EDUCAÇÃO

Os mega-agrupamentos (1.ª parte)

A diversidade de situações e de problemas, já existente, multiplicar-se-á, tendo os educadores que lidar com um maior grau de incerteza e de, em menos tempo, integrar toda a informação, com um tempo diminuto para sobre ela refletir e atuar de forma adequada.
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"A escola é a segunda família das nossas crianças"

Frase anónima ouvida frequentemente.

"Não queremos uma escola na qual se aprenda a sobreviver, desaprendendo a viver."

Comenio, 1632

O calor do verão trouxe os mega-agrupamentos, contestados por todos os setores, incluindo pais, professores e autarcas, com argumentos de variados tipos. Centrar-me-ei em alguns, particularmente de natureza pedagógica.

É voz corrente que Portugal implementa, com atraso, experiências levadas a cabo noutros países e por eles já abandonadas por não terem sido bem-sucedidas. É o caso dos mega-agrupamentos, de acordo com o jornal Público de 19-07-2010. Num artigo assinado por Clara Viana, dizia-se que nas escolas da Finlândia "a pequena dimensão é apontada como uma das marcas genéticas de um sistema de ensino que se tem distinguido pela sua excelência". Referia ainda esse artigo que, em Nova Iorque, escolas de grande dimensão têm vindo a ser substituídas por outras bastante mais pequenas, tendo o insucesso escolar diminuído muito.

Vou considerar dois tipos de mega-agrupamentos: "vários-em-um" e "um-em-vários". Entre diversas "virtudes" dos mega-agrupamentos que ouvi apontadas por responsáveis governamentais, vou atender, em particular, à intenção de facilitar a transição entre ciclos, momentos em que os alunos têm mostrado mais dificuldades e maior insucesso e que, de acordo com eles, seria feita de forma mais harmoniosa.

Os mega-agrupamentos "vários-em-um"
Uma única escola oferece os vários níveis de ensino, eventualmente desde o pré-escolar até ao secundário, podendo ter um número de alunos que ultrapassa largamente o milhar. Fazendo toda a escolaridade no mesmo local, estariam presumivelmente ultrapassadas as dificuldades das transições entre ciclos.

Numa escola com muitos alunos, torna-se muito difícil que cada um consiga ver reconhecida a sua individualidade. Começando pelas situações entre pares, torna-se mais complicado consolidar relações, fazer amizades, estabelecer referências e os conflitos são mais frequentes. Muitos jovens, de diferentes idades, partilham os mesmos espaços (recreio, cantina, bufete, etc.), onde, raramente, existe algo ou alguém que facilite as interações e as regule, se necessário. Passando para as relações dos educadores (professores ou assistentes operacionais) com os alunos, os primeiros têm que lidar com um número muito maior de crianças/jovens, embora os professores lecionem o mesmo número de turmas que teriam numa escola mais pequena. Como conhecer cada aluno enquanto indivíduo? A diversidade de situações e de problemas, já existente, multiplicar-se-á, tendo os educadores que lidar com um maior grau de incerteza e de, em menos tempo, integrar toda a informação, com um tempo diminuto para sobre ela refletir e atuar de forma adequada.

Parafraseando a citação de Comenio, os alunos terão de aprender a sobreviver (sempre e não apenas nas transições entre ciclos), podendo desaprender de viver.

Mega-agrupamentos deste tipo podem, além da megaescola central, ter ainda outras escolas associadas, numa situação idêntica aos mega-agrupamentos "um-em-vários" de que falarei no próximo artigo. Entretanto, convém não esquecer que a escola é um local de aprendizagem, que implica uma forte dimensão relacional, a qual só se estabelece entre pessoas e não entre números.

Bibliografia:
Comenio, J. A. (1986). Didática Magna. Madrid: Akal.
Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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