“O ensino é muito mais do que uma atividade técnica”

Maria Assunção Flores, investigadora do Centro de Investigação em Estudos da Criança da Universidade do Minho, foi homenageada no Japão. A docente esteve no Japão e na Nova Zelândia e conta quais os assuntos educativos abordados. A formação de professores foi um dos temas analisados.
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Maria Assunção Flores, investigadora do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC) da Universidade do Minho (UM), foi homenageada na 59.ª Assembleia Mundial do Conselho Internacional de Educação para o Ensino (ICET), que decorreu em junho na Universidade de Educação de Naruto, Tokushima, no Japão. A docente da UM recebeu o título de “membro emérito” por parte da direção dessa organização que, desta forma, distinguiu o seu trabalho e liderança como presidente desse organismo – função que exerce desde julho de 2011. É a primeira portuguesa a exercer este cargo.

A professora da UM, licenciada em Ensino de Português-Francês, doutorada em Educação pela Universidade de Nottingham, Reino Unido, está neste momento a liderar a edição de um livro sobre formação de professores no mundo, que será publicado nos Estados Unidos, e que será oficialmente apresentado durante as comemorações da 60.ª Assembleia Mundial do ICET, a realizar na Jamaica, em julho de 2016. 

Depois do Japão, Maria Assunção Flores esteve na Nova Zelândia, onde foi reconduzida no cargo de presidente da Associação Internacional de Estudo dos Professores e do Ensino (ISATT), considerada uma das estruturas mais prestigiadas nesta área. É a primeira vez que uma portuguesa assume o cargo para o qual foi eleita em 2013. A recondução, por unanimidade, para o segundo mandato aconteceu no 17.º Congresso Bienal da Associação, que decorreu na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, em julho. Uma vez mais, a qualidade do seu trabalho e a liderança foram reconhecidas. A professora portuguesa pretende expandir a associação nas regiões do globo onde está menos representada, bem como disseminar o trabalho dos seus membros em fóruns e conferências. O objetivo é potenciar a articulação entre a investigação, a prática e a política, nomeadamente no que diz respeito à formação de professores para o século XXI e à melhoria da educação, através do debate e da produção de documentos relevantes neste domínio. 

“O Ensino do Futuro, Hoje” foi o tema em destaque na Nova Zelândia. Discutiram-se os desafios e exigências do ensino na atualidade no sentido de preparar os alunos para um futuro que está próximo mas que é incerto e complexo. “O tema do congresso capta bem o sentido de urgência, de entusiasmo e de desafio que enfrentamos nos tempos atuais, em particular as abordagens que têm impacto no envolvimento dos alunos na sua aprendizagem”, refere Maria Assunção Flores. 

O ensino é uma atividade sofisticada e complexa. Chegaram-se a várias conclusões. O ensino e a aprendizagem não podem ser entendidos apenas como transmissão e receção de conhecimentos. O ensino envolve a gestão de dilemas pedagógicos e que estão no âmago da qualidade da prática docente e que é necessário explicitar. O ensino não é um processo linear, mas complexo e é necessário entendê-lo como problemático e sofisticado e que não se compadece com soluções simplistas e lineares. 

 A formação de professores também foi analisada e verificou-se que é preciso reconhecer a importância da dimensão cultural, social e ética nesta formação que analise, de forma crítica, a cultura profissional docente, o clima e as relações profissionais nos locais de trabalho bem como a condição docente. Até porque esta formação surge associada à natureza do currículo escolar e à instrumentalização dos professores e da sua formação para tornar o currículo escolar eficaz, deixando de lado dimensões centrais como é o caso da dimensão ética, relacional, social e orientada para a equidade e justiça. “Tem predominado uma cultura gerencialista e performativa nas escolas no sentido do cumprimento de regras que são geradas e impostas de fora deixando os professores sem tempo e energia para refletir sobre o sentido e a coerência do ensino e da aprendizagem”. A colaboração docente, o trabalho em equipa e análise da cultura profissional docente, devem ser aspetos a repensar na formação de professores a par de uma colaboração mais estreita com as escolas e os professores. “O ensino é muito mais do que uma atividade técnica, inclui uma dimensão emocional, relacional, afetiva e moral. Urge, portanto, reconhecer os propósitos sociais e morais do ensino por oposição a uma visão de professor como técnico dominado por uma burocracia estéril e extenuante, o que tem repercussões nas suas identidades profissionais”, sublinha a docente. A Direção da ISATT conta com investigadores oriundos dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Austrália, da África do Sul, do Brasil, da Espanha, de Hong Kong e do Canadá. A ISATT, que comemorou este ano o seu 32.º aniversário, é uma associação internacional fundada em 1983 que reúne mais de 250 membros oriundos de 50 países dos vários continentes com o propósito de promover, analisar e divulgar investigação sobre os professores e o ensino, bem como aprofundar o conhecimento e a prática no sentido da melhoria da qualidade da educação.

Reduzir disparidades
No Japão, discutiram-se assuntos que interessam a todos os que se preocupam com a educação, independentemente dos países e das distâncias. A docente da Universidade do Minho participou num painel internacional sobre avaliação de professores com académicos da Ásia, América Latina e América do Norte e realçou-se a necessidade de explicitar e testar critérios de avaliação rigorosos e de promover a dimensão formativa da avaliação dos professores através da supervisão, bem como de articular a avaliação dos docentes com a melhoria das práticas na sala de aula e de proporcionar feedback atempado e útil para a melhoria do desempenho profissional de quem ensina, o que exige uma adequada formação dos avaliadores e uma maior credibilidade e confiança no sistema de avaliação.

“Desafiar as Disparidades na Educação: Promover uma Educação de Qualidade para Todos” foi o tema central em discussão no Japão. Maria Assunção Flores, a única portuguesa no evento, que reuniu mais de 200 participantes de todo o mundo, conta o que se passou. Vários assuntos estiveram em cima da mesa, como o desenvolvimento do currículo e suas conceções, a avaliação e estratégias de ensino e aprendizagem, o papel das tecnologias de informação e comunicação na sala de aula, as lideranças escolares e o impacto das políticas educativas no trabalho dos professores e nas aprendizagens dos alunos, entre outros. “Uma das questões em debate foi a análise da expansão global, à escala mundial, da chamada ‘educação paralela’ e das suas implicações para a profissão docente bem como os seus efeitos: exacerbam-se ou minimizam-se as disparidades?”.

“O conceito de disparidades na educação varia em função do contexto e das responsabilidades dos vários interessados na educação, mas, independentemente da interpretação ou entendimento do termo, os professores, os líderes, os académicos e investigadores neste domínio, entre outros, enquanto profissionais motivados e comprometidos com a educação, devem enfrentar e desafiar as disparidades na educação nos seus contextos de trabalho de modo a realizar a missão do ICET”, conta.

Entre os maiores desafios na educação nos últimos anos destacam-se a expansão da educação para um maior número de pessoas, os novos métodos de ensino e de aprendizagem potenciados pelas tecnologias da informação e comunicação, e o acesso a dados sobre a educação no mundo decorrentes de processos e instrumentos de monitorização e de avaliação. Há ainda as mudanças no papel do Estado e do setor privado na educação e a expansão, em vários formatos, da chamada “educação paralela” que existe a par dos sistemas educativos com implicações para a vida e trabalho dos professores e das escolas. “A educação paralela e as tutorias privadas ou explicações tornaram-se uma indústria de relevo com implicações para as escolas e o papel dos professores, nalguns casos podem ajudar a reduzir as disparidades, mas, noutros, como é o caso do Japão, podem exacerbá-las”, refere.

Do outro lado do mundo, foram então identificados três desafios. Reconhecer a escala e impacto da “educação paralela”. Analisar o seu impacto nas disparidades. “Estas disparidades podem ser regionais e em parte podem explicar porque os países do Leste da Ásia têm tido bons resultados no PISA e no TIMSS. Mas mesmo aqui é necessário analisar as pressões que a ‘educação paralela' traz para os alunos bem como a qualidade da educação que lhes é proporcionada, nalguns casos a tutoria e explicações ajudam na consecução de bons resultados, noutros podem influenciar negativamente o trabalho das escolas se não houver uma monitorização e avaliação adequadas.” Também é importante considerar o papel dos professores e perceber de que modo a “educação paralela” influencia o seu trabalho nas escolas.

“Acresce o papel relevante da Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável no âmbito da ONU e antevê-se com expectativa o Programa Global de Ação para a Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2015-2020). Muito foi conseguido em termos, por exemplo, da reorientação da formação de professores como elemento-chave para garantir um futuro sustentável. Muitos professores e formadores de professores sentem-se desafiados pelo âmbito do currículo e das mudanças pedagógicas na educação para o desenvolvimento sustentável. Assim, é necessário explorar as possibilidades para ajudar os professores a integrar, de forma adequada e produtiva, a Educação para o Desenvolvimento Sustentável nas suas aulas e na formação de professores”, lembra a docente da UM.

Classes sociais e sucesso educativo
As disparidades sociais também têm implicações na educação. “A relação entre a classe social e o nível de sucesso educativo tem sido observada em muitas sociedades, à medida que as disparidades sociais aumentam, os mais pobres e com menos recursos estão em piores condições para investir na educação. As disparidades sociais constituem atualmente uma preocupação global.” “Nalguns países, como o Japão, discute-se a invisibilidade da diferença, associada à individualização das disparidades sociais, bem como a ironia dos rankings na esfera não oficial. Os testes internacionais, nacionais e locais situam-se na esfera pública da educação e levam-nos a centrar nas escolas mais competitivas mas também nas que obtêm menos sucesso”, acrescenta.

Segundo Maria Assunção Flores, uma análise recente demonstrou a relação entre o estatuto socioeconómico das crianças e os resultados obtidos. “A análise das diferenças que levam aos rankings situa-se na esfera privada. Mas basta ver na Internet a informação abundante sobre rankings de escolas com base no número de alunos que têm sucesso nos exames.” “Mas o discurso da individualização e da invisibilidade da diferença faz com que os problemas que são estruturais pareçam problemas individuais de motivação, esforço ou educação dos pais. Assim, a responsabilidade é colocada nas mãos dos pais e das crianças. Se forem entendidos como aspetos estruturais tais como a sistemática exclusão social dos alunos de classes mais desfavorecidas, a sociedade tornar-se-á responsável pelo fracasso desses alunos.”

O fracasso da implementação de medidas políticas para minimizar as disparidades na educação também foi abordado no Japão. Nesta área, os participantes concluíram que não se pode apenas ter em atenção quando e onde vai ser implementada, mas também o modo como os aspetos realistas da sua implementação a informam e enformam. E, por isso, será necessário reavaliar objetivos iniciais para tornar a política mais realista e viável. A docente da UM dá um exemplo: “Se a inovação curricular constitui o âmago de uma determinada política, não basta publicar um novo currículo ou padrões de avaliação, é necessário dar atenção ao modo como os ideais do currículo podem ser efetivamente colocados em prática.”

O ICET foi fundado em 1953 com o objetivo de melhorar a qualidade da educação no mundo, por via da cooperação internacional e de programas e parcerias entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, com particular incidência na formação de professores, no ensino e na investigação. Está sediado nos EUA e integra académicos, administradores e decisores políticos, entre outros. Pretende em geral proporcionar um fórum para intercâmbio de informação e discussão de questões e tendências na educação a nível global, através de redes, parcerias, publicações e da assembleia mundial.
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