PSICOLOGIA

9.º ano: e agora?

Ao longo do ano letivo, todos os alunos do 9.º ano do agrupamento em que trabalho são confrontados com a necessidade de se envolverem num processo ativo de exploração vocacional. Enquanto no passado este desafio era agarrado por um elevado número de alunos, atualmente esse número “encolheu” e muitos passam pelo processo de uma forma pouco envolvida, esperando que alguém decida por eles.
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Será este o melhor curso para mim? Será melhor optar por um curso científico - humanístico ou por um profissional? Serei capaz de ter sucesso na Matemática A? Terei emprego no final do percurso escolar?
Estas são algumas das preocupações que expressam os alunos do 9.º ano que, muito em breve, se matricularão no ensino secundário. Confesso que, ao fim de vinte anos a trabalhar na Orientação Escolar e Profissional, as minhas maiores preocupações relativamente a este processo podem resumir-se em duas ideias: imaturidade e reduzida autonomia! É impressionante como os alunos chegam ao 9.º ano cada vez mais imaturos!

Ao longo do ano letivo, todos os alunos do 9.º ano do agrupamento em que trabalho são confrontados com a necessidade de se envolverem num processo ativo de exploração vocacional, sendo-lhes propostas atividades concretas neste sentido, uma vez que no final desse ano será indispensável fazer uma escolha com alguma relevância para o futuro. Enquanto no passado este desafio era agarrado por um elevado número de alunos, atualmente esse número “encolheu” e muitos passam pelo processo de uma forma pouco envolvida, esperando que alguém decida por eles! Os professores com longa experiência em contexto escolar notam a mesma diferença e queixam-se do mesmo problema: muitos dos alunos do 9.º ano apresentam, hoje, comportamentos desajustados para a faixa etária e manifestam um desinteresse preocupante em relação à escola.

Procuro envolver os encarregados de educação no processo de orientação escolar, convidando-os a estarem presentes na entrevista final em que os seus educandos irão terminar (ou completar, para evitar a repetição) o processo de escolha. Curiosamente, o discurso dos pais vai-me dando pistas para perceber esta imaturidade, pois muitos deles tratam os filhos como crianças que apenas para o ano terão finalmente de crescer. Na sua cabeça, isto sucede porque é no 10.º ano que tudo se torna realmente a sério, já que é no início do secundário que as notas terão mesmo uma ponderação importante nas opções futuras. Parece que os pais estão à espera que os filhos tenham um clic em termos de maturidade, não percebendo o seu papel determinante neste processo! Os filhos não irão tornar-se responsáveis magicamente, apenas porque estão um pouco mais crescidos e porque chegaram ao secundário, mas sim se, ao longo do seu percurso de desenvolvimento, forem progressivamente responsabilizados pelos seus comportamentos e pelas suas atitudes face ao estudo e a outras áreas da sua vida!

Numa sociedade em que os pais se têm mostrado inseguros quanto às suas estratégias educativas, centrando a sua atuação na compreensão dos filhos e esquecendo a exigência, é provável que o jovem venha a ter dificuldade em tomar decisões a respeito de sua vida. Os estudos mostram claramente que a promoção da autonomia ocorre quando a compreensão e a exigência estão presentes em simultâneo. Ou seja, é importante os pais terem relações calorosas e bem estruturadas com os filhos, em que haja proteção física, segurança, cuidados de saúde e respeito pela singularidade de cada um, mas simultaneamente é indispensável que haja também imposição de limites e regras claras quanto ao controlo de impulsos. A proximidade excessiva, controladora e intrusiva inibe a conduta autónoma e favorece a dependência. O que acontece habitualmente, embora com a melhor intenção da parte dos pais, é que eles dão - dão muito -, mas em contrapartida exigem pouco, pois não é muito claro o que é razoável exigir em cada faixa etária!!! Enquanto os pais percecionarem os filhos numa ótica infantilizadora, eles dificilmente se sentirão capazes de olhar o futuro de uma forma mais madura. Sei que é difícil definir o ritmo da subida da fasquia da exigência, mas é obrigatório ir subindo e ir dando espaço para que os jovens caminhem e resolvam os seus problemas sem a intervenção contínua dos adultos.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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