PSICOLOGIA

Como explicar os atentados terroristas às crianças?

Como abordar esta questão com os mais novos? A resposta é simples: da mesma forma como devemos abordar qualquer outra, ou seja, lançando as questões para eles: Porque tens medo dos terroristas? O que sabes sobre este assunto? O que imaginas e temes que poderá acontecer?
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“O medo é aquilo que não se confessa para não o tornar maior.”
“O medo é não ser capaz de dizer a verdade porque a verdade às vezes dói.”
“O medo é uma palavra esquisita que pode querer dizer morte.”
“O medo é não querer usar certas palavras por haver ouvidos que não gostam delas.”
“O medo o que é?”
Biblioteca José Jorge Letria. Âmbar

Começo por citar o livro que surgiu nos meus pensamentos quando tentava adormecer após o episódio que seguidamente relatarei. A minha filha de 8 anos, já na cama, depois dos rituais típicos que antecedem o momento de dormir, começou a chorar e a dizer que tinha medo e que queria ir dormir para o meu quarto. “Medo de quê?”, perguntei eu. “Dos terroristas”, foi a resposta dela. Curiosamente, a atitude dela face às imagens dramáticas que chegam diariamente através da televisão é sempre a mesma e traduz-se quase sempre na mesma frase: “Por favor mudem de canal, não quero ver isto.” Não vê tudo, mas inevitavelmente há imagens e notícias que acabam por entrar e perturbá-la. Acabou por acalmar e dormir no seu quarto, pois, de outra forma, a mensagem do medo seria reforçada.

A cama dos pais é sempre o local que diminui o medo no momento imediato, mas que o amplia na etapa seguinte. “Terroristas”: esta palavra ficou-me no pensamento, assim como a certeza de que teria de abordá-la, pois naquela cabecinha de 8 anos o medo pairava.

Como abordar esta questão com os mais novos? A resposta é simples: da mesma forma como devemos abordar qualquer outra, ou seja, lançando as questões para eles: Porque tens medo dos terroristas? O que sabes sobre este assunto? O que imaginas e temes que poderá acontecer? As conceções que as crianças já construíram sobre este tema é que devem orientar as nossas respostas, pois as nossas abordagens de adultos podem ser muito claras mas não tocar no que para elas é o cerne da questão. O livro citado pode ser uma boa forma de introduzir este assunto, porque tem várias expressões que podem ajudar a criança a definir concretamente o que as assusta.

Após uma primeira abordagem com base nas informações fornecidas pela própria criança, poder-se-á explicar que estes atos terroristas são cometidos por pessoas que dizem agir em nome da sua religião, o islão. Apesar de estes indivíduos agirem com muita violência, a maioria das pessoas que professam a religião vivem em paz e não concordam com o uso da violência e do terror como forma de impor as suas ideias. Ao agirem violentamente e de forma indiscriminada, os terroristas querem assustar todo o mundo e desejam que cada pessoa pense e sinta “Poderia ter sido eu.” ou “Serei eu a próxima vítima?”. Ao falarem sobre este tema, os adultos devem deixar claro que é natural que as pessoas, sejam elas pequenas ou crescidas, sintam medo, mas devem também sublinhar que o medo é um sentimento que se torna maior quando à volta dele se faz silêncio. Qualquer medo só pode ser vencido falando dele e nunca ficando guardado. Às crianças deve ainda ser transmitida a ideia de que os locais que frequentam são seguros e que a melhor forma de agirem face à violência e loucura destes indivíduos é continuar a viver normalmente, respeitando as pessoas que nos rodeiam e as suas especificidades.

Para terminar, deixo uma sugestão para os adultos, o romance “Fúria Divina”, de José Rodrigues dos Santos, da Gradiva. Este livro pode ser uma boa ajuda na compreensão dos ideais do extremismo islâmico, que leva pessoas, seres humanos como nós, a morrer por eles.

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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