O Natal não tem fronteiras

Na EB2,3 Ferreira de Castro, em Mem Martins, há desejos de Natal escritos em várias línguas e testemunhos de alunos de diferentes nacionalidades que contam como se vive esta quadra nos seus países. Há sol e doces com leite de coco em África, em Espanha abrem-se as prendas a 6 de janeiro, na Ucrânia todos os compartimentos da casa têm uma decoração natalícia.
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Na EB2,3 Ferreira de Castro, em Mem Martins, Sintra, o Natal tem várias cores, várias línguas, várias tradições. A escola conquistou o selo intercultural e desenvolve projetos de multiculturalidade – no agrupamento, a certa altura, contaram-se alunos de 27 nacionalidades. O Natal não passa despercebido. Este ano, a EB2,3 reuniu num ramo natalício desejos de boas festas escritos pelos alunos oriundos de outros países. Nas paredes, estão expostos testemunhos dos estudantes que vieram de fora e que relatam como se vive o Natal nas suas terras. Cada aluno tem direito a uma foto.

Anabela Carvalho, professora de Português Língua Não Materna, acompanha os alunos nestas caminhadas, nas pesquisas pelo o que é diferente e que pode ser contado aos outros de forma a enriquecer a visão de outros mundos. No projeto multicultural, que nasceu há cerca de sete anos, cabe muita coisa. O Natal também. “Os alunos gostam de fazer estas pesquisas”, conta. Descobrem a diversidade que há à volta, partilham-na, discutem-na.

Todos aprendem nesta diversidade. Descobre-se que aqui ao lado, em Espanha, as prendas só são abertas a 6 de janeiro, Dia de Reis. Que o Natal em África é quente e que, por exemplo, em Cabo Verde se coloca em cima da mesa a cabritada e doces com leite de coco. Percebe-se que em Cuba é proibido celebrar o Natal, mas que há quem o faça às escondidas. E que na Ucrânia é ponto assente que todos os compartimentos da casa têm um apontamento natalício, até mesmo as casas de banho. Tradições diversas que se encontram num espaço de aprendizagem. “Há sempre um elo comum”, garante Anabela Carvalho. Seja pelo peixe à mesa, seja pelas decorações, pelos presentes, seja pelo espírito que se vive nesta quadra.

António Castel-Branco é diretor do Agrupamento de Escolas de Ferreira de Castro e adianta que não é só o Natal que entra no projeto multicultural. A gastronomia de diversos países está nas escolas pelo menos uma vez por mês. Há jornais de parede que contam como se vive fora das fronteiras portuguesas. E há festas em que os alunos podem trajar a rigor, ou seja, vestir os trajes típicos dos seus países. Formas de dar a conhecer tradições que são diferentes. Formas de integração.

Um único Natal, todos os Natais ou nenhum Natal? A pergunta é de Rita Castanheira Alves, psicóloga clínica especializada na área infantil e juvenil e de aconselhamento parental, autora de um projeto que está no site www.psicologadosmiudos.com. Cada vez mais, as escolas têm crianças de diferentes nacionalidades e as opiniões dividem-se sobre a forma como se deve abordar o Natal nos espaços de ensino, tendo em conta a diversidade cultural e religiosa. Não há uma única opinião ou regra para o fazer.

O respeito pela liberdade de escolha e cultura de cada um não pode, na sua opinião, ser esquecido em todas as práticas educativas nas escolas. O Natal não deve ser exceção. “Encarando a escola como local, sistema e instituição de aprendizagem, ensino, conhecimento, saber e informação, creio que também no que respeita ao Natal e suas tradições deve cumprir aquilo que são as suas funções e como tal ser responsável e cuidadosa na passagem de conhecimentos, informações e aprendizagens, por isso, enquanto técnica sou apologista de não limitar o conhecimento a um 'único Natal' e a uma única tradição, seguido por uma maioria no nosso país. Os alunos têm direito a conhecer o que existe, ser alertados da diversidade e refletir sobre a diferença, quando falamos do Natal ou de outra qualquer tradição ou acontecimento”, refere Rita Castanheira Alves.

E como abordar vários Natais? De forma imparcial, objetiva e dando espaço a todas as tradições. Rita Castanheira Alves dá algumas sugestões. Apresentação, pelo professor responsável pelo tema, das diferentes tradições de acordo com as nacionalidades, culturas ou religiões. Recorrer às famílias dos alunos, envolvendo-as na aprendizagem sobre o Natal, solicitando que apresentem as tradições do seu país, religião ou cultura, garantindo que há por parte de todos os agentes educativos – incluindo as famílias - o respeito pelas diferenças culturais. Envolver os alunos de diferentes nacionalidades, convidando-os a falar sobre as tradições natalícias do seu país, promovendo o intercâmbio intercultural, através da troca de experiências e tradições, garantindo uma atmosfera de respeito e abertura entre todos. “Encontrando jogos de aquisição de conhecimentos sobre o Natal em diferentes partes do mundo, religiões e culturas.”

Mas, afinal, o que é mais importante? Rita Castanheira Alves recorda uma história. Há alguns anos trabalhou numa escola que recebeu um recado de um encarregado de educação que pedia que a filha fosse posta noutra sala quando se falassem nas tradições de Natal e para que não participasse nas atividades alusivas à época, uma vez que na religião da família o Natal não era festejado. “A propósito de escolhas e situações como esta, enquanto psicóloga clínica na área infantojuvenil, alerto para o que considero mais importante neste tema, para os agentes educativos que “vivem” o Natal com as crianças nas escolas: desenvolver o respeito entre os alunos pela cultura, religião e tradições de cada um e de cada família e lembrar às famílias que o conhecimento e a informação são sempre enriquecedores, pelo que independentemente da cultura e perpetiva sobre o Natal, conhecer as diversas tradições é sempre benéfico e produtivo, proporcionando um crescimento informado, consciente e curioso.”

Inês Afonso Marques, psicóloga clínica na Oficina de Psicologia, lembra que a escola é um contexto privilegiado para as crianças terem contacto com a forma como o Natal e a entrada no novo ano são vividos em diferentes países e culturas. É importante, por isso, dar a conhecer as diferentes tradições associadas a esta época do ano, quer existam ou não alunos de diferentes nacionalidade na turma. “É uma oportunidade única de as crianças encontrarem pontos de contacto com outras crianças, aprenderem sobre a diversidade, suscitar a curiosidade e desenvolver o respeito e a tolerância”.

Em seu entender, os agentes educativos podem abordar o tema de forma inclusiva. “As crianças poderão contar as suas histórias, levar para a escola elementos associados ao seu Natal, apresentando e dando a provar aos colegas os sabores do seu Natal, mostrando imagens e apresentando tradições. Os professores e educadores poderão ajudar a criar as condições para que todos explorem diferentes tradições, descobrirem origens e relacionarem-se com a história de várias culturas, como ponto de partida para uma reflexão sobre a tolerância e o respeito pela diferença”. “Quando existem crianças de várias nacionalidades todas poderão participar de acordo com as suas realidades. Quando a experiência é mais comum, a turma pode ser dividida em grupos e todos poderão fazer trabalho de investigação e de posterior partilha”, acrescenta.
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