PEDIATRIA

Meningites… O pesadelo dos pais

O meningococo não sobrevive mais do que alguns minutos fora do organismo. Não é necessário desinfetar ou interditar o local. O alarmismo que se gera à volta da maioria destes casos não tem qualquer fundamento.
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O que é a meningite?
É uma inflamação das meninges, as membranas que revestem o cérebro e a espinhal medula. Quando um micro organismo (vírus, bactéria ou fungo), por alguma razão, consegue vencer as defesas do organismo e alojar-se nas meninges, elas inflamam-se, dando origem a meningite, com todos os sinais e sintomas que ela acarreta.

O que provoca a meningite?
Uma das causas mais comuns é a origem viral. O tipo considerado mais sério é a meningite provocada por bactérias; os três agentes mais comuns a partir do primeiro mês de vida são o meningococo, o pneumococo e o Haemophilus influenza tipo b. As meningites fúngicas são extremamente raras e aparecem em doentes com um sistema imunológico debilitado.

Qual a idade mais "perigosa"?
As crianças abaixo dos 5 anos de idade são as mais atingidas, com um pico de incidência entre os 2 meses e os 2 anos. Por esta razão, nos casos em que há uma vacina disponível, esta é administrada nos primeiros meses de vida.

Quais os sintomas mais comuns?
Os sintomas dependem muito da faixa etária da criança. Se, por um lado, na criança mais velha pode aparecer febre, dor de cabeça, vómitos, alteração do estado de consciência, manchas na pele e a tão conhecida rigidez da nuca, num bebé de poucos meses os sintomas podem ser febre ou hipotermia, irritabilidade ou sonolência, diminuição do apetite, vómitos e "moleirinha" elevada. Ao contrário de crianças mais velhas ou adultos, os lactentes não costumam apresentar rigidez da nuca.

Como se faz o diagnóstico?
O médico vai suspeitar de meningite perante os sintomas e o exame físico da criança. No entanto, o diagnóstico de certeza é feito através da punção lombar. Este exame consiste em inserir uma agulha fina entre dois ossos da região lombar da coluna vertebral, para colheita de um líquido, chamado líquido cefalo-raquidiano (LCR). A análise laboratorial deste vai ajudar o médico a saber se se trata ou não de meningite e, em caso afirmativo, de presumir de qual o agente envolvido.
 
Qual o tratamento adequado?
Se o LCR faz suspeitar de uma meningite vírica, não é necessário o tratamento com antibióticos, embora, em geral, a criança fique internada para vigilância e tratamento sintomático (febre, vómitos e dor de cabeça). Se a suspeita é uma meningite bacteriana, o tratamento antibiótico é imediatamente iniciado e a duração deste depende do tipo de bactéria envolvida.

Qual o prognóstico?

Globalmente, as meningites bacterianas têm uma mortalidade de menos de 10% e uma morbilidade de 10% a 20 %, segundo a idade da criança e o agente envolvido. As meningites víricas são as que em geral têm menos complicações. As sequelas possíveis vão desde alterações do comportamento e aprendizagem até paralisia cerebral, passando por surdez parcial ou completa e epilepsia.

E as "vacinas da meningite"?
Atualmente, as vacinas contra o Haemophilus influenza tipo b e o meningococo C fazem parte do calendário vacinal português. Também existe no mercado, embora não faça parte do calendário vacinal, uma vacina contra o pneumococo (7 serotipos). Perante isto, poder-se-ia pensar que todos os problemas estavam resolvidos, mas não... Há 13 serogrupos do meningococo e não existe uma vacina para todas estas variantes. O mesmo verifica-se com a vacina contra o pneumococo.
É por isso que é importante sublinhar que não existe uma vacina contra todas as formas de meningite, apesar de existirem vacinas que protegem contra alguns agentes.

As escolas devem fechar sempre que há um caso de meningite? Devem todas as crianças tomar medicação?
A medicação preventiva, conhecida como quimioprofilaxia, é necessária para os contactos íntimos quando o agente envolvido é um Haemophilus influenza tipo b ou um meningococo. Como a vacina contra o Haemophilus influenza tipo b faz parte do calendário vacinal desde 2000, atualmente este agente raramente está envolvido, razão pela qual temos que nos preocupar apenas com o meningococo.

Entende-se por "contacto íntimo" os que ocorrem entre os familiares, em casa, através por exemplo da partilha da mesma cama; entre os conviventes de infantário/escola (que partilham a mesma sala, a mesma mesa de refeição) e entre aqueles expostos diretamente às secreções do doente (profissionais de saúde em manobras de reanimação, partilha do mesmo copo). É desnecessário fazer quimioprofilaxia a crianças de outras salas!

É por isso que nem sempre se justifica o encerramento de um estabelecimento de ensino em caso de meningite, porque, além de nem todas as formas de meningite serem contagiosas, o contágio do meningococo ocorre de pessoa para pessoa, através de gotículas de saliva ou através de um objeto contaminado com um contacto direto e imediato.

O meningococo não resiste à humidade, ao oxigénio e às mudanças de temperatura, e não sobrevive mais do que alguns minutos fora do organismo, Não é necessário desinfetar ou interditar o local, sendo suficiente mantê-lo limpo e arejado. Como é possível verificar, o alarmismo que se gera à volta da maioria destes casos não tem qualquer fundamento.

O facto de ocorrer um caso de meningite por meningococo numa escola não quer dizer que o transmissor foi um aluno. Pode ter sido qualquer pessoa que teve contacto com o doente dentro ou fora da escola, inclusive no ambiente familiar. O meningococo instala-se temporariamente nas gargantas de cerca de 10% dos adolescentes e adultos jovens (chamados portadores sãos), em especial nos meses frios. Logo, muitas vezes a fonte de contágio é mesmo um familiar.

Gabriela Marques Pereira, interna complementar de Pediatria
Serviço de Pediatria do Hospital de BragaEste espaço é da responsabilidade da equipa médica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, instituição certificada pelo Health Quality Service (HQS).
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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