Apenas 20% dos alunos do 9.º ano pediram o certificado de Cambridge

O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) faz uma leitura dos resultados do exame Key for Schools que, na sua opinião, confirmam a necessidade de criar uma maior equidade no acesso à certificação da proficiência da Língua Inglesa. O IAVE destaca o envolvimento das empresas na aplicação do exame que tem a assinatura da Cambridge. O próximo teste será mais difícil e em 2015-2016 o Inglês passa a ser obrigatório a partir do 3.º ano de escolaridade.
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Quarenta e sete por cento dos alunos do 9.º ano que fizeram o teste de inglês Key for Schools tiveram resultados abaixo do esperado. Quase metade revelou ter conhecimentos da língua inferiores aos exigidos no 7.º ano de escolaridade. Dos cerca de 102 mil alunos que realizaram o teste, 92% frequentavam o 9.º ano. Dos restantes 8%, 3%  dos alunos frequentavam o 2.º e 3.º ciclos e 5% o Ensino Secundário.

O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) revela ao EDUCARE.PT que tendo sido dada a oportunidade a todos os alunos do 9.º ano de obterem o certificado assinado pela Cambridge, apenas 20% fizeram esse pedido.

Hélder Sousa, presidente do IAVE, interpreta as notas do exame aplicado pela Cambridge English Language Assessment. “Os resultados refletem a situação esperada, tendo presente a informação que o estudo Surveylang, da Comissão Europeia, conhecida em 2012, fazia antever. Apenas o desconhecimento dos resultados desse estudo permitiu que ao longo do ano letivo fossem surgindo críticas à opção pelo teste Key for Schools, cujo nível de certificação de referência era o nível A2, então considerado muito baixo. Qualquer outra opção, com a aplicação de um teste com um nível de certificação mais elevado, neste contexto de diagnóstico num primeiro ano, teria sido um erro difícil de justificar”, revela ao EDUCARE.PT.
 
Os resultados evidenciam uma tendência de melhoria face aos resultados do estudo, publicados em 2012, e mostram “uma descida importante na percentagem de alunos que então obtiveram o nível A1 e uma subida, relevante, da percentagem de alunos com o nível A2”. Hélder Sousa admite que os resultados ficam aquém do que seria desejável para alunos do 9.º ano, dos quais se esperava a obtenção do nível B1. “Menos positivo o facto de 47% dos alunos terem alcançado um nível inferior ao previsto no teste: 24,3% atingiu o nível Pré-A1 e 22,9% o nível A1. Dos restantes alunos do 9.º ano (53% do total), 31,6% alcançaram o nível A2 e 21,1% apresentaram conhecimentos ao nível B1, pontuação igual ou superior a 90 pontos (menção Pass with Distinction). Ainda como sinal positivo o facto de 16,1% terem obtido uma pontuação entre 80 e 89 pontos (classe que integra os resultados a que corresponde a menção Pass with Merit)”, refere.

Conhecidos os resultados da estreia do Key for Schools, o IAVE adianta que se confirma a necessidade de criar uma maior equidade no acesso à certificação da proficiência da língua inglesa. Até porque outros dados relevantes prendem-se com as diferenças nas notas consoante as regiões do país – na região do Tâmega, por exemplo, cerca de 40% dos alunos tiveram uma nota fraca. “Quando se observa uma tão grande disparidade de resultados no território nacional, entre os grandes centros urbanos e o interior do país, como os resultados do teste Key for Schools nos mostram, é essencial criar condições territoriais que promovam o acesso de todos os alunos a um projeto como este”, afirma o presidente do IAVE. “Basta ver que dos alunos que obtiveram uma classificação igual ou superior a 70 pontos, equivalente aos níveis de proficiência linguística A2 e B1, calculado em valor índice (média nacional igual a 100), sobressaiu uma forte amplitude entre o valor máximo (129 - Grande Lisboa) e o mínimo (Tâmega - 61)”, lembra.

Apoio privado, reforço da escola pública
No início do projecto, o IAVE endereçou convites a mais de 30 entidades para que se associassem à iniciativa, à aplicação de um exame desenhado pela Cambrigde. “Dificilmente este projeto teria sido possível sem o apoio dos parceiros. A eles se deve a garantia financeira da implementação do projeto, ao assegurarem os custos devidos a Cambridge English Language Assessment, retirando esse peso do orçamento público. Desde o início do projeto, e da assinatura do protocolo entre o IAVE e os parceiros BPI, Conexall, Novabase, Porto Editora e Fundação Bissaya Barreto, que se pretendia contribuir para a certificação generalizada da população no uso do Inglês, de uma forma mais uniforme e equilibrada”, lembra Hélder Sousa.

As portas não se fecharam. Qualquer empresa que queira associar-se e aplicar recursos, em nome da responsabilidade social ao serviço da educação, apoiando este ou outros projetos, será, garante o presidente do IAVE, bem-vinda. “De facto, a partir desta primeira aplicação do teste Key for Schools, fica provado que apoios privados podem constituir um forte contributo para o reforço da escola pública.” “A título de exemplo, sem o apoio das entidades privadas que se associaram ao Key for Schools, dezenas de milhares de alunos que residem fora de áreas com acesso fácil a escolas de línguas estrangeiras estariam privados da obtenção de uma certificação, já para não falar da possibilidade de todos, em áreas urbanas ou outras, poderem usufruir de uma certificação com um custo irrisório, quando comparado com opções privadas, ou mesmo gratuita, como no caso dos alunos com ASE pertencentes ao escalão A”, salienta.

Teste mais difícil no próximo ano
O ministro da Educação, Nuno Crato, não ficou indiferente aos resultados do Key for Schools e à oscilação geográfica. “Pretendemos que as regiões do país sejam mais homogéneas e, para isso, temos de introduzir bem o Inglês no 1.º ciclo curricular e com professores formados para o efeito”, defendeu o governante que já anunciou que no próximo ano letivo o teste da Cambridge será de dificuldade mais elevada. “Estamos a dialogar com o Instituto de Avaliação Educativa e a nossa encomenda é que o teste do próximo ano seja do nível seguinte, porque precisamos de ter um teste mais adequado ao 9.º ano de escolaridade. E esse teste é possível e é o que vai ser feito”, disse.

O IAVE acredita que é possível ir mais longe. “Devemos ser exigentes e pensar que no final do secundário, daqui a três a quatro anos, possamos certificar ao nível do First Certificate todos os alunos”, refere Hélder Sousa. No ano letivo de 2015-2016, o ensino do Inglês passará a ser obrigatório para os alunos a partir do 3.º ano de escolaridade, com uma carga horária mínima de duas horas semanais, de forma a que todos os alunos tenham sete anos da língua inglesa quando terminarem o ensino básico. Nesse sentido, será necessário realizar um novo recrutamento de professores de Inglês no Ensino básico, o que implica abrir um concurso extraordinário de docentes.

Resultados conhecidos e digeridos, o IAVE considera que estão criadas as condições para a aplicação do teste PET - Preliminary English Test for Schools, que abrange os níveis de certificação de A2 a B2. “Outras recomendações que são sustentadas pela análise dos resultados prendem-se com a definição e aplicação de medidas de apoio pedagógico específicas para os alunos cujos resultados se situaram, no teste Key for Schools, nos níveis Pré-A1 e A1”, diz Hélder Sousa. “Em termos futuros, talvez daqui a três ou quatro anos, deve equacionar-se uma evolução da certificação da proficiência linguística de modo a acomodar a aplicação de um teste FCE for Schools (First Certificate of English) para os alunos do sistema de ensino português, no final da escolaridade obrigatória”, acrescenta. 

O teste realizado no final de abril foi desenhado para um nível A2, o que equivale aos conhecimentos definidos para os alunos no final do 7.º ano. Mas apenas 31,6% dos estudantes chegaram a este nível. O ministro da Educação, Nuno Crato, interpretou os resultados. “Temos níveis preocupantes do domínio da língua inglesa no conjunto muito grande de alunos e isso significa que o modelo que tínhamos até 2011 tem agora de ser mudado”, admitiu. Na interpretação do ministro, há dois blocos de alunos: um que “teve a sorte” de ter tido Inglês ao longo de cinco anos de escolaridade e, portanto, teve bons resultados; e outro que revelou dificuldades “porque no 1.º Ciclo teve uma exposição parcelar ao Inglês, porque no 2.º ciclo tinha um carácter muito variável e porque no 3.º Ciclo uns terão tido Inglês e outros não”.
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