Stress, a quanto obrigas!
Em época de exames, são muitos os alunos que recorrem a substâncias químicas que ajudem à memória. Mas surtirão estas um verdadeiro efeito?
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Amanhã tem início a segunda fase de exames nacionais do 12.º ano. Mesmo para os alunos mais bem preparados é quase impossível passar por este tipo de avaliações, decisivas para quem sonha com o Ensino Superior, sem qualquer manifestação de ansiedade. Para "driblar" os nervos e a preocupação são muitos os que recorrem a ajuda especializada, seja junto do médico de família, nas consultas para adolescentes oferecidas pelos hospitais centrais ou num gabinete de psicologia.
Semanas ou até meses antes, há também quem se desloque à farmácia em busca de medicamentos para melhorar a concentração e a memória. Substâncias como vitaminas, aminoácidos e fósforo são as mais requisitadas. A corrida às farmácias começa logo em janeiro, embora a toma dos medicamentos se concentre mais nas semanas que antecedem o período de avaliações.
Segundo Maria da Luz Sequeira, vice-presidente da Associação Nacional de Farmácias (ANF), a maioria dos jovens chegam sem prescrição médica, uma vez que grande parte deste tipo de produtos são de venda livre. E nem sempre a iniciativa de tomar estes fármacos pertence aos alunos. "Muitas vezes são os próprios pais que pedem qualquer coisa que ajude ao cansaço físico e cerebral, que possa ajudar um pouco na concentração e na memória, porque observam que os filhos andam nervosos e cansados", explicou a farmacêutica ao EDUCARE.PT.
O facto de o calendário de exames coincidir com a estação mais quente do ano também não ajuda os examinados, refere a especialista. "O verão já é uma altura em que a maioria da população acusa alguma astenia (fadiga), sendo que os alunos se ressentem ainda mais pelo esforço acrescido de um ano inteiro a estudar."
Mas terão estas substâncias procuradas pelos estudantes um efeito químico comprovado ou meramente placebo (apenas psicológico)?
Para Américo Batista, diretor do Departamento de Psicologia da Universidade Lusófona, "não há neste momento qualquer medicamento que melhore a memória ou o raciocínio mental". "Aquilo que na comunidade científica se chamam de 'Viagras para o cérebro' têm um efeito meramente placebo e não podem ajudar quem não tem nada na memória. Pelo contrário, vão prejudicá-la porque mantêm os estudantes acordados mais tempo para estudar. Estes sentem-se bem mas recordam pior", sustentou ao EDUCARE.PT.
A vice-presidente da ANF contrapõe: "É claro que os medicamentos que ajudam à memória têm um efeito químico. São medidos com princípios ativos comprovados cientificamente, funcionam como estimulantes em termos do apetite e do cérebro e combatem o cansaço".
O psiquiatra Álvaro Carvalho também duvida da eficácia que qualquer fármaco possa ter ao nível da memória. "Nenhum medicamento, nem vitaminas ou sais minerais, surte qualquer efeito ao nível da memória. Servem apenas para enriquecer os laboratórios farmacêuticos. As anfetaminas, por exemplo, provocam o aumento das capacidades mentais do aluno mas têm um efeito transitório e dão uma ressaca enorme e um esvaziamento súbito do cérebro: os jovens ficam 'a leste', esquecem-se de tudo, não se recordam de nada".
"A memória melhora mas é com hábitos de estudo, com a experiência e com a repetição", acrescenta Américo Batista.
A pensar na ansiedade sentida pelos alunos em altura de exames, o Centro de Aconselhamento para Estudantes (CAE) da Universidade Lusófona desenvolveu um programa faseado para ensinar os alunos a diminuir esta sensação. Apesar de inserido numa instituição de Ensino Superior, o leque de destinatários do CAE é mais alargado, extravasando a outras escolas e graus de ensino. Segundo Marina Carvalho, coordenadora do CAE, a ansiedade e, dentro desta, a ansiedade provocada pelos exames, é mesmo a principal causa de recurso ao CAE. Muitos estudantes necessitam também de ser guiados, no sentido de encontrarem um bom método de estudo. Os alunos aparecem na consulta ou por iniciativa própria ou levados pelos pais e aconselhados por pessoas conhecidas.
Mas o acompanhamento psicológico, por si só, não faz milagres se não existirem determinadas premissas. "O acompanhamento psicológico só pode ajudar quem sabe. Sem bons hábitos de estudo, nenhum psicólogo pode valer. Agora, este pode ensinar o aluno a adquirir bons hábitos de estudo", revela Américo Batista. Outro dos objetivos do CAE é ajudar o aluno a concentrar-se, de modo que, no momento do exame, este não pense em mais nada a não ser no essencial, abstraindo-se de tudo o resto. "Eliminar a preocupação é o fundamental. Muitas pessoas queixam-se do nervosismo mas ter o coração a bater mais depressa ou as mãos a transpirar não é o problema, algum nível de ansiedade até pode ajudar à performance.O problema é a concentração no essencial."
E desengane-se quem pense que os bons alunos, a priorimais responsáveis e bem preparados, estão isentos de picos de stress. É que a ansiedade tem o condão de abalar certezas e de fazer instalar a dúvida até mesmo na cabeça daqueles que passaram o ano inteiro a estudar. Segundo Américo Batista, a ansiedade face aos exames afeta "os que têm consciência de que não se prepararam" mas também aqueles que "estão tão ansiosos face ao seu desempenho que isso pode inibir a sua capacidade de concentração".
"Os estudantes que no momento em que estão a ser avaliados estão preocupados em não falhar, que estão a pensar que vão chumbar, que a nota não vai ser a desejada, fazem com que a memória de curto-prazo não consiga aceder à memória de longo-prazo, onde estão guardados os conhecimentos que teriam de aplicar na prova", acrescenta o especialista.
Uma espécie de "bloqueio" momentâneo que impede os alunos que até têm algo dentro da memória de a utilizar. "A verdadeira ansiedade é daqueles que sabem mas não sem lembram", refere Américo Batista. A pressão dos pais, dos pares e até dos próprios pode ajudar a completar um quadro com efeitos desoladores.
Embora não existam receitas mágicas para se ter sucesso nos exames, há "pequenos" fatores que podem ajudar: uma boa e atempada preparação das matérias é seguramente um deles, tal como o descanso, não beber nem comer excessivamente, e a focalização do pensamento na altura em que se está a ser avaliado. Apesar de "exames" não ser sinónimo de estar recluso dentro da sua própria casa, e de uma ida ao cinema ou até à esplanada terem um efeito revitalizante, desaconselham-se nesta altura as saídas até altas horas da noite.
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