Como abordar os atentados? Não deve haver silêncios depois das perguntas

Os atentados de Paris são tema de conversa nas escolas. Crianças, adolescentes, jovens tentam compreender o que se passou. Fazem perguntas, esperam respostas. As explicações não são fáceis, as abordagens devem ter em atenção vários fatores. Antes de tudo, é preciso digerir informações.
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Na segunda-feira, ao meio-dia, os alunos do 2.º e 3.º ciclos da escola sede do Agrupamento de Escolas Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, fizeram um minuto de silêncio pelas vítimas dos atentados de Paris de 13 de novembro. As notícias não saem das cabeças, as imagens repetem-se nos jornais e televisões, e o assunto é abordado nas salas de aula, depois de um fim de semana intenso de tiros, terroristas suicidas, sangue, mortes, comentários, explicações, especulações, enquadramentos, conversas. Muitas conversas. Cristina Félix, professora de Educação para a Cidadania e de Português nesse agrupamento, ouviu várias perguntas. Um aluno do 6.º ano questionava a razão de um minuto de silêncio pelas vítimas dos atentados em Paris, quando não se fazia a mesma coisa pelas mortes e atentados no Médio Oriente. Uma aluna do 5.º ano perguntava quais os motivos de tantas mortes na capital francesa, quais as razões dos terroristas para atirarem a matar.

O assunto é delicado, complexo, dramático, mas não pode ser evitado. Como falar de atentados com os mais pequenos, crianças, adolescentes, jovens? Responder objetivamente não é fácil, há naturalmente dúvidas, mas as perguntas não devem ficar sem respostas. O tema exige abordagens diferentes e que tenham em consideração idades, distanciamento emocional, maturidade para lidar com a perda, a morte, o luto. Atentados e refugiados ocupam agora uma parte das aulas de Cristina Félix, que gosta de recorrer à literatura para que os alunos pensem, questionem, reflitam, façam mais perguntas, tirem dúvidas, fiquem esclarecidos. “Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa” é um livro que quer levar para a sala de aula para falar de refugiados. Um livro na primeira pessoa que se inspira na história de vida da escritora alemã Judith Kerr, refugiada de guerra, oriunda de uma família judia, que aos 10 anos abandona a Alemanha, no momento em que os nazis tomam conta do poder. Durante a Segunda Guerra Mundial, viveu com a família em vários países até se fixar em Londres. Tem agora 92 anos. “Podemos usar o livro para falar da temática dos refugiados. É a perspetiva de uma criança de 10 anos que tem de fugir do seu país.”

“É preciso um bocadinho de tato para falar sobre estes assuntos”, refere Cristina Félix ao EDUCARE.PT, a propósito dos atentados de Paris. Depois de um ponto de interrogação, não deve haver silêncios. Explica-se o que se sabe e não se inventa quando não se sabe. Procura-se mais informação para estruturar respostas. Em 2001, as Torres Gémeas de Nova Iorque foram atacadas. Seguiram-se mais atentados, em Madrid, em Londres, em várias partes do mundo. “Estas temáticas acabam por entrar no dia a dia. Por vezes, só quando é muito perto é que as pessoas despertam”. Por isso, Cristina Félix quer recuperar um texto de Eça de Queirós que há alguns anos fazia parte do programa do 9.º ano. Uma senhora lia em voz alta, à luz de um candeeiro, as calamidades escritas no jornal. Numa sala, várias pessoas escutavam-na. Um terramoto na ilha de Java destruía 20 aldeias e matava 2000 pessoas, inundações na Hungria arrasavam campos, homens, gado. No Sul de França, um comboio descarrilava e fazia três mortes. Todos escutavam a leitura das tragédias sem sobressaltos, poucos comentários. Até que a sala se levantou de surpresa e dor com a notícia de Luisinha Carneiro, que morava ali perto, e que tinha partido o pé.

“Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações… Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela-Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro dando à rua sombra e perfume”, escrevia Eça de Queirós em 1907 em “Cartas Familiares e Bilhetes de Paris”. É este texto que a professora quer que os seus alunos leiam.

O dever de falar
Os atentados de Paris foram tema de conversa com a família, amigos, professores. Tatiana Paiva, de 15 anos, tem escutado vários comentários. “São malucos”, ouviu várias vezes e pensou outras tantas. No sábado, foi vendo notícias. “Deu todo o dia na televisão”, lembra. Na escola, a professora de História do 10.º ano decidiu falar no assunto. “Temos também de pensar nos refugiados, em acolher os que mais necessitam”, refere. Tatiana diz que “é uma situação complicada” e à pergunta que até poderia parecer simples  - o que é que aconteceu? – não lhe surge uma resposta. “Há quem diga que foi por causa da religião”, comenta. “Há outros países, fora da Europa, onde isso acontece todos os dias e ninguém liga, mas como foi em França e em Paris toda a gente fala”, diz.

A amiga Yulia Romanyuk, de 16 anos, há seis anos a viver em Portugal, soube do que se passava pelas redes sociais. “Toda a gente falava, dizia-se que as pessoas que tinham feito os atentados eram estúpidas, era estúpido estarem a fazer isto a pessoas inocentes, que não tinham culpa”, recorda. Colocou a sua foto de perfil do Facebook com as cores da bandeira francesa em sinal de solidariedade e foi lendo post após post. Quando a pergunta é feita lá dentro, não há resposta. “Não encontro explicação para o que aconteceu.” E o que ficou da aula de História onde o assunto foi abordado? “Que é preciso refletir sobre as coisas”, responde.

O colega Filipe Fernandes, de 15 anos, ouviu as mesmas explicações. Na sexta-feira, foi vendo as imagens nas televisões, foi percebendo o que se estava a passar. Sabe que é uma “situação dramática” e não se alonga em comentários. Bruna Oliveira, de 15 anos, soube o que tinha acontecido no sábado de manhã quando acordou. A mãe resumiu o que tinha visto na televisão na noite anterior. “Que tinha havido atentados ao mesmo tempo em Paris.” Admite que ficou um “bocado preocupada” e que as notícias e explicações que se seguiram ajudaram, de certa forma, a ficar menos confusa. Ainda assim, não arrisca explicações para o que sucedeu numa sexta-feira 13 em Paris.        
“A escola tem o dever de não se alhear dos problemas da sociedade, vividos no dia a dia, sob pena de ser considerada retrógrada e desinteressante”, refere Filinto Lima, diretor do Agrupamento de Escolas Costa Matos, de Vila Nova de Gaia, onde os alunos fizeram um minuto de silêncio na segunda-feira passada. “Os alunos são muito atentos, questionadores, com observações pertinentes que devem merecer a atenção dos educadores”, acrescenta ao EDUCARE.PT. Por isso, e sobretudo nas aulas de Educação para a Cidadania, os professores do 2.º e 3.º ciclos falaram dos atentados, responderam a questões dos estudantes, adequando a linguagem e as explicações às idades. “Ao nível do 1.º ciclo também existiu uma abordagem ‘mais suave’ àquelas situações, havendo a preocupação da parte do professor em transmitir de forma simples a mensagem”, conta.

Mapear informação
As informações são constantes, as imagens não param de passar nas televisões, todos os dias há comentadores a falarem no assunto, acompanha-se quase ao minuto o que se passa em Paris, nos arredores, na Bélgica, em outros países que tomam posições sobre os atentados na capital francesa. Catarina Agante, psicóloga do Serviço de Psicologia e Orientação do Agrupamento de Escolas Rodrigues de Freitas, no Porto, defende que é preciso “mapear a informação”. Até porque a forma instantânea como se acede às notícias pode conduzir a uma falsa perceção da resolução dos problemas. Uns matam, outros matam, e fica tudo resolvido. Mas não é assim. Numa turma do 2.º ciclo, o assunto começou a ser discutido pelas redes sociais. Havia alunos que tinham mudado a foto de perfil com as cores da bandeira de França, havia alunos que não o tinham feito. Quem mudou não compreendia a falta de solidariedade de quem não alterou. E a discussão começou por aqui.

Foi então necessário desconstruir, desconstruir, desconstruir. Mostrar que a solidariedade não se constrói dessa maneira, que é muito mais do que mudar uma foto no Facebook, que não é necessário ser visível. “A abordagem tem de ser isenta e linear em face das perguntas das crianças”, refere a psicóloga. O problema é o volume de informação, as interpretações feitas aos atentados, os comentários, as imagens que se repetem vezes sem conta, as afirmações feitas nas redes sociais. Para Catarina Agante, não devem ser feitas leituras rebuscadas para quem procura respostas – muitas vezes, respostas simples. “Sem enviesar convicções religiosas, sem nunca ter um pré-juízo, e assegurar que absorvem a informação que lhes permite ficarem esclarecidos”, diz.

É ou não é perigoso? O que é um atentado? Quem tem a culpa? Porque morrem pessoas inocentes? São os jihadistas que destroem tudo? É preciso ouvir, antes de responder. “Depois de percebermos o que eles sabem é que podemos explicar”, afirma. Os mais novos não procuram explicações detalhadas, os jovens já entram em áreas mais pormenorizadas, como questões políticas, religiosas, geográficas, fenómenos migratórios. O que exige mais informação. “O mais importante é o esclarecimento”, refere a psicóloga, que não esconde a preocupação com o acesso à informação e ao que se vai escrevendo e lendo nas redes sociais. E, neste processo, o papel da família é fundamental para afastar receios, enquadrar respostas, sossegar os mais pequenos.   
 
João Freire é psicólogo escolar no Agrupamento D. Sancho I em Vila Nova de Famalicão. Depois do que aconteceu em Paris, não teve conhecimento de miúdos em stress, com medos alarmantes ou dificuldades em dormir por causa do que aconteceu, mas escutou alguns comentários que indiciam comportamentos a que convém estar atento. Escutou conversas sobre a chegada de refugiados ao nosso país, que isso aumentaria a insegurança, que os refugiados eram terroristas, que os muçulmanos também. “São comentários preocupantes porque evidenciam alguma discriminação, racismo, e alguma desinformação”, refere ao EDUCARE.PT. Questões que, na sua opinião, devem ser abordadas nas aulas de Educação para a Cidadania.

“É importante dar espaço às crianças e jovens para que ventilem a situação, dar espaço para que falem sobre o fenómeno, sobre o que se passou”. Para João Freire, é necessário ter em atenção vários fatores para abordar os atentados de Paris. A faixa etária é um aspeto a ter em consideração, já que a noção de morte, de luto, de perda, depende das idades. A maturidade a este nível difere de uma criança de oito anos para um adolescente de 13. Outra questão é o distanciamento emocional e mesmo geográfico. O medo que se deve ou não ter. É importante ouvir o que têm a dizer, as perguntas que querem fazer. “Dar espaço para dizerem o que sentem, para reestruturarem ideias da forma mais saudável possível”. E às perguntas devem ser dadas explicações sobre o que se passou. “O trauma surge da não reorganização e não ventilação das ideias em determinadas situações”, comenta.
 
O atentado aconteceu e os mais novos querem perceber alguns aspetos para digerir a situação. Pedem-se explicações para compreender várias questões e, nesse caminho, é então preciso não esquecer a “bagagem” de cada um, o distanciamento emocional relacionado com a proximidade das pessoas que se conhecem e até com o próprio país. E, em todo este processo, as famílias, como o “modelo fundamental”, devem ouvir, responder, afastar sentimentos de discriminação e racismo. E lembrar que a tolerância cabe em qualquer lugar.
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