PEDIATRIA

Células estaminais do cordão umbilical - uma aposta no futuro?

O armazenamento e preservação das células estaminais do sangue do cordão umbilical tem vindo a ganhar importância nos últimos anos. No entanto, no que respeita a questões éticas, ainda muito pouco está definido.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
O nascimento de um filho implica a tomada de algumas decisões. Uma delas é a da colheita, ou não, das células estaminais do cordão umbilical aquando do parto.

O que são células estaminais?
As células estaminais são células indiferenciadas, não especializadas e com a capacidade de auto-renovação e diferenciação em diferentes tipos celulares. Podem ser obtidas a partir dos embriões (células estaminais embrionárias), dos fetos (células estaminais fetais), do cordão umbilical ou de um indivíduo adulto (células estaminais adultas).

Podem classificar-se em diferentes tipos celulares:
- As células estaminais multipotentes têm um potencial de diferenciação limitado a alguns tipos de tecidos, estando presentes nos fetos, no cordão umbilical, na placenta e nos indivíduos adultos.
- As células estaminais pluripotentes têm um potencial de diferenciação mais amplo que as células estaminais multipotentes, podendo originar qualquer tipo de tecido com exceção da placenta. Estão presentes nos blastocistos e embriões pós-implantação.
- As células estaminais totipotentes apresentam um potencial de diferenciação ilimitado, existindo no embrião pré-implantação.

Por uma questão de segurança e acessibilidade, dos vários tecidos em que é possível obter células estaminais, a colheita é geralmente efetuada em tecidos de adultos (medula óssea ou sangue periférico) e, mais recentemente, a partir de sangue do cordão umbilical (SCU) de recém-nascidos.

O SCU é fonte de células estaminais de diferentes tipos: hematopoiéticas, mesenquimatosas e endoteliais. No entanto, é nas células estaminais hematopoiéticas que mais estudos e potencialidades tem demonstrado no tratamento de diferentes patologias. De facto, as expectativas e aplicabilidades associadas às células estaminais do SCU são de tal forma que têm justificado a criação de bancos para armazenamento e preservação, em diversos países.

Quais as suas vantagens?
As células estaminais hematopoiéticas do SCU apresentam várias vantagens em relação às obtidas a partir da medula óssea dos adultos, nomeadamente, são mais jovens, mais resistentes e têm maior capacidade de proliferação.
Apresentam também menor probabilidade de rejeição do transplante, pois exigem uma compatibilidade menor entre o dador e o recetor, diminuindo portanto os casos de rejeições mesmo em transplantes alogénicos (entre pessoas diferentes), uma vez que nos autólogos (no próprio dador) e singénicos (entre irmãos gémeos) esta problemática não se coloca.

Qual a sua aplicabilidade clínica?
Relativamente à aplicabilidade clínica, as células estaminais têm sido utilizadas maioritariamente no tratamento de doenças hemato-oncológicas. A eficácia destes tratamentos está já demonstrada para patologias como leucemias, linfomas, síndromes mielodisplásicos, anemias hereditárias, doenças hereditárias do sistema imunológico e cancros da medula óssea.

Quais as suas desvantagens e limitações?
Independentemente da sua proveniência, o transplante de células hematopoiéticas está associado a morbilidade e mortalidade. A principal complicação está associada à irradiação total a que os pacientes (recetores) são submetidos previamente ao transplante, provocando estados de imunossupressão.

Outras complicações frequentes são a ocorrência de rejeição entre dador e recetor, situação clinicamente designada como doença do enxerto contra hospedeiro (GVHD), e também a falência do enxerto.

O cordão umbilical como fonte de células estaminais hematopoiéticas também apresenta certas limitações, nomeadamente o facto de a aplicabilidade clínica estar limitada às situações em que o número de células recolhidas é suficiente para o transplante. Habitualmente o número de células estaminais presentes no SCU, recolhido na altura do parto, não é suficiente para transplantes de crianças com mais de 40 kg. Entretanto, existem algumas estratégias para contornar este problema como a expansão in vitro das células estaminais, transplante com duas unidades de SCU, transplante combinado de SCU e medula óssea e cotransplante com células estaminais mesenquimatosas isoladas do SCU.

Questões éticas
O armazenamento e preservação das células estaminais do sangue do cordão umbilical tem vindo a ganhar importância nos últimos anos. No entanto, no que respeita a questões éticas ainda muito pouco está ainda definido. As questões éticas assumem importância crescente com o aparecimento de bancos de armazenamento de células estaminais. Assim, vários problemas éticos podem surgir:
- A quem pertencem as células estaminais? Ao dador ou aos pais?
- O uso das células é restrito ao dador? Aos familiares próximos?
- Os pais economicamente incapazes de suportar as despesas do armazenamento em bancos privados deverão ter acesso a serviços públicos?
- Quem decide a utilização das células? O pai ou a mãe, se não houver acordo?

Custos e durabilidade
A maioria dos bancos de células do SCU garante o seu armazenamento e preservação por um período de 20 anos. No entanto, a qualidade e a durabilidade das células ainda não estão bem definidas.

Os custos associados ao kit de armazenamento e processamento ultrapassam atualmente os 1000 euros.

Perspetivas futuras
A utilização de células estaminais poderá ter uma aplicabilidade em outras áreas, nomeadamente nas doenças degenerativas (doenças cardíacas, neurodegenerativas e doenças ósseas).

A reter
  • O transplante de células do cordão umbilical tem demonstrado resultados promissores, sendo, no entanto, ainda experimentais.
  • A utilização destas células está ainda limitada a um número restrito de patologias.
  • A probabilidade do uso das células armazenadas e preservadas em bancos é maior nos irmãos do dador do que no próprio dador.
  • O armazenamento em bancos privados deve ser considerado se há na família um doente com previsível necessidade de transplante de células hematopoiéticas.
Jean-Pierre Gonçalves, com a colaboração de Almerinda Pereira, diretora do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga
Serviço de Pediatria do Hospital de BragaEste espaço é da responsabilidade da equipa médica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, instituição certificada pelo Health Quality Service (HQS).
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.