PSICOLOGIA

Quanto pesa na vida dos seus alunos?

Que influência exerço sobre os que comigo se cruzam? Quem me marcou de uma forma positiva ou negativa? Quem ou que conjeturas delimitaram a opção por um determinado percurso de vida? Quantas vezes esquecemos as circunstâncias de vida de alguns alunos e os olhamos esperando deles a conformidade com uma realidade que para eles é de todo desconhecida?
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"(...) A Galiani, cuja regra era violar o cânone de comportamento dos professores com desenvoltura, convidou-me – a mim e a mais ninguém do liceu – para sua casa, para uma festa que os filhos iam dar. (…) Era muito provável que nem tivesse passado pela cabeça da Galiani que eu não tinha nada para vestir. Na aula usava uma bata preta mal-enjorcada, o que esperava a professora que houvesse debaixo da bata, vestidos e combinações e cuecas como os dela? O que havia era insuficiência, era miséria, educação deficiente. Possuía apenas um par de sapatos, muito gastos. O único vestido que me parecia bom era o que levara ao casamento de Lila, mas fazia muito calor, era bom para março, não para final de maio. De qualquer modo o problema não era só o que vestir. Era a solidão, o embaraço de me encontrar no meio de estranhos, rapazes e raparigas com maneiras de falar entre si, de brincar, com gostos que eu não conhecia.”
História do Novo Nome. A amiga Genial – segundo volume. Elena Ferrante. Relógio D´Água.


A tetralogia da Helena Ferrante é de tal forma arrebatadora e apaixonante que tenho andado a engenhar uma forma de a abordar. Mas abordar o quê? A densidade, profundidade e variedade de questões é de tal ordem, que resta uma difícil decisão: que dimensão agarrar? Ao entrar a fundo na vida das personagens desta tetralogia empolgante, vamos sentindo o peso e a influência dos contextos e das diferentes vidas que se cruzam. As emoções, os valores, as opções que se vão tomando e as diferentes personalidades vão obrigando o leitor a fazer uma viagem à sua própria vida, às suas origens, mesmo não se identificando com as circunstâncias descritas.

Que influência exerço sobre os que comigo se cruzam? Quem me marcou de uma forma positiva ou negativa? Quem ou que conjeturas delimitaram a opção por um determinado percurso de vida? Quem me ajudou a alargar ou a nuclearizar horizontes? De uma forma muito coerente, a vida das pessoas descritas deixa ainda mais evidente que a existência é um edifício em que muitos colocam peças, mas na base do qual há um alicerce difícil de mudar. À vida das personagens não poderia ser alheio o bairro em que cresceram e a miséria a ele inerente. Quantas vezes esquecemos as circunstâncias de vida de alguns alunos e os olhamos esperando deles a conformidade com uma realidade que para eles é de todo desconhecida? Não quero com isto afirmar que os devamos olhar com desistência, com o preconceito de que não serão capazes de atingir aquela tangente que alguém designou por média; não, o que quero afirmar é algo oposto. Temos de os olhar como pessoas a quem só chegaremos se os tocarmos de uma maneira diferente.

Elena, a narradora, mostra claramente o quanto pesaram no seu percurso as suas professoras, num primeiro momento a professora Oliviero e, posteriormente, a Galiani, citada no texto inicial. Apesar de muito inteligente, Elena vivia num bairro onde ter formação académica era visto como algo inatingível e, de certa forma, pouco importante. Por isso, as professoras tiveram um papel determinante, na medida em que foram alimentando o sentimento de autoeficácia desta menina/jovem que, mesmo sendo muito inteligente, sentia-se inferiorizada perante todos os que cresceram em contextos em que “Todos, evidentemente, estudavam, e os seus pais também haviam estudado”.

Temos muitas Elenas nas escolas, que entram com expectativas muito negativas e que precisam de espelhos que lhes devolvam a esperança, a confiança e a certeza da possibilidade de mudança. Entre os professores que pesam, e muito, na vida dos alunos, ocorre-me uma professora do primeiro ciclo, com quem trabalho há já longa data, e que, apesar de trabalhar num contexto muito desfavorecido, desenvolve o seu trabalho sempre com a convicção de que todos os alunos têm de aprender, mesmo que as adversidades sejam muitas. Contra ela tem, por vezes, os próprios pais, que não compreendem que a luta da professora tem apenas um objetivo: evitar que os filhos futuramente sejam excluídos, numa sociedade em que o saber é indispensável. Numa luta sem tréguas, procura que as crianças acreditem nas suas potencialidades, esquecendo que todo o contexto despromove diariamente a escola. Há, felizmente, muitos professores que pesam de uma forma profundamente positiva na vida e no futuro dos seus alunos.

Se é professor, quanto pesa na vida dos jovens com quem se cruza?
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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