PEDIATRIA

Os Adolescentes e o Álcool

O consumo de álcool na adolescência é atualmente considerado um problema de saúde pública. As transformações físicas, emocionais e sociais que ocorrem nesta idade fazem com que seja uma etapa de risco para o início de consumo de álcool e para o seu uso de forma perigosa.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
O ganho crescente de autonomia e aquisição de novos papéis na sociedade associados à impulsividade e experimentação, típicos da adolescência, propiciam consumos desajustados e até arriscados. Os mais recentes estudos estatísticos sobre o consumo de álcool entre jovens e adolescentes portugueses (Estudos sobre os consumos de álcool, tabaco, drogas e outros comportamentos aditivos e dependências – 2015, ECADT-CAD 2015) mostram que o álcool continua a ser a droga mais consumida nesta faixa etária.

Verifica-se que 71% dos adolescentes com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos, referem já ter consumido álcool em alguma fase das suas vidas, mas apenas 42% mantêm esses consumos na atualidade. Porém, quase metade (49%) dos jovens de 18 anos refere pelo menos um episódio de embriaguez no último ano.

Sabe-se ainda que o consumo de álcool se inicia em idades cada vez mais precoces. De acordo com os dados do estudo norte-americano Monitoring the Future, 1/3 dos adolescentes experiencia álcool antes dos 13 anos, o que aumenta a possibilidade de problemas com consumo de álcool e drogas na idade adulta. De facto, sabe-se que os jovens que iniciam o consumo antes dos 15 anos têm uma probabilidade quatro vezes maior de serem adultos dependentes de álcool no futuro.

O padrão de consumo também tem vindo a sofrer alterações, com o recente fenómeno de binge drinking a ganhar cada vez mais adeptos. É definido pelo consumo de cinco ou mais bebidas alcoólicas num único episódio, sendo frequente nas saídas à noite, sobretudo ao fim de semana. Este consumo excessivo episódico é mais frequente nos jovens do que nos adultos e 4 a 36% dos adolescentes portugueses, entre os 13 e os 18 anos, admitem tê-lo praticado no último mês.

Quanto ao tipo de bebida escolhida, as bebidas espirituosas são as mais consumidas pelos nossos adolescentes, seguidas da cerveja. O seu consumo verifica-se em ambos os sexos. Em Portugal, apesar das leis de restrição à venda e consumo de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos (Decreto-Lei nº 106/2015 de 16 de junho, Artigo 1º), o acesso ao álcool é fácil, com 85% dos jovens a considerarem ser muito fácil obter bebidas alcoólicas em lojas, bares ou discotecas.

Sabe-se que alguns fatores comportamentais e fisiológicos considerados de risco para o consumo de álcool aparentam ter uma base genética. Adolescentes filhos de pais alcoólicos têm maior probabilidade de virem a ser adultos com problemas ligados ao álcool. Assim, pais que bebem mais e que percecionam o álcool de uma forma favorável têm filhos que bebem mais.

Por outro lado, a influência dos pares e dos media não pode ser esquecida. A ansiedade social e a necessidade de aceitação no grupo de pares conduzem ao consumo com o objetivo da integração através da perda de controlo, euforia e desinibição social. Na atualidade, o álcool é amplamente aceite, disponível e até agressivamente promovido através da televisão, cartazes publicitários, rádio e Internet.

As consequências associadas ao consumo de álcool na adolescência incluem uma série de problemas físicos, académicos e sociais. O álcool constitui o principal fator contributivo para a mortalidade e morbilidade dos jovens. Considerada uma população saudável, a principal causa de morte dos adolescentes e jovens são os traumatismos, sendo que cerca de 30-45% das admissões hospitalares por trauma estão relacionadas com o consumo de álcool.

Conduta violenta e desajustada, comportamentos sexuais de risco, condução sob efeito de álcool, problemas legais e dependência fisiológica são outros dos muitos efeitos nefastos associados ao consumo de álcool.

O impacto na saúde dos jovens faz-se sentir a vários níveis. O consumo de álcool está associado a consequências negativas no desenvolvimento e funcionamento cerebral, assim como na performance neurocognitiva, prejudicando a atividade académica. Também perturba o balanço hormonal que ocorre durante a puberdade, crítico para o desenvolvimento normal dos órgãos, músculos e ossos. A longo prazo, o consumo de álcool está associado a risco aumentado de doenças gastrointestinais, cardiovasculares e tumorais.

É fundamental, enquanto pais, médicos e sociedade em geral, estarmos alertas para esta problemática. Os pais devem reconhecer que as atitudes e crenças relacionadas com o álcool se desenvolvem numa fase relativamente precoce da vida das crianças e que por isso constituem verdadeiros role models para o comportamento dos filhos. Por outro lado, o desenvolvimento de estratégias de rastreio e a identificação precoce de adolescentes em risco é essencial para a intervenção precoce e construção de alicerces no sentido do reforço da saúde e promoção de escolhas de vida saudáveis.

Diana Baptista, com a colaboração de Teresa Pontes e Susana Carvalho, pediatras do Hospital de Braga
Serviço de Pediatria do Hospital de BragaEste espaço é da responsabilidade da equipa médica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, instituição certificada pelo Health Quality Service (HQS).
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.