jovem). Alertada para a situação, a mãe, apesar da sua vida difícil, passou a ir à escola e a colaborar com a DT, tendo o Alfredo acabado a sua "carreira" de absentismo e indisciplina e obtido sucesso escolar.
Num estudo realizado em Portugal, pela investigadora Adelina Villas-Boas, visitadores domiciliários participaram num programa de acompanhamento de famílias de origem africana e indiana, para promoverem a sua integração e ajudarem os pais a adquirirem/desenvolverem competências de acompanhamento dos filhos na sua vida escolar, particularmente na aquisição e domínio da língua portuguesa e da leitura (ver Villas-Boas, M.A. (2001). Escola e família: Uma relação produtiva de aprendizagem em sociedades multiculturais. Lisboa: Escola Superior de Educação João de Deus).
Estes casos foram bem sucedidos. São experiências a merecer reflexão e replicação. Mas não são experiências a serem deixadas à "carolice" de presidentes de associações de pais ou de professores. Elas têm que ser levadas a sério e entregues a profissionais preparados para o efeito, que, como referi antes, trabalhem em rede com a escola e outras instituições. Se assim não for, quando os "carolas" saem de cena (como o presidente da AP que referi), acaba-se o trabalho por eles lançado.
Os professores não são os "maus da fita", que pouco trabalham e nada ensinam. Os pais não são igualmente os "maus da fita" que não colaboram com a escola e não sabem educar os filhos. Haverá bons e maus exemplos de ambos os lados. Mas a maioria de uns e outros pretende verdadeiramente o melhor para as crianças e os jovens: o seu sucesso educativo e académico. Só que não se pode esperar que os professores sejam mágicos e tirem da cartola os mais diversos fatos, para se travestirem de psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais, responsáveis únicos pela assiduidade e pelos resultados escolares dos alunos.
Faz-se sentir a necessidade de apoios às escolas, da tal rede que referi e, acredite-se, os visitadores domiciliários têm um importante papel a desempenhar, como se prova nos casos que contei, em que apenas os nomes são fictícios.
Nesse artigo, falei da figura do visitador domiciliário. Como se compreenderá pelos exemplos que vou dar, carece de uma formação e de um perfil adequados. Não cabe aos professores essa tarefa.
Naquela escola, havia uma associação de pais e encarregados de educação (AP) extremamente dinâmica. Quando havia problemas a apontar, fazia-o criticamente, sempre numa perspetiva construtiva e com o objetivo de os resolver. Quando havia necessidade de colaboração, não a negava. Um papel importante desempenhado pelo presidente da AP foi o de visitador domiciliário, trabalhando em colaboração com os conselhos de turma, os diretores de turma e o conselho executivo. Aqui ficam dois exemplos de problemas graves, cuja história terminaria mal, se não tivesse havido esta intervenção, sendo que não foram os únicos em que ele interveio, sempre com sucesso.
Anabela tinha sido deixada pela mãe, ainda bebé, em casa da avó, que a criou, sem nunca ter regularizado a situação do poder paternal. Anabela encontrava-se no 6.º ano e morava com a avó, a alguns quilómetros de distância da mãe, cuja profissão nunca ficou muito clara. A avó, muito velhinha e muito meiga, comparecia a todos os atendimentos marcados pela diretora de turma (DT) e prontificava-se a colaborar com ela para acabar com as diabruras e os "tiritos" às aulas que a neta ia dando. A certa altura, Anabela desapareceu totalmente das aulas. Telefonema da DT para a avó, constatação do desespero desta: a neta fora para casa da mãe e não conseguia falar com nenhuma, pois não lhe abriam a porta. Participação da DT à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco. Alguns dias depois, presença da mãe na escola, querendo falar com a DT. Não podendo esta recebê-la, por estar em aulas, ficou a ameaça no ar: "Isto Não fica assim. Fazer queixa de mim?! Não trato do assunto aqui, trato lá fora. Ela não perde pela demora." Conversa da DT com o presidente da AP e este disponibilizou-se a ir a casa da aluna, então a morar com a mãe e a avó (que entretanto adoecera). Na conversa, assertiva, com a mãe, a que a avó assistiu, ele deixou claro que a encarregada de educação e interlocutora da escola era a avó, que o dever de assiduidade era imposto pela lei e que as ameaças aos professores eram inadmissíveis. Garantiu que ele próprio apresentaria queixa na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco se tal voltasse a suceder. A mãe desapareceu de cena, no que à escola diz respeito, e o ano terminou serenamente para Anabela, regressada à escola e acompanhada de perto pela avó.
Alfredo faltava às aulas e tinha comportamentos bastantes indisciplinados. O contacto com a família fazia-se através de carta ou de telemóvel. Quando convidado a ir à escola, o pai ou não podia ir ou marcava e não aparecia. Desconfiando da situação, a DT e o conselho de turma pediram a colaboração do presidente da Associação de Pais. Deslocando-se este a casa do aluno, encontrou uma família muito desestruturada, que não recebia as cartas (surripiadas pelo Alfredo) nem atendia os telefonemas (pois quem tinha o telemóvel era também o nosso jovem). Alertada para a situação, a mãe, apesar da sua vida difícil, passou a ir à escola e a colaborar com a DT, tendo o Alfredo acabado a sua "carreira" de absentismo e indisciplina e obtido sucesso escolar.
Num estudo realizado em Portugal, pela investigadora Adelina Villas-Boas, visitadores domiciliários participaram num programa de acompanhamento de famílias de origem africana e indiana, para promoverem a sua integração e ajudarem os pais a adquirirem/desenvolverem competências de acompanhamento dos filhos na sua vida escolar, particularmente na aquisição e domínio da língua portuguesa e da leitura (ver Villas-Boas, M.A. (2001). Escola e família: Uma relação produtiva de aprendizagem em sociedades multiculturais. Lisboa: Escola Superior de Educação João de Deus).
Estes casos foram bem sucedidos. São experiências a merecer reflexão e replicação. Mas não são experiências a serem deixadas à "carolice" de presidentes de associações de pais ou de professores. Elas têm que ser levadas a sério e entregues a profissionais preparados para o efeito, que, como referi antes, trabalhem em rede com a escola e outras instituições. Se assim não for, quando os "carolas" saem de cena (como o presidente da AP que referi), acaba-se o trabalho por eles lançado.
Os professores não são os "maus da fita", que pouco trabalham e nada ensinam. Os pais não são igualmente os "maus da fita" que não colaboram com a escola e não sabem educar os filhos. Haverá bons e maus exemplos de ambos os lados. Mas a maioria de uns e outros pretende verdadeiramente o melhor para as crianças e os jovens: o seu sucesso educativo e académico. Só que não se pode esperar que os professores sejam mágicos e tirem da cartola os mais diversos fatos, para se travestirem de psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais, responsáveis únicos pela assiduidade e pelos resultados escolares dos alunos.
Faz-se sentir a necessidade de apoios às escolas, da tal rede que referi e, acredite-se, os visitadores domiciliários têm um importante papel a desempenhar, como se prova nos casos que contei, em que apenas os nomes são fictícios.
Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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