Projeto Âncora quer refazer a escola brasileira

Escola pode ser apoio comunitário. Os alunos podem aprender a resolver os problemas da sua localidade. Depois, partilhar essas aprendizagens com o mundo, usando as novas tecnologias.
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Na cidade brasileira de Cotia, em São Paulo, há uma Comunidade de Aprendizagem a mostrar que fora da escola também se aprende. A experiência do Projeto Âncora foi inspirada no modelo português da Escola da Ponte, localizada na Vila das Aves. Acolhe 300 alunos e 10 professores. Pretende ser a primeira de uma rede de comunidades de aprendizagem espalhadas pelo país. Não há sala de aula, nem turmas. Não há manuais para cada aluno, nem uniformes. Aprender passa por investigar. Ensinar é facilitar o acesso ao saber. Os alunos propõem projetos de pesquisa sobre áreas de conhecimento que lhes dizem alguma coisa. Os professores ajudam nessa tarefa. Assim, por meio de uma série de incursões pelos problemas da própria comunidade, a aprendizagem ganha significado.

Para os alunos isso é tudo. Sobretudo, porque a passagem pela sala de aula não os convenceu da importância do estudo.“São jovens muito prejudicados pelas escolas por onde passaram. Muitos contavam mais de meia dúzia de anos de frequência de escola, mas não sabiam ler nem escrever.” José Pacheco, professor e um dos idealizadores da Escola da Ponte em Portugal, é um dos educadores que participam atualmente neste projeto. É também ele quem mostra o seu verdadeiro impacto social.

Por correio eletrónico, José Pacheco envia uma fotografia desoladora, daquelas que surgem nas notícias sobre guerras entre gangues. Das que não aparecem nos cenários da novela. A contextualizar a imagem, uma legenda: “Os barracos onde sobrevivem e subvivem os nossos alunos…” Depois das reticências, uma explicação: “É também por isto que aqui estamos. É o sonho de uma vida digna aquilo que as comunidades de aprendizagem vão realizar.”

Desde a sua criação em 1995, enquanto instituição sem fins lucrativos, o Projeto Âncora abraçou como missão promover a cidadania em crianças e jovens marginalizados. Em 2006, Walter Steurer, o seu fundador, pedia a José Pacheco ajuda para construir uma escola diferente. “Ele lamentava que a prática de contraturno (atividades de complemento curricular) fosse quase como enxugar gelo.”

“As tentativas de salvar jovens em situação de risco social eram frustrantes, porque, se passavam três ou quatro horas no Âncora, passavam a maior parte do tempo na rua da favela e em escolas que pouco, ou mesmo nada, se preocupavam com o desenvolvimento sociomoral dos seus alunos”, recorda.

Uma escola diferente
O modelo educacional seguido quer indicar caminhos para ensinar e aprender no século XXI. Segundo José Pacheco, dos mais de cem projetos que tem acompanhado ao longo de doze anos no Brasil, este “é o único que aponta uma transformação radical, um dos modos possíveis de refazer a construção social escola. Adota contributos de teóricos sul-americanos, o que é raro neste país, que tem importado modas pedagógicas do Norte.”

A Comunidade de Aprendizagem recebe o apoio de voluntários que oferecem os seus préstimos de forma gratuita e ajuda vinda de algumas empresas locais. Uma mobilização social pela causa da educação. Confirmando uma certeza que José Pacheco não se cansa de propagar: “As escolas são as pessoas e não os lugares. Onde houver gente, há escola!”

Das instituições governamentais, José Pacheco espera igual entusiasmo e mais apoio, quer à comunidade de aprendizagem criada, quer à ambição de a replicar em outras cidades. “Encetamos um diálogo profícuo, com órgãos de poder sensíveis aos objetivos do projeto. E acreditamos que será possível, em breve prazo, celebrar acordos, que permitam estabilidade e contribuam para novas políticas públicas.”

São inegáveis as semelhanças com o modelo educacional posto em prática há 40 anos na Escola da Ponte, em Portugal. “Mas toda a base legal e teórica é de origem brasileira”, esclarece José Pacheco.

Os dois projetos encontram denominador comum na “não existência de dispositivos e segmentações cartesianas características da escola do século XIX”. Ou seja, na Comunidade de Aprendizagem de Cotia, os alunos não têm aulas nem estão agrupados por turmas, tal como na Ponte. Mas, ao contrário da Ponte, que era uma escola, “o Projeto Âncora será uma espécie de uma rede de comunidades de aprendizagem”, sublinha o professor.

Numa outra rede está alojado outro projeto cujo fim último será contribuir para a formação de professores neste novo modelo educacional. Através de uma plataforma digital de aprendizagem e comunicação, serão disponibilizados a todos os educadores materiais educativos construídos na comunidade de aprendizagem - peças teatrais, filmes, depoimentos.

Os educadores vão poder trabalhar com estes recursos e neles apoiar a construção dos seus próprios conhecimentos. E, desta forma, experimentar o que a equipa do projeto espera vir a ser uma “transformação vivencial”.
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