EDUCAÇÃO

Estereótipos de género (1.ª parte)

Se a mulher tiver uma profissão que implique horários não compatíveis com o desempenho dessas funções e o homem as assumir, ele poderá ser visto como "efeminado" e, se o casamento falhar, é óbvio que as responsabilidades serão da mulher, que não cumpriu com os seus deveres de esposa e de mãe.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
"Gostaria que fossem tratadas as questões do género em termos da educação. Nomeadamente, até que ponto as práticas na sala de aula podem ser agentes de reprodução dos estereótipos do género; até que ponto os juízos de valores que fazemos na avaliação dos alunos podem estimular/inibir as escolhas dos alunos por determinadas áreas... Enfim, sugestões de como melhorar as práticas, a fim de se poder contribuir para uma verdadeira coeducação de rapazes e raparigas e para uma sociedade mais justa e equitativa em termos de oportunidades dos seus cidadãos."
Tânia Silva

A importância e a extensão das questões levantadas por esta leitora levaram-me a responder-lhe não apenas num artigo, mas sim em dois, nos quais procurarei apresentar informação e lançar pistas para reflexão. Neste primeiro, referir-me-ei às características dos estereótipos e ao seu processo de formação.

Na literatura, os estereótipos de género "são frequentemente definidos como o conjunto de crenças estruturadas acerca dos comportamentos e características particulares do homem e da mulher." (Neto, A., Cid, M., Pomar, C., Chaleta, E., Folque, A., p. 11). Funcionam como esquemas cognitivos que controlam o tratamento da informação recebida e a sua organização, a interpretação que se faz dela e os comportamentos a adotar. Podem ser divididos em dois tipos: os estereótipos de papéis de género, que dizem respeito às crenças relativas às atividades adequadas a homens ou a mulheres; os estereótipos de traços de género, que remetem para as características psicológicas atribuídas distintamente a cada um dos géneros.

Exemplificando:
De acordo com uma visão estereotipada dos papéis de género, cabem ao homem papéis relacionados com a esfera pública e o trabalho remunerado, tendo a única ou a mais bem remunerada profissão do casal, tomando em mãos as decisões mais importantes no que se refere à aplicação do dinheiro ou atividades de relacionamento com bancos ou outras instituições. À mulher cabem papéis articulados com a esfera do privado, a família e o lar, sendo da sua responsabilidade a organização da vida quotidiana da família, cuidar dos filhos e dos aspetos ligados à sua saúde e educação, as tarefas domésticas. Se a mulher tiver uma profissão que implique horários não compatíveis com o desempenho dessas funções e o homem as assumir, ele poderá ser visto como "efeminado" e, se o casamento falhar, é óbvio que as responsabilidades serão da mulher, que não cumpriu com os seus deveres de esposa e de mãe.

A marcação nítida dos papéis de género nota-se em dois filmes bem conhecidos. O primeiro, Billy Elliot, fala-nos de uma criança, Billy, e da persistência e sofrimento que estiveram envolvidos na sua luta para prosseguir o sonho de ser bailarino, atividade considerada completamente desadequada na sua comunidade (e não só!). Este estereótipo de papel de género implica a atribuição de traços de género e consequente consideração de quem não obedece ao estereótipo de papéis como tendo traços do género oposto, sendo, por isso, alvo de ainda maior discriminação. O segundo filme é Million Dollar Baby, em que a história se coloca ao contrário, embora com uma personagem adulta, uma mulher, que pretende ser lutadora de boxe, e o consegue debatendo-se contra todas as formas de discriminação com que se vai deparando.

Martin, Wood e Little (1990, citado por Neto, A., Cid, M., Pomar, C., Chaleta, E., Folque, A., 1999) consideram três estádios de desenvolvimento dos estereótipos de género: até aos 4 anos, as crianças aprendem as características relacionadas com cada um dos géneros; dos 4 anos aos 6, fazem associações mais complexas e indiretas relativas à informação relevante para o seu próprio género; dos 6 anos em diante, aprendem as associações pertinentes para o género oposto.

A identidade de género e as características típicas de cada um deles vão-se adquirindo durante o processo de socialização, de acordo com os estádios enunciados. Vários são os agentes de socialização, pelo que farei, no próximo artigo, referência à família, aos grupos de pares e à escola, não pretendendo, contudo, ignorar a influência de outros, como os meios de comunicação social.

Os dois livros que consultei para redigir este artigo fazem parte de uma coleção de livros de pequeno formato, publicados pela Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, que considero muito úteis, contendo, alguns deles, sugestões práticas de trabalho para as escolas, pelo que recomendo vivamente a sua consulta e até a sua aquisição, pelo menos de alguns, para as bibliotecas escolares.

Bibliografia:
Monge, M., Rosário, M., Cañamero, G. (1999). Criatividade na coeducação: uma estratégia para a mudança. Lisboa: Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres.
Neto, A., Cid, M., Pomar, C., Chaleta, E., Folque, A. (1999). Estereótipos de género. Lisboa: Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres.
Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.