EDUCAÇÃO

Os mega-agrupamentos (2.ª parte)

Todo o trabalho referido é deitado ao lixo e serão designados diretores e elaborados novos projetos educativos. E a especificidade de cada agrupamento/escola anterior?
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"(...) a característica porventura mais perigosa da crise radica no crescente distanciamento das instituições, nas quais as nossas crianças passam tanto tempo inseridas face ao mundo em que vivem e onde continuarão a viver."

Sacristán, p. 230

Os mega-agrupamentos, resultantes do reordenamento da rede escolar para este ano letivo, têm dado muito que falar e que refletir. No último artigo, procurei dar algum contributo para essa reflexão, que prometi continuar. Relembro que distingui dois grandes tipos de mega-agrupamentos: os mega-agrupamentos "vários-em-um" e os mega-agrupamentos "um-em-vários". Falei dos primeiros no artigo anterior, pelo que me dedicarei hoje aos últimos.

Os mega-agrupamentos "um-em-vários"
Este tipo de agrupamentos já existia: uma escola-sede, a de grau de ensino mais elevado (normalmente E.B. 2.3.) e várias escolas associadas (geralmente de pré-escolar e 1.º ciclo). Estes agrupamentos tiveram as suas direções e outros órgãos de gestão designados há um ano e documentos como o projeto educativo e o regulamento interno feitos depois disso, para um período de 4 anos. Um ano depois, deixam de existir e crescem com a fusão de agrupamentos ou de um agrupamento e uma escola secundária. Todo o trabalho referido é deitado ao lixo e serão designados diretores e elaborados novos projetos educativos. E a especificidade de cada agrupamento/escola anterior? Faz-me lembrar a velha máxima, tão contestada nos tempos modernos, de ensinar todos como se de um se tratasse.

A régua e esquadro são fechadas escolas que se juntam a outras, obrigando as crianças a deslocações, independentemente da sua idade. A escola como elemento integrante da comunidade é, em muitos casos, posta em causa, com o seu encerramento e a deslocação das crianças para locais onde não têm raízes. Com as horas de escola e o período de deslocações, estes jovens pouco tempo têm para estar nas suas casas e nas suas povoações. Como os emigrantes, estrangeiros no seu país de acolhimento e já não naturais no seu país natal, também eles serão alunos de uma escola que não pertence à sua comunidade e encontrar-se-ão nesta tão pouco tempo que ela se lhes irá tornando estranha. As ocasiões para jogar à bola no adro da igreja, para andar de bicicleta no parque, para ficar na casa dos avós, para brincar com os irmãos, para conversar com os pais vão escassear. Como acentua a citação de Sacristán que inicia este texto, é perigoso o cada vez maior distanciamento das instituições em que as crianças estão inseridas, face ao seu mundo.

Como já sublinhei, o mega-agrupamento trata todas as escolas/agrupamentos anteriores, nela incluídos, como se de um se tratasse, ignorando os anteriores projetos educativos e construindo um novo, em que as especificidades se irão perdendo cada vez mais. Ajudará isto à integração dos alunos, seja nas transições de ciclo ou em qualquer outro ano de escolaridade? E quanto à relação entre a escola e a família? Se até aqui já se levantavam dificuldades, uma das quais o tempo de deslocação entre o trabalho e a escola, o que dizer quando a escola passa a estar mais longe de casa e já nem são os pais a levar os filhos, mas sim o transporte escolar?

Retomando o artigo de Público de 19-07-2010, que citei no artigo anterior, Portugal envereda, de novo, por caminhos já experimentados por outros países e abandonados por não terem sido bem sucedidos.

Como sustentar pedagogicamente tal decisão? Penso que não é possível. Na minha opinião, trata-se de mais uma medida economicista, que poderá permitir poupar no imediato, mas cujos custos virão a mostrar-se elevados, adivinhando-se uma maior desertificação das aldeias, um decréscimo das condições de aprendizagem dos jovens, e consequentemente, da sua formação, um maior distanciamento entre a escola e a comunidade. A educação dos nossos jovens merecia melhor. O nosso país merecia melhor.

Bibliografia:
Sacristán, J. G. (2003). O aluno como invenção. Porto: Porto Editora.
Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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