EDUCAÇÃO

Prevenir a indisciplina

Ficarei hoje por algumas sugestões práticas para lidar com a indisciplina numa turma, que, como é óbvio, não são receitas.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Eu sou professora de Português e História do 5.º e 6.º anos, é a primeira vez que estou a dar aulas. Iniciei em fevereiro e quando cheguei à escola encontrei alunos completamente indisciplinados, uma vez que o anterior professor deles os deixou naquele estado. A partir daí comecei com eles um trabalho de melhoramento, o que é certo é que eles já estão melhor um pouco mas ainda se encontram com bastante indisciplina, muitos deles têm desinteresse total pelas disciplinas e não querem trabalhar. O que devo fazer para os cativar mais? Que atitudes devo ter para demonstrar mais autoridade?
Fátima Vieira

Li hoje (03/05/2009) uma interessante crónica de Daniel Sampaio, em que ele fala dos "meninos sem rosto", filhos da pobreza e de bairros degradados, que apenas frequentam as escolas porque a isso são obrigados. Fala-nos de respostas que deveriam contar para a diferença, passando por parcerias entre a escola e outras instituições, mas que são dificultadas pela burocratização e/ou pela falta de recursos. Refere como parceiros fundamentais as comissões de proteção de crianças e jovens, o Tribunal de Menores, os hospitais e centros de saúde (com PAFGAC - Projetos de Apoio à Criança e à Família). Termina a crónica desejando que seja dada atenção ao trabalho discreto que muitos profissionais vão desenvolvendo na procura (e na consecução) de respostas adequadas.

De causas possíveis da indisciplina e de parcerias deste género, como uma das estratégias para as escolas lidarem com os problemas de indisciplina e outros, falei já noutros artigos, de que são exemplos Indisciplina e agressividade numa escola perto de si, Prevenir a indisciplina e Visitadores domiciliários.

Ficarei hoje, portanto, por algumas sugestões práticas para lidar com a indisciplina numa turma, que, como é óbvio, não são receitas. Penso que é necessário haver um bom conhecimento dos alunos que a compõem; a definição de regras, conjuntamente por professores e alunos, respeitando o regulamento interno; uniformidade de atuação dos professores; consistência na aplicação das regras e das consequências.

Conhecer bem cada estudante não é tarefa fácil quando se tem a cargo muitas turmas, com um número elevado de alunos. Contudo, para além da dificuldade de concentração que os professores cada vez notam mais nos jovens, acompanhada da existência de conversas paralelas entre eles, há, frequentemente, alunos que se destacam por comportamentos mais disruptivos. O que está por trás? Só uma relação que concilie firmeza a nível da exigência de cumprimento das regras e da realização do trabalho das aulas a par com o interesse e a aproximação a cada um dos alunos permitirá, ao professor, compreender isso. Embora normalmente caiba ao diretor de turma (DT) essa tarefa, outros docentes podem fazê-la, o que não significa ultrapassar o DT. Vai-se a ver e descobre-se que, atrás daquele aluno que fazia as maiores palhaçadas, está uma criança em sofrimento (pela separação dos pais, porque é alvo de violência doméstica, porque sofre de bullying, porque...), que apenas procura chamar a atenção. Olha-se para outro lado e descobre-se que a incapacidade de concentração de um aluno decorre de estar todo o dia sem comer por razões diversas. Noutra carteira da sala, verifica-se que a agitação do aluno advém de uma hiperatividade não diagnosticada e não tratada. Todos estes "meninos sem rosto", que podem nem sequer provir de meios pobres e degradados, vão ganhando forma, rosto e alma, e pedindo compreensão e afeto e que se olhe para os seus problemas de comportamento como consequências de outros problemas, que devem ser tratados na sala de aula, mas também fora, em colaboração com os pais ou outros técnicos/entidades. Esta é uma área que não pode ser descurada e da qual todo o grupo-turma beneficiará.

Falar sobre indisciplina e formas de a prevenir/combater é uma tarefa sem fim. No próximo artigo fornecerei mais algumas sugestões. E, como Daniel Sampaio, penso que é importante olhar para o trabalho silencioso que muitos profissionais (bons) fazem, sem esperar recompensas ou reconhecimentos numa avaliação que, de tão burocrática, não lhes daria tempo de repararem no rosto e na alma dos tais "meninos sem rosto". Esse "olhar" permitiria a troca de experiências e a aprendizagem e enriquecimento de todos, com benefício para os alunos.
Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.