Os “desafios” de educar alunos conectados

Usar o computador na escola, de forma limitada, é melhor que não usar. Mas só beneficia o desempenho dos alunos quando o software e a ligação à Internet aumentam o tempo de estudo e a prática, sugere a OCDE.
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É comum ouvir dizer que, hoje em dia, as crianças nascem ensinadas a mexer com os tablets e os smartphones dos pais. Por detrás desta observação, os estudos mostram a facilidade com que a tecnologia tem entrado no dia a dia.

O dinheiro gasto pelas famílias e investido nas escolas em computadores, ligações à Internet e recursos educativos tem aumentado muito, nos últimos 25 anos, nota a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Aumentam também as preocupações com a forma como lidamos com os ambientes digitais.

“A sociedade espera que as escolas eduquem as crianças para se tornarem consumidores críticos, ajudando-os a fazerem escolhas informadas e a evitarem comportamentos de risco.” Esta, entre outras recomendações, constam do relatório “Students, Computers and Leraning: Making The Connection” que divulga os resultados do PISA Digital 2012.

No entanto, os resultados do estudo mostram não haver melhorias significativas nos desempenhos dos alunos ao nível da leitura, matemática ou ciência – as áreas avaliadas pelo PISA - nos países que mais investiram nas TIC para a educação.

Uma das explicações pode ser a falta de um ensino que aproveite o máximo da tecnologia. “Adicionar tecnologias do século XXI a práticas de ensino do século XX acaba por diluir a eficácia do ensino.” Por isso, a OCDE recomenda um repensar sobre as pedagogias usadas para o ensinar os jovens. Mas alerta: “A tecnologia pode amplificar um bom ensino, mas uma boa tecnologia não pode substituir um ensino pobre.”

Mais equidade na educação
Entre 2009 e 2012, diminuíram as diferenças no acesso aos computadores entre alunos favorecidos e desfavorecidos. Em todos, menos em três países (Indonésia, Perú e Vietnam) pelo menos 90% dos alunos desfavorecidos têm acesso a computadores. Enquanto na Dinamarca, Finlândia, Hong Kong, Países Baixos, Eslovénia e Suécia mais de 99% dos alunos desfavorecidos têm acesso a um computador em casa, em 12 outros são menos de metade.
 
Ainda assim, os resultados nos testes feitos em computador mostram que as diferenças socioeconómicas continuam a fazer-se sentir bastante ao nível da habilidade para usar as TIC na aprendizagem, explicada pela diferença observada nas competências académicas mais tradicionais.

A “descoberta mais desapontante”, escrevem os autores, é esta: a tecnologia é de pouca ajuda para diminuir o fosso de competências que separa os alunos favorecidos dos desfavorecidos. Para reduzir as desigualdades no benefício trazido pelo digital, os governos têm primeiro de melhorar a equidade na educação.

Assegurar níveis base de proficiência na leitura e na matemática “parece ajudar mais na criação da igualdade de oportunidades no mundo digital do que pode ser alcançado ao expandir ou financiar o acesso a serviços ou equipamentos tecnológicos”.

Ler online ou em papel requer as mesmas competências base acrescidas de novas. Como as de ser capaz de navegar através de páginas ou ecrãs de textos, filtrar as fontes mais credíveis entre a larga quantidade de informação.
Coreia e Singapura estão entre os países com alunos mais competentes a navegar na Internet e com excelentes infraestruturas de acesso. No entanto, não acedem mais à Internet na escola que os colegas da OCDE. Apenas 42% dos alunos coreanos admitiram usar computadores na escola (72% na média da OCDE), em Xangai apenas 38%. E ambos alcançaram o topo da classificação nos testes de leitura e matemática baseados no computador do PISA 2012. Os investigadores acreditam, por isso, que “muitas das competências essenciais à navegação online podem ser ensinadas através de pedagogias convencionas e instrumentos analógicos”.

Pelo contrário, verificou-se que em países onde é mais comum os alunos usarem a Internet na escola para projetos escolares o desempenho na leitura baixou entre 2000 e 2012.

Do papel e lápis para o rato
Em 32 países e economias membros da OCDE, além dos exames tradicionais do PISA 2012, em formato papel, os alunos realizaram testes de leitura e matemática apresentados em computador. Singapura, Coreia, Hong Kong, Japão, Canadá e Xangai obtiveram as melhores classificações nos testes de leitura digital. A Matemática foi o foco do PISA 2012 e, pela primeira vez, foi avaliada em computador. Singapura, Xangai, seguidos da Coreia, Hong Kong, Macau, Japão e Taipé foram também os melhores na resolução de problemas matemáticos apresentados no computador.

Na Coreia e em Singapura, os estudantes obtiveram resultados em média superiores em 20 pontos na leitura digital, quando comparados com os colegas dos restantes países com competências semelhantes na leitura em papel. Nas avaliações dos conhecimentos matemáticos, Austrália, Áustria, Canadá, Japão, Eslovénia e Estados Unidos, Macau, Emirados Árabes Unidos tiveram melhores desempenhos no digital que no papel. O oposto aconteceu na Bélgica, Chile, França, Irlanda, Polónia e Espanha.

Uma escala de 1 a 5 é usada para classificar os conhecimentos dos alunos. Estudantes que obtenham o nível 5 são considerados leitores online competentes. Conseguem avaliar informação de diferentes fontes e a sua credibilidade. Bem como a utilidade do que estão a ler usando critérios estabelecidos por si próprios.

Nos 23 países da OCDE que participaram no PISA digital da leitura em 2012, 8% dos estudantes obtiveram desempenhos deste nível. Em Singapura, mais de um em quatro (27%) obtiveram classificações de nível 5 ou superior. O mesmo em um em cada cinco alunos em Hong Kong (21%) e Coreia (18%).

Uma classificação abaixo do nível 2 significa o domínio de tarefas digitais mais fáceis. Cerca de 18% dos alunos obtiveram maus desempenhos em leitura digital. Na Colômbia e Emirados Árabes Unidos, mais de metade dos alunos de 15 anos teve o mesmo baixo desempenho. As maiores percentagens de estudantes com as mais baixas classificações estão em países como Brasil (37%), Hungria (32%), Israel (31%), Chile (29%) e Espanha (26%).

Pelo contrário, menos de 5% dos alunos desempenharam abaixo do nível 2 no Japão, Coreia e Singapura. De acordo com a OCDE, estes países estão próximos de conseguirem que todos os alunos alcancem níveis básicos de conhecimento e as competências necessárias para aceder e usar a informação que conseguem encontrar na Internet.

Os dados mostram ainda que países com classificações semelhantes nos testes tradicionais de matemática não mostram as mesmas competências no formato digital. Quando não é necessário usar o computador, os alunos franceses e os canadianos obtêm pontuações semelhantes. Completam cerca de 42% das tarefas corretamente. No entanto, no Canadá os alunos têm significativamente mais sucesso do que na França (32% vs.27%) em resolver problemas cuja solução passa unicamente pela utilização de ferramentas no computador.

Habilidades necessárias à navegação
Certas competências são particularmente importantes na leitura em linha e no processamento de texto. Os leitores também devem ser capazes de navegar através de diferentes textos. O relatório do PISA dá algumas pistas sobre o que os alunos precisam de aprender para navegar corretamente na Internet.

Conseguir fazer uma boa avaliação da credibilidade das fontes com base em indícios como o nome explícito atribuído a um link. Predizer o conteúdo provável de uma série de páginas. Ter a capacidade de construir uma representação mental da estrutura do site para navegar entre as diferentes páginas que o compõem. São também alguns dos requisitos necessários para resolver problemas no formato digital. E, em último caso, as pontuações dos testes dependem do tipo de conhecimentos básicos de informática e da familiaridade com os formatos.
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Fiasco da robotização da infância
Raul Guerreiro
O relatório da OCDE não contém qualquer novidade. Apenas vem confirmar os inúmeros estudos científicos a nível mundial, com quase 10 anos de idade, relativos ao fiasco e ao desastre da educação desordenadamente digitalizada, como consequência da idolatria computacional praticada por agentes culturais intectualóides ou políticos ignorantes em pedagogia. A vulgarização dos computadores portáteis e o acesso ilimitado à internet deveu-se sobretudo à sua utilidade como instrumentos realmente úteis e necessários para a comunicação e o trabalho entre adultos. Mas especialmente para os anos da escolaridade pré-pubertária, a atual fascinação com a nova tecnologia esvaziada de valores éticos e morais vem provocando a degeneração mórbida de toda uma pedagogia humanista, indispensável para manter os alicerces da civilização. Até recentemente, o mundo da educação era um mundo que se alimentava de profundos ideais e impulsos antropológicos, religiosos, filosóficos ou psicológicos. Mas com a capitulação da máquina educacional perante as máquinas digitais, ocorreu uma perversa deformação de propósitos. A educação — que é simplesmente o futuro da humanidade — passou a depender de estratégias industrialistas e economicistas, durante as quais técnicos cibernéticos até se armam em formadores de pais e professores, a fim de implementar as suas visões robóticas desumanizadas. A humanidade está agora ávida de algo como uma ainda pouco conhecida "sabedoria profunda do homem e para o homem", que se pode designar justificada e abertamente por antropo-sofia, para fazer frente a uma tecno-idolatria que não receia comparação com o recente passado negro totalitário de Portugal. Este é o momento histórico e dramático que estamos a assistir, conforme o avanço da miscigenação homem-máquina vem promover uma nova forma de barbárie coletivista, ornada com brilhantes promessas futurísticas, mas obrigando educadores a desistirem da sua função humanista e formadora primordial, para tornarem-se meras peças de um verdadeiro fascismo robótico invisível.

Prof. Raul Guerreiro
Pedagogo Waldorf
07-10-2015
 
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