O que esperar da nova e desconhecida ministra? Diálogo e estabilidade

Ex-vice-reitora da Universidade de Coimbra, especialista em modelos de governação na Educação, filha de uma professora primária. Margarida Mano foi indicada para ministra da Educação e Ciência. Tem 51 anos, três filhos, passou pela banca e tem experiência em gestão universitária. Gosta de sair da sua zona de conforto e faz parte de um coro sinfónico.
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O seu percurso político começou este ano, ao aceitar encabeçar a lista da coligação Portugal à Frente no distrito de Coimbra. Eleita deputada nas eleições de 4 de outubro, Margarida Mano, 51 anos, que ocupou o cargo de vice-reitora da Universidade de Coimbra, foi indicada por Passos Coelho para assumir o lugar de ministra da Educação e Ciência. O novo Governo toma posse na próxima sexta-feira, ao meio-dia. Sai Nuno Crato, entra Margarida Mano. Perante o atual panorama político, é imprevisível se o Governo cumprirá as suas funções. A maioria parlamentar de esquerda na Assembleia da República poderá inviabilizar o novo executivo e o país ir novamente a votos. Há partidos que dizem que este Governo não tem futuro.  

Uma coisa é certa: o matemático Nuno Crato está de saída do Governo. A sua sucessora é também independente, embora tenha assumido uma posição de destaque nas últimas eleições legislativas ao dar a cara no topo da lista da coligação PSD/CDS-PP na candidatura pelo distrito de Coimbra. Margarida Mano é de Coimbra, onde se licenciou em Gestão. É doutorada em Gestão pela Universidade de Southampton, no Reino Unido, e desde 1986 é professora auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Gestão estratégica, qualidade na administração pública e modelos de governação na Educação são apresentados como áreas científicas que lhe interessam e nas quais tem participado como especialista em diversos projetos internacionais. Tem experiência em gestão universitária enquanto administradora e pró-reitora da Universidade de Coimbra. Foi responsável pelo planeamento estratégico e financeiro e pela ação social da Universidade de Coimbra. Esteve no privado, trabalhou na banca. É-lhe reconhecida capacidade de planeamento estratégico e de gestão de equipas.

Na altura da campanha, concedeu várias entrevistas, deu a conhecer o seu percurso, falou do que a movia para encabeçar uma lista. “Não tive dificuldade em pôr-me ao lado de Passos Coelho e de aceitar lutar ao lado dos que lutaram ao longo dos últimos quatro anos”, afirmou três meses antes das eleições, numa entrevista dada ao jornal Público. Ao Diário Económico revelou que considerava importante dar o seu “contributo” numa altura delicada para o país e mostrou “disponibilidade completa para estudar o que for necessário, de modo a dar um contributo competente e para ajudar”. Passos Coelho foi decisivo na sua decisão. Vê no primeiro-ministro uma pessoa com “mérito” e que, na sua opinião, colocou os interesses do país acima dos interesses partidários.

Também confessou que a sua professora primária foi “determinante” no seu trajeto por a ter incentivado “à curiosidade, à importância dos detalhes, à cultura da disciplina, do trabalho e do rigor”. E deixou bem claro que está habituada a sair da sua zona de conforto. Tinha 14 anos quando foi selecionada entre os melhores alunos do país para participar numa exposição europeia em Florença, em Itália. Aos 28 anos era responsável de um balcão do Banco Português do Atlântico. Em 2000, assumiu a certificação dos serviços da Universidade de Coimbra e cumpriu esse objetivo. Coordenou o projeto do centro de serviços partilhados da universidade e, em 2008, ocupou o cargo de vice-reitora. É a mais velha de três irmãs, filha de uma professora primária e de um proprietário de uma pequena indústria e com ligações a Sá Carneiro, e mãe de três filhos – a mais velha é licenciada em Produção Teatral, a do meio é mestre em Farmácia e o rapaz mais novo é aluno em Engenharia Eletroténica na Universidade de Coimbra. Margarida Mano também tem voz para cantar. Pertence ao Coro Sinfónico Inês de Castro.

Expetativa e apreensão
O nome Margarida Mano não diz muito a quem se movimenta no ensino não superior. “O melhor é não ter grandes expetativas. É esperar que quem vier que venha por bem e com vontade de ganhar a Escola Pública que nos últimos anos foi muito maltratada”, refere Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), ao EDUCARE.PT, que adianta que Margarida Mano é um nome desconhecido no meio. A experiência ensina a ter reservas. “Quando Nuno Crato foi nomeado ministro ficámos com muitas expetativas e a verdade é que estamos absolutamente frustrados com o que foi o Ministério da Educação no consulado de Nuno Crato”, conclui.

A Associação Nacional de Professores (ANP) está expetante. O programa do Governo ainda não é conhecido, não é conhecida experiência da nova ministra no Ensino Básico e Secundário, e os governantes indicados podem nem chegar a exercer funções. “Estamos num impasse angustiante”, afirma Paula Carqueja, presidente da ANP, ao EDUCARE.PT. “Não sabemos o que vai acontecer com estas ameaças de queda do Governo”, acrescenta.

A ANP defendia a separação do ministério em dois, um dedicado ao Ensino Básico e Secundário, outro concentrado no Ensino Superior. Mas, nesta matéria, mantém-se o que estava, ou seja, uma única tutela, o Ministério da Educação e Ciência. “Face ao currículo apresentado na comunicação social, a senhora oferece-nos garantias de trabalhar muito bem para o Ensino Superior, mas estamos apreensivos com o Ensino Básico e Secundário face aos cortes e às ‘remodelações’ feitas”, realça Paula Carqueja.

A Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) espera diálogo, disponibilidade para ouvir, convergência entre todos, de forma a garantir a estabilidade no setor educativo. “Esperamos, no caso de vir efetivamente a exercer funções, que seja uma pessoa que perceba as necessidades de ter os parceiros envolvidos, de dialogar, de ouvir, que perceba que a Educação, hoje é um desígnio para todas as crianças”, afirma Jorge Ascenção, presidente da CONFAP, ao EDUCARE.PT. Ascenção sabe que Margarida Mano é professora universitária e pouco mais. Espera uma ministra com sensibilidade para perceber a multiplicidade e a diversidade que existem nas escolas e que entenda que “a Educação é também conhecimento e muito mais do que isso”. “Mais do que ter um conhecimento profundo da área que se governa, é fundamental ter perfil político para orientar e liderar”, observa.
O Governo que esta sexta-feira toma posse poderá estar a prazo. “Esta instabilidade para o país e para a Educação não é nada boa”, comenta Filinto Lima, vice-presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas e diretor do Agrupamento de Escolas Costa Matos, em Vila Nova de Gaia. Margarida Mano era um nome desconhecido até agora. “Não conhecemos, ouvimos o seu nome pela primeira vez, em termos de ensino não superior é um nome desconhecido”, adianta ao EDUCARE.PT. Não há muito a dizer, por enquanto, até perceber quais as ideias que a nova ministra tem para o setor. “Esperemos que diminua o grande constrangimento de não estar ligada ao ensino não superior, que se rodeie de pessoas que conheçam o terreno e a possam aconselhar bem, e que ouça as associações, os pais, os professores”, diz.     

A Federação Nacional da Educação (FNE) tece alguns comentários à nomeação de Margarida Mano. Refere que é uma pessoa “cujo percurso na área da Educação não é muito conhecido e que surge num contexto político de incerteza relativamente à sua efetiva entrada em funções”. O que é importante, sublinha, é perceber se há vontade política para “corrigir o percurso efetuado até aqui e investir verdadeiramente numa estratégia de valorização da educação e formação e no reconhecimento dos profissionais do setor”. A FNE reafirma a necessidade de encontrar soluções que garantam a estabilidade na Educação e a redefinição de políticas educativas “num quadro de grande participação social”.

A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) vê na substituição feita na pasta da Educação o reconhecimento da “incompetência técnica” que, em vários momentos, marcou o mandato de Nuno Crato, que, como escreve no seu site, “sai chamuscado pela fogueira que ateou contra a Escola Pública e os direitos e condições de trabalho dos seus profissionais”. “Já relativamente à nova ministra, e sabendo-se que os ministros não o são para concretizarem projetos pessoais, mas projetos políticos, todos sabemos que Margarida Mano, na qualidade de ministra do setor, irá/iria continuar o que foi feito na anterior legislatura”, refere Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, no site da Federação.

O responsável não acredita que a nova ministra tenha tempo para fazer o quer que seja. “Acho que a Portugal e à Educação em particular faz falta uma mudança profunda de políticas; como tal, o que mais desejo à nova ministra é que não vá além dos 10 dias na função. Se assim for, não deixará de ter uma foto sua no hall de entrada do ministério, mas não terá tempo de estragar ainda mais do que já foi estragado pelo seu antecessor”, refere.
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