PEDIATRIA

Infeção urinária em pediatria

A incidência de infeção urinária na criança varia com a idade e com o sexo. Durante o primeiro ano de vida a incidência é maior nos meninos, mas em todas as outras faixas etárias a sua incidência é maior no sexo feminino.
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A infeção urinária na criança é uma patologia frequente, ocupando o segundo lugar entre as situações infeciosas, logo após as infeções respiratórias. Cerca de 8% das meninas e 3% dos meninos terão pelo menos um episódio de infeção urinária até aos 7 anos de idade. A incidência de infeção urinária na criança varia com a idade e com o sexo. Durante o primeiro ano de vida a incidência é maior nos meninos, mas em todas as outras faixas etárias a sua incidência é maior no sexo feminino.

O que é a infeção urinária?
O nome mais específico é infeção do trato urinário, ou seja, é uma infeção que atinge alguma parte do sistema composto pelos seguintes órgãos: os rins, que fabricam a urina; os ureteres, que levam a urina dos rins até a bexiga; a bexiga, que armazena a urina enquanto ela não é eliminada; e a uretra, que leva a urina da bexiga até ao exterior. Englobam, portanto, um grupo de situações em que há crescimento de microrganismos no aparelho urinário. As bactérias são as responsáveis pela maioria destas infeções, e podem envolver o trato urinário superior (infeção urinária alta ou pielonefrite) ou o inferior (infeção urinária baixa ou cistite).

Em condições normais, a urina segue o seu caminho sem problemas, mas, quando se contamina por microrganismos, que costumam vir da pele da região dos órgãos genitais, do ânus ou pelo sangue, pode provocar inflamação e infeção em qualquer ponto do percurso.

Como saber se o seu filho está com infeção urinária?
O modo como a infeção urinária se apresenta é variável e frequentemente inespecífico, tornando-se mais específico à medida que aumenta a idade da criança, nomeadamente na sua capacidade de localização da infeção urinária à bexiga (cistite) ou ao rim (pielonefrite).

Na criança mais velha e no adolescente a sintomatologia assemelha-se à descrita para o adulto e com alguma facilidade é possível distinguir a localização da infeção urinária. No caso de se tratar de uma cistite, os sinais e sintomas mais frequentes são: dor e ardor ao urinar, vontade repentina de urinar, urinar às pinguinhas, dor ou desconforto abdominais, incontinência ou a emissão de urina com cheiro e aspeto turvo. No caso de se tratar de uma pielonefrite, podem estar presentes sintomas como: febre elevada, náuseas, vómitos, mal-estar geral, dor lombar e ocasionalmente diarreia.

No recém-nascido e nos lactentes, torna-se praticamente impossível identificar queixas como a dor ou o ardor ao urinar pelo que suspeitamos de infeção urinária na presença de febre, gemido, vómitos, recusa alimentar, irritabilidade ou perda de peso.

Caso suspeite que o seu filho tem infeção urinária, deve recorrer ao seu médico assistente para uma orientação adequada da situação, especialmente em crianças com menos de 6 meses, nas quais poderá ser necessária uma avaliação mais urgente.

Quais são os fatores de risco para que uma criança tenha infeção urinária?
São vários os fatores que podem contribuir para que a criança tenha infeções urinárias. Até ao primeiro ano de vida há um predomínio destas infeções no sexo masculino e a partir desta idade tornam-se mais frequentes no sexo feminino. A obstrução ao fluxo urinário e estase urinária, ou seja, condições que impeçam que a urina siga o seu percurso normal, são os principais fatores de risco. O refluxo vesicoureteral, isto é, passagem da urina da bexiga para os ureteres ao invés do contrário, que seria o seu percurso normal, é um fator de risco importante para pielonefrite. Os meninos não circuncidados (com idade inferior a 1 ano) têm um risco de cerca de 5 a 12 vezes maior de desenvolverem infeção urinária, devido ao favorecimento do crescimento de bactérias nas secreções armazenadas no prepúcio (camada de pele retrátil que recobre e protege a glande do pénis). As infeções urinárias nas meninas ocorrem frequentemente quando a criança começa a deixar as fraldas. Nesta fase há uma tentativa de reter a urina, contudo, a bexiga pode apresentar contrações originando um fluxo urinário turbulento ou um incompleto esvaziamento da mesma. Deste modo, aumenta a probabilidade de multiplicação de agentes infeciosos na urina e, portanto, de infeção urinária. O facto de as meninas terem uma uretra mais curta que os meninos também funciona como fator de maior predisponência a infeção urinária.

Outros fatores de risco a ter em conta são: obstipação que causa uma disfunção do esvaziamento de urina aumentando o risco de infeção urinária, higiene errada dos genitais (feita de trás para a frente nomeadamente nas meninas), a utilização de roupa interior apertada e algumas doenças mais complexas do aparelho urinário.

Como é feito o diagnóstico da infeção urinária?
Perante a suspeita clínica da infeção urinária (pelos sinais, sintomas e exame físico da criança), a confirmação diagnóstica faz-se através da análise da urina para tentar detetar a presença de microrganismos (urocultura). Uma análise rápida da urina, através de uma tira-teste, pode ser útil pois permite selecionar as crianças nas quais será necessária uma análise laboratorial mais pormenorizada (análise de urina tipo II) e posterior identificação do agente responsável pela infeção através da urocultura, que permitirá fazer o diagnóstico definitivo de infeção urinária.

Como se obtém a urina para análise?
Às crianças mais velhas é-lhes pedido que urinem para um copo desprezando a porção de urina inicial, de modo a obter uma amostra do chamado jato médio. Nos recém-nascidos e lactentes sem controlo de esfíncter, a colheita pode ser feita através de um saco coletor que é colocado após lavagem dos genitais e pele envolvente. Apesar de estes serem os métodos mais utilizados para obtenção de urina nas crianças, a forma mais fiável de colheita de urina é através da punção suprapúbica ou algaliação, que por serem métodos mais invasivos são reservados para situações específicas.

Como se trata a infeção urinária?
As infeções urinárias tratam-se com a administração de antibiótico, aumentando a ingestão de líquidos e corrigindo os fatores predisponentes. Ainda que a criança pareça ter melhorado depois de alguns dias, é importante manter o antibiótico até o último dia, conforme a indicação médica, para que a infeção não volte com maior gravidade e com microrganismos mais resistentes ao tratamento.

Há algo que os pais possam fazer para evitar as infeções urinárias nos seus filhos?
Há algumas medidas que os pais podem adotar para diminuir o risco de infeções urinárias, nomeadamente, incentivar os seus filhos a beberem mais água e a urinarem com maior frequência. No caso das meninas, não esquecer de limpar sempre a região genital da frente para trás, para não levar bactérias da região anal para a vagina, e evitar roupa interior muito apertada que possa causar irritação da região genital.

Marlene Rodrigues, com a colaboração de Helena Silva, Pediatra do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga.

Serviço de Pediatria do Hospital de BragaEste espaço é da responsabilidade da equipa médica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, instituição certificada pelo Health Quality Service (HQS).
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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