Aprender a ler e a escrever, passo a passo, letra a letra

Há ferramentas e estratégias, há vários caminhos e possibilidades. E há ritmos diferentes para quem entra numa sala de aulas pela primeira vez. É um processo de descoberta, o início de um novo mundo.
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A aprendizagem tem os seus métodos e ferramentas. É um processo complexo, denso, intenso. Aprender a ler e a escrever é a base de tudo o resto, há vários caminhos para lá chegar, e requisitos prévios que ajudam, não só cognitivos, mas também emocionais. As letras reproduzem os sons da fala, as crianças percebem como tudo funciona, são momentos fascinantes.

Acompanhar os manuais, improvisar, captar a atenção, juntar letras, juntar palavras, ler o que está no papel. Os professores usam as suas estratégias que vão ajustando consoante o grupo que têm à sua frente. Com liberdade e criatividade também para alcançar o que se pretende. A parte fonológica é sempre importante porque há letras que não têm sempre o mesmo som. Todos os detalhes interessam para aprender a ler e a escrever palavras, frases, textos. E não há um único caminho, há fusão de métodos.

Cada vez mais e cada vez mais cedo, as crianças têm contacto com os livros, com as letras, as palavras, os sons, muitas delas desde o pré-escolar. Além disso, há jogos focados nessas competências, há mais tecnologias disponíveis. Maior exposição significa normalmente maior assimilação. Aprendem mais cedo e com menos dificuldades.

Luís Filipe Redes, presidente da direção da Associação de Professores de Português (APP), recua no tempo para recordar que os métodos de ensino da leitura, durante muitos anos, “foram objeto de debates apaixonados, em que, na década de 70 do século passado, se alinhavam os métodos globais com a ideia de modernidade representada pela ideologia do construtivismo, do ensino por descoberta, da criança como sujeito da sua própria abordagem etc., enquanto os métodos sintéticos eram relacionados com o dirigismo pedagógico, a predominância das atividades de ensino sobre a aprendizagem autónoma da criança”.

Do global, do texto, da frase, da palavra, ou do elementar, do som, da letra, da sílaba, destas formas foram surgindo diversas alternativas. “A afirmação absoluta dum método carateriza-se em geral por restrições. Houve defensores acérrimos de métodos globais que recusavam que fosse dado o conhecimento das letras, antes de o aluno ser capaz de analisar frases em palavras, em sílabas e em letras, chegando a requerer que os pais não tentassem ensinar o abecedário”, refere Luís Filipe Redes. “Algo similar chegou a acontecer com os métodos sintéticos, com professores a exigirem que o aluno se restringisse a palavras que têm as letras que o professor já teria ensinado”, acrescenta.

Rimas, sílabas, fonemas
O processo de aprender a ler e a escrever não pode ser aborrecido, tem de ser cativante. Aspetos criativos e lúdicos devem ser utilizados. Mensagens escritas, ilustrações, jogos, desenhos. E brincadeiras também. O presidente da APP lembra o psicólogo José Morais que insiste que a leitura é uma atividade específica que tem necessariamente duas partes, a descodificação e a compreensão, e, nesse sentido, recupera o seu pensamento expresso em palavras. “Alguém já viu uma criança começar a correr sem primeiro ter dado o primeiro passo e depois outro e outro? Há quem queira que a criança se ponha logo a ler palavras e frases, isto é, que ela comece a correr antes de saber andar, mas isto é impossível: cai e esfola o nariz”.

“Os que falam em ensino da leitura pela descoberta e dão primazia à apreensão do sentido ignoram o interesse que as crianças têm pelos sons da fala que está presente na tradição da literatura oral infantil, em textos que, precisamente, acentuam o lado do som e levam a criança a descobrir rimas, sílabas, fonemas. Daí a quererem saber que letras correspondem a essas entidades que ela descobre nesses textos que são ludicamente decorados vai um passo. Portanto, a primazia do sentido não tem o monopólio da motivação para a aprendizagem da leitura”, sublinha Luís Filipe Redes.

Em 2013, nas metas do 1.º Ciclo do Ensino Básico foram incluídas indicações que insistiam na identificação de pseudopalavras que o aluno deveria ser capaz de descodificar. Hoje, refere o presidente da APP, “insiste-se, cada vez mais, na necessidade de assegurar que, no início da aprendizagem da leitura, a criança identifique fonemas, conheça as letras, faça a correspondência entre fonemas e grafemas (letras e grupos de letras que representam fonemas) e seja capaz de ler sílabas, palavras e pseudopalavras”.

Luís Filipe Redes refere o trabalho da professora Fernanda Leopoldina Viana. Os seus trabalhos, sustenta, “insistem tanto no desenvolvimento da fluência da leitura como condição da compreensão, como num trabalho pedagógico que leve o aluno a desenvolver a compreensão do texto nas várias facetas: o léxico, o literal, a dedução, a inferência e a apreensão do texto como um todo.” “As suas propostas combinam ensino explícito, com aprendizagem por descoberta e diversão”, adianta.

Rita Castanheira Alves, psicóloga clínica especializada na área infantil e juvenil, no artigo “Antes de ler e escrever, há muito para fazer” do EDUCARE.PT, salientou que, nos primeiros anos de vida, é essencial experimentar, desenvolver competências artísticas e a agilidade motora. Contactar com outras crianças, jovens, adultos, desenvolver a socialização, saber estar e partilhar, ouvir e conversar.

É tempo de brincar antes de aprender a ler e a escrever. Há tempo para isso, há muito para fazer antes disso. “Ou se calhar, com o foco e investimento nestas competências pessoais, sociais e emocionais, gradualmente e antes do 1.º Ciclo, a vontade da criança em saber o seu nome, em aprender a contar e a mostrar sinais de que está preparada para a aprendizagem escolar aparecerá espontaneamente”, dizia. E com mais interesse e vontade.

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