Exigência e permissividade: não é fácil equilibrar esta balança

No mundo dos “pequenos ditadores” é preciso perceber vários fatores. É importante conhecer as características individuais, o contexto social, o processo educativo e o percurso de vida, bem como a história da família. Tudo conta para perceber como funcionam os que quebram regras e desafiam limites. O diálogo e o respeito são fundamentais. A educação é a base.
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Os ritmos de vida aceleram-se. Vive-se em piloto automático. Há sempre tanto a fazer e o tempo não estica. E as palavras dos adultos saem quase mecanicamente. Despacha-te que não podemos chegar atrasados ao trabalho. Faz os trabalhos de casa rapidamente que ainda tens de tomar banho antes de jantar. Não demores tanto a comer porque tens de ir dormir. Colocaste todos os livros e cadernos na mochila? Compraste as senhas das refeições? Não te esqueças que amanhã tens aulas de Educação Física e de guitarra. E depois, depois de tudo isto, a sociedade olha-se ao espelho e confronta-se com uma expressão que a assusta, que até soa a paradoxo. Quem são os “pequenos ditadores” que batem o pé e dizem “eu é que sei”, “faço como quiser”, “não quero nada disso”? Como se formam? Porque se comportam de determinadas maneiras? Porque existem?

O relógio não dá tréguas e as crianças vivem o ritmo dos adultos, bem mais agitado do que os seus mundos. E, por vezes, ficam confusas, não sabem o que esperam delas. “Num dia sentem-se cuidadas, protegidas, apoiadas e orientadas, no outro sentem ser-lhes exigida responsabilidade, autonomia, perfeição e velocidade. Exigências que a sua maturidade não lhes permite acompanhar”, observa Inês Afonso Marques, psicóloga clínica, coordenadora de uma equipa infantojuvenil da Oficina de Psicologia. As situações repetem-se e os mais pequenos percebem que quando se portam bem nada acontece e poucos reparam. “E, por isso, porque desejam a atenção dos cuidadores, porque a atenção dos cuidadores os faz sentir emocionalmente ligados, o disparate, a recusa em aderir ao que é pedido ou a luta de poder funcionam como uma chamada de atenção.” O adulto dá atenção, repreende, e aumenta a probabilidade de os comportamentos desajustados voltarem a acontecer. “E a criança interioriza: ‘Se me armar em rei, que só faz o que quer e quando quer, já percebi que tenho a atenção de quem mais gosto.’”

“No fundo, as crianças procuram ‘ter voz’ no correr dos dias que tentam acompanhar. Paralelamente, muitos adultos cuidadores acabam por adotar um estilo cuidador inconsistente. Ora são bastante exigentes, tentando manter tudo sob controlo. Ora acabam por ser permissivos numa tentativa de equilibrar a falta de disponibilidade com que por vezes se deparam, ou porque acabam por ceder ao cansaço”, sublinha Inês Afonso Marques.

O que pode ser feito? O que os pais podem fazer quando se veem a braços com um filho com quem não sabem ou não conseguem lidar? As estratégias devem ser, acima de tudo, preventivas. Educar os filhos, desde cedo, num ambiente seguro, estruturante, o que implica um investimento emocional nas relações familiares. “Isso implica passar tempo de qualidade em família, estabelecendo laços emocionais fortes. Isso implica definir regras de forma razoável, implementá-las de forma consistente, orientar a criança no seu cumprimento. Isso implica, às vezes, dizer não, mesmo quando custa muito”. “Definir limites é uma forma de amar. Isso implica promover a inteligência emocional da criança, desde tenra idade, ensinando-lhe a dar nome ao que está a sentir, ensinando-a a regular o que sente, ensinando-a a partilhar o que pensa e a colocar-se, também, no lugar do outro”, acrescenta a psicóloga clínica.

Os pais não podem esquecer que são um modelo. Em situações em que os comportamentos de desafio parecem estar mais enraizados, precisam de parar, respirar fundo, não perder a calma e “observar com genuíno interesse em compreender o que se está a passar”. Não basta aos adultos usar a expressão “pequenos ditadores”, é necessário pensar e analisar vários fatores. “O diálogo e o respeito devem ser a porta de entrada rumo ao equilíbrio e satisfação relacional. E, em seguida, perguntarem: Porque está ele a ter esta atitude? Que mensagem me estará a querer transmitir? De que estará a sentir falta? E, sempre que a situação pareça arrastar-se no tempo, sempre que o grau de interferência na satisfação familiar for elevado, procurar ajuda de um profissional, como um psicólogo, pode ser bastante útil.”

Colocar culpas e embaraços de lado
Não há apenas uma causa que explique o mundo dos “pequenos ditadores”. Rita Castanheira Alves, psicóloga clínica infantojuvenil e de aconselhamento parental, autora do projeto www.psicologadosmiudos.com, adianta diferentes causas e um conjunto de fatores que combinam entre si: história de vida; características do sistema familiar; questões de predisposição biológica; problemas de vinculação precoce; educação excessivamente permissiva ou excessivamente autoritária ou intermitente, sem consistência; abandono precoce; ausência de limites e regras no processo educativo. “É sempre necessário, em qualquer caso, conhecer bem as características individuais da criança em questão, o seu contexto familiar e social, processo educativo e percurso de vida, bem como a história da família em termos de perturbação mental para se conseguir perceber o porquê da sua necessidade de sintoma de ‘autoritarismo’ ou desafio das regras da sociedade. Só assim se conseguirá perceber qual a melhor intervenção para ajudar a criança”, sustenta.

A educação é a base. Mas é preciso estar consciente “de que educar é um processo complexo, difícil e exigente e que precisa ser pensado e reformulado e, por isso, deixar a possível culpa, embaraço ou responsabilidade que possam sentir de lado”. Depois é preciso “procurar ajuda, ler sobre o tema, aconselhar-se com técnicos especializados, partilhar as dificuldades com os educadores e professores próximos da criança ou adolescente e a partir daí ser auxiliado na tentativa de conhecer o porquê do autoritarismo do filho e que metodologias deverão ser usadas, de acordo com as características específicas”.

Rita Castanheira Alves avisa que, no entanto, em termos preventivos, há no processo educativo algumas estratégias que poderão não prevenir totalmente um problema de oposição ou desafio de limites e regras, uma vez que “o mesmo pode existir por razões além do processo educativo que a criança está a ser exposta”. Daí alguns conselhos na vertente preventiva: estabelecer limites e regras consistentes e cumpri-las; ajudar a distinguir constantemente, e desde cedo, o certo e o errado; treinar a tolerância à frustração e o saber ouvir não; desenvolver a regulação emocional em todos os momentos; definir rotinas; dar espaço a oportunidades para se sentirem bem, felizes, seguras e realizadas. Os pais têm de perceber as suas próprias características e dificuldades pessoais, e que podem passar para a educação dos filhos, de forma a minimizar algumas situações de autoritarismo. “No entanto, nem sempre é suficiente e a procura de ajuda de técnicos especializados, como o psicólogo, poderá ajudar os pais a compreender o que se passa e como poderão ser ajudados”. “Sem o conhecimento profundo do perfil da criança/adolescente e da problemática em si, não é possível decidir se uma estratégia é ou não eficaz”, acrescenta.
 
A evolução trouxe mais meios de diagnóstico, mais possibilidades de deteção de situações complexas, e também maior informação e sensibilidade por parte dos agentes educativos e mais pais e cuidadores a procurarem ajuda. Rita Castanheira Alves refere que hoje a educação exige mais dos pais, confere mais direitos às crianças, fruto de uma parentalidade mais consistente, de um maior acesso à informação. Tudo isso pode levar a uma sensação de crianças mais complicadas e mais problemáticas. No passado, também as havia. “Não creio que não houvesse aquilo que hoje se chama crianças complicadas, muitas delas não tinham um papel importante, eram reprimidas pelo medo e não pelo respeito, nalguns casos. Em muitos casos, se em crianças não ‘davam problemas’, revelavam-se e revelam-se mais tarde ‘adultos complicados’”.  

Os estudos e investigações feitos sobre o tema indicam que os programas terapêuticos grupais com crianças e adolescentes são, com frequência, eficazes e um excelente complemento a outras estratégias, como a psicoterapia individual, o trabalho terapêutico com os pais e com o sistema familiar, bem como o trabalho com os professores e outros elementos importantes para a criança e adolescente. “Em geral, nos casos de desafio das regras da sociedade e excessivo autoritarismo, é essencial trabalhar com os diferentes envolvidos, sempre que possível e acima de tudo, isso sim independentemente do quadro clínico, encontrar um espaço empático, de compreensão da criança/adolescente, de valorização da mesma, para que sinta capacidade de colaborar e veja vantagem na mudança.” Em Portugal, na sua opinião, seria benéfica a existência de maior diversidade de respostas públicas e privadas para as populações mais novas e suas famílias, com quadros de oposição e desafio de limites e regras de gravidade severa.
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Comentários
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Exigência e permissividade
Fecramos@netcabo.pt
Trabalho com crianças com problemáticas do foro emocional e comportamental. Li com atenção o artigo que retrata uma realidade cada vez mais presente no quotidiano das famílias que, não raro, se sentem impotentes para lidar com a omnipotência das crianças. O quadro agrava-se quando é transposto para o contexto escolar. Surgem sentimentos contraditórios e, por vezes, dificuldade em perceber quem é o "culpado".... Muito importante a comunicação entre todos os intervenientes, famílias,crianças, técnicos. Não é tarefa fácil, mas constitui um desafio que vale a pena enfrentar.

Fernanda Ramos
13-11-2015
 
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