EDUCAÇÃO

Algumas reflexões sobre o horário escolar

Muitos foram os que passaram os últimos dias aguardando ansiosamente a divulgação do seu horário escolar para 2016/2017: estudantes, pais/famílias e professores. Do horário escolar depende a organização da sua vida nos próximos dez meses. Aqui ficam alguns reflexões soltas em torno do horário escolar.
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1. A elevada carga horária dos estudantes tem sido uma crítica corrente. Ela torna-se mais grave se a mancha horária (forma como as aulas se distribuem ao longo da semana) se concentrar muito nuns dias e pouco noutros, principalmente se a sobrecarga maior de centrar em dias consecutivos. Outro aspeto importante é a distribuição das disciplinas ao longo do dia e da semana, que pode ser mais facilitadora ou mais inibidora de fatores importantes para a aprendizagem, como a capacidade de atenção/concentração nas aulas, a maior ou menor carga de TPC e outras tarefas de estudo autónomo nos vários dias da semana.

2. O horário escolar não afeta apenas o estudante, mas toda a família, que, muitas vezes, vai ser condicionada pelos horários diferentes de vários filhos. São as horas de levantar, de os transportar de/para a escola, de articular os transportes entre a escola e as atividades extraescolares, de conciliar os horários das refeições familiares e garantir o jantar em conjunto.

3. Muitas crianças e jovens têm o seu quotidiano moldado por uma articulação complexa de horários: o escolar, o das atividades extraescolares (desportivas, artísticas, etc.), o de explicações/ATL. E onde fica o tempo de ser criança, de ser adolescente, de ter tempo para si, sem estruturação, destinado a lazer por si escolhido, eventualmente em cima do próprio momento?

4. Os professores têm vindo a assistir nos últimos (e já bastantes) anos a uma constante sobrecarga dos seus horários. Aumentou a componente letiva (diminuindo a redução com a idade) e aumentou o número de atividades de componente não letiva que mereciam bem o nome de letivas. A mancha horária condiciona muito o seu quotidiano e a vida das suas famílias: a possibilidade de acompanharem os filhos nos estudos, de os transportarem de/para as suas escolas, de conseguirem deslocar-se diariamente para suas casas ou de terem de procurar alojamento perto da escola, entre tantos outros problemas, alguns bem dramáticos. Mas há muito trabalho que não está na mancha horária e que condiciona o horário e a vida dos professores. Aumentou muito o número de reuniões (de modo, às vezes, verdadeiramente inacreditável, especialmente quando os professores lecionam para cima de 10 turmas). Estas reuniões intrometem-se no quotidiano familiar dos professores que, a horas em que deveriam estar centrados na esfera privada da sua vida (que passa, obviamente, pela vida familiar, incluindo o acompanhamento dos filhos, a preparação do jantar e a possibilidade de fazer esta refeição em conjunto com a família), se encontram retidos na escola. Mas o horário não se esgota no edifício da escola. Ele intromete-se na casa de cada professor, nas tarefas de preparação de aulas, correção de testes e outros trabalhos e, ainda, na realização de um cada vez mais crescente número de tarefas burocráticas, muitas sem qualquer sentido, decorrentes, por um lado, da burocracia que tem invadido as escolas, e, por outro, do número crescente de turmas e de alunos por turma que se tem registado desde há cerca de uma década.

5. E os professores com horário incompleto? E aqueles que saltam entre várias escolas para o conseguirem completar? E os que não conseguem horário?

Termino desejando que tenham um bom horário, sejam estudantes, encarregados de educação ou professores.
Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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