Paulo Guinote: “A educação transformou-se numa cartografia de interesses”

Paulo Guinote colocou um ponto final no seu blogue A Educação do Meu Umbigo. Garante que não foi uma decisão dolorosa, admite que o modelo de escrita diária sobre a atualidade educativa poderia tornar-se numa caricatura do que foi. E, na sua opinião, há palavras - como autonomia, liberdade, responsabilização - que se esvaziaram de conteúdo.
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Em 2006, o professor Paulo Guinote criou o blogue A Educação do Meu Umbigo como uma “gaveta de textos e memórias a pretexto da educação que vamos tendo”. O debate do que acontecia na educação passava por ali. Na semana passada, anunciou o fim do blogue e não é previsível que altere a decisão. “Chegou ao fim do seu prazo de validade, antes de se estragar”, comenta.

O balanço é positivo. Um percurso que valeu a pena. O “Umbigo” esmiuçava os assuntos que iam marcando a atualidade educativa. Na despedida, o professor de Português, licenciado em História e doutorado em História da Educação, reconhece ao EDUCARE.PT que o seu blogue, um dos mais lidos sobre temas educativos, foi uma arma. Uma arma, concretiza, “no sentido de demonstrar que as escolas têm massa crítica e que os professores não devem ser encarados como um grupo profissional disponível para aceitar acriticamente os discursos oficias sobre educação”.

EDUCARE.PT: Anunciou o fim do blogue A Educação do Meu Umbigo. É um adeus definitivo?
Paulo Guinote (PG):
Sim. É o fim do “Umbigo” e não prevejo qualquer parte dois ou sequela.

E: Esta despedida é sinal de desgaste? Cansado do que vê? Porquê fechar essa “gaveta de textos e memórias a pretexto da educação que vamos tendo”? Uma decisão dolorosa?
PG:
É um sinal de esgotamento e de consciência dos limites de um modelo de escrita diária, sobre a atualidade educativa, que dificilmente traria algo de novo e poderia acabar por se transformar numa rotina e numa caricatura do que já foi.

Não foi uma decisão dolorosa, porque sempre achei que tudo tem os seus momentos e fases na vida das pessoas e não só. Sempre fui favorável à limitação de mandatos e contra o estender excessivo de certas formas de intervenção pública. O “Umbigo” foi algo que criei e alimentei quase uma década, nos últimos anos com mais um colaborador, e que chegou ao fim do seu prazo de validade, antes de se estragar.

E: Fecha o blogue com a imagem que simbolizava uma avaria na televisão. É uma avaria na educação?
PG:
Sim, pode dizer-se que a educação está avariada ou viciada, muito em especial ao nível das principais opções políticas, pois não existem verdadeiras alternativas e isso é muito notório na afinidade do discurso de antigos ministros que mesmo quando encenam discordâncias estão de acordo no essencial, ou seja, em medidas que reduziram a educação a cálculos econométricos e a cadeias de submissão hierárquica nas escolas e fora delas.

E: A municipalização da educação foi a gota de água que fez transbordar o copo?
PG:
Foi uma das gotas, e certamente não foi das menores, porque foi um debate meramente encenado, em que PS e PSD estão de acordo, o que se vê bem na adesão ao modelo. Porque foi um debate em que se esvaziaram de sentido conceitos e palavras como “autonomia”, “liberdade”, “responsabilização”, “proximidade”. Porque foi mais uma coreografia legitimadora do que uma discussão de opções e quando tive a certeza que assim era, compreendi que até as opiniões discordantes faziam parte da encenação.

E: Referiu, há dias, que já não existe espaço para um debate sério e plural. O que resta então?
PG:
Restam as queixas de uns, as acusações de outros, a permanente desresponsabilização dos mesmos (leia-se dos governantes) e um espaço público de debate em que a educação se transformou numa cartografia de interesses e influências em que as convicções foram esmagadas pelo “mercado”.

E: Fala numa “coreografia do fingimento”. Quem faz essa coreografia?
PG:
A coreografia é feita pelos atores institucionais em presença que se sucedem no palco há décadas, seja nos aplausos mútuos como nos conflitos recorrentes. Tudo é previsível como numa peça feita por um autor preguiçoso, em que os protagonistas têm apenas uma dimensão e todos nós, alunos, professores, encarregados de educação, não passamos de figurantes.

Temos um ministério que se implodiu a si mesmo e não apenas à estrutura burocrática. Um ministério que nunca assume culpas, mantendo uma longa tradição, que manifesta uma confrangedora ausência política, uma atroz incompetência técnica (basta ver as circulares que se sucedem a dizer algo e o seu contrário) e uma inexplicável subserviência a departamentos que, como o IAVE (Instituto de Avaliação Educativa), mais do que autónomos parecem verdadeiros feudos.

E: Diz que não vale a pena debater o que já está decidido. Não vale a pena bater na mesma tecla?
PG:
Não. Em meu entender, torna-se escusado insistir com quem não quer ouvir ou, quando ouve, não está disponível para compreender ou reavaliar as opções com base em factos e demonstrações empíricas. O debate só pode existir com uma base de racionalidade e de dialética. Um dos primeiros textos do blogue era exatamente contra essa atitude de fechamento do pensamento sobre si mesmo, recusando alternativas, quase como se estivéssemos no domínio da fé e da irracionalidade.

E: Descrente dos partidos, descrente dos sindicatos, descrente da equipa de Nuno Crato?
PG:
Descrente de tudo isso e mais algumas coisas. Não serei propriamente niilista, mas cada vez ando lá mais perto. Detesto um campo de debate e confronto público em que os intervenientes estão estáticos nas suas posições e interesses. No caso de Nuno Crato, uma enorme desilusão pela forma como se reduziu a um simulacro do que sempre criticou.

E: Em quase 10 anos de blogue – faria uma década no próximo ano – qual o assunto mais doloroso sobre o qual escreveu? E o mais alegre?
PG:
As situações mais dolorosas relacionaram-se com a perda de colegas, com mortes de pessoas próximas ou distantes. Os momentos mais divertidos que sobreviveram foram aqueles que corresponderam a textos sobre determinados “tipos” de pessoas, professores ou políticos, por exemplo, apenas tendo como base a observação de pequenos ridículos do quotidiano. Existiram outros momentos, que se revelaram fugazes, em que pensei que se tinha conseguido alguma coisa em termos de mobilização dos docentes, mas quase todos acabaram em desânimo.

E: E qual ou quais agitaram mais o quotidiano da educação?
PG:
A fase das grandes manifestações de 2008/2009, a discussão em torno da entrega dos chamados “Objetivos Individuais” dos professores. A mais recente greve rotativa às reuniões de avaliação.

E: Há algum comentário feito no blogue que o tenha surpreendido, que o tenha feito pensar duas vezes?
PG:
Muitos, porque se não nos surpreendermos e pensarmos duas e três vezes é porque caímos no erro das convicções inabaláveis sobre tudo. Não consigo individualizar um, mas consigo identificar alguma inflexão na minha forma de encarar alguns temas, como é o caso dos mecanismos da liberdade de escolha ou da própria avaliação dos alunos.

E: Quase 10 anos de “Umbigo”. Dez anos que valeram a pena?
PG:
Sim, por certo que valeram.

E: O “Umbigo” foi uma espécie de arma?
PG:
Foi uma arma, usada de forma consciente e seletiva, sem ser apenas numa perspetiva destrutiva. Foi uma arma no sentido de demonstrar que as escolas têm massa crítica e que os professores não devem ser encarados como um grupo profissional disponível para aceitar acriticamente os discursos oficias sobre educação, seja dos poderes políticos transitórios, seja de um sindicalismo muito ligado a estratégias político-partidárias, seja dos eternos “especialistas” externos, em particular os que se perpetuam na opinião publicada. Foi uma arma para defender a pluralidade e liberdade, se me é permitida alguma vaidade.

E: Há gente que já sente falta do blogue. Não cederá a uma reabertura?
PG:
Não há qualquer possibilidade de ceder a “vagas de fundo” como aqueles que anunciam o fim de um ciclo para o retomar logo a seguir.

E: Acredita na educação que temos? Acredita que o sistema não é assim tão mau como tantos dizem?
PG:
A educação que temos é muito melhor do que muitos querem fazer crer, incluindo decisores políticos, por razões de agenda política pseudo-reformista, e mesmo gente que está nas escolas, mas muito marcada por experiências menos positivas. Os ganhos conseguidos nas últimas décadas são substanciais e nem sempre reconhecidos. A recuperação conseguida em relação ao nosso nível de atraso é imensa e só por má vontade ou desonestidade intelectual se fazem comparações desfavoráveis com médias internacionais de que vamos estando cada vez mais perto ou mesmo ultrapassando, quando há 40 anos estávamos destacados na cauda das tabelas.

Há muito de bom a passar-se nas escolas e nas salas de aula, apesar do que quer fazer crer a opinião pública, mesmo se reconheço áreas a precisar de urgente intervenção. Mas, em muitos casos, essa é uma intervenção que deve começar e terminar para além dos portões das escolas, numa sociedade que ela própria está em profunda crise e cada vez mais desigual.

E: Vai continuar a dar a sua opinião sobre assuntos de educação no espaço público? Vai continuar a intervir?
PG:
Sim, desde que procurem essa minha opinião. Por escrito num horizonte próximo, apenas algumas crónicas para a imprensa, desde que as mesmas tenham recetividade e eu as ache oportunas.
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Comentários
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Os professores do 1ºciclo têm de continuar a lutar
coeh
https://oduilio.wordpress.com/2015/04/02/da-importancia-da-monodocencia/#respond
02-04-2015
E o 1º ciclo?
Du
https://oduilio.wordpress.com/2015/04/02/da-importancia-da-monodocencia/#respond
02-04-2015
1º ciclo
coeh
deficiente construção de alicerces de um edifício, pode ser disfarçado com bons acabamentos, mas a sua evidente degradação será visível em pouco tempo. O mesmo se passa nos primeiros quatro anos escolares de qualquer aluno. Uma aprendizagem deficiente, dos 5 aos 10 anos, raramente dará origem a uma história escolar de sucesso.

O aumento de número de alunos por turma, a criação de turmas mistas com dois e três anos de escolaridade em conjunto com os problemas de índole social nas escolas públicas, assim como a diminuição dos apoios educativos, tem vindo a degradar a ação do professor multidisciplinar que não consegue chegar a todos, com prejuízo dos que mais precisam.

O fim parcial da mondocência, assim como o envelhecimento dos professores (com a alteração do regime de aposentações) vai também potenciar a degradação do trabalho de um grupo profissional que habitualmente apresentava bons resultados.

A esperança que a aproximação de eleições traga boas novas a este quadro negro é diminuta, mas mesmo assim constitui uma oportunidade de, tornar visíveis injustiças que para o cidadão comum são marginais.
02-04-2015
 
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