A relação entre a alimentação e as emoções dos mais novos

Investigadores analisaram o peso das refeições de crianças e adolescentes e a interferência nos comportamentos. A alimentação restritiva é mais comum nas crianças mais novas. A alimentação excessiva mais frequente nas mais velhas.
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O que entra no corpo e o estômago digere não passa despercebido a vários níveis. Os problemas alimentares e as questões emocionais e comportamentais em crianças e adolescentes estiveram no centro da análise de investigadores das universidades Católica e do Minho, com o propósito de ajudar pais e educadores e fazer um prognóstico do que pode ser considerado uma doença. Os problemas emocionais e comportamentais que estão na base da alimentação restritiva (“picky eating”) e da alimentação excessiva (“overeating”) nos mais novos, e a relação existente entre comportamentos alimentares e questões emocionais, foram os principais focos da investigação.

Há poucos estudos que combinam a avaliação da alimentação restritiva e da alimentação excessiva numa amostra não clínica e em idade escolar. Uma das principais conclusões da investigação portuguesa, segundo Bárbara César Machado, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica, envolvida na pesquisa, é que é necessário um outro olhar. Ou seja, explica em declarações à Lusa, exista um “olhar integrador sobre o funcionamento global das crianças e adolescentes quando o objetivo é compreender o terreno favorável para a emergência de problemas da ingestão e alimentação”.

Compreender os mecanismos coexistentes entre o comportamento alimentar e o funcionamento psicológico global de crianças e adolescentes, através de uma amostra não clínica, foi precisamente o ponto central do estudo publicado na revista “Journal of Child and Family Studies”. A pesquisa pretende contribuir para a compreensão dos problemas da alimentação e da ingestão de alimentos na vida das crianças e adolescentes portugueses.

Perceber os problemas da alimentação e da ingestão pela perceção dos pais e professores também foi importante neste estudo intitulado “Frequency and Correlates of Picky Eating And Overeating in School-aged Children: A Portuguese Population-based Study”, desenvolvido por docentes da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica no Porto e investigadores do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano.

Excesso de peso e nível socioeconómico
A investigação centrou-se na avaliação de um conjunto diversificado de problemas emocionais e comportamentais, incluindo a presença de “picky eating” e “overeating”, em crianças e adolescentes com idades compreendidas entre os seis e os 18 anos, numa amostra total de 2687 inquiridos. Esta avaliação contou com a colaboração de pais, professores e dos próprios jovens.

O estudo indica que a alimentação restritiva foi identificada em 23,1% dos participantes, sendo mais comum nas crianças mais novas. A alimentação excessiva foi identificada em 24% dos participantes, sendo mais frequente nas crianças mais velhas, com nível socioeconómico mais baixo e com excesso de peso. São dados importantes.

Os resultados revelam que tanto a alimentação restritiva como a alimentação excessiva estão associadas à presença de um conjunto diversificado de problemas emocionais e comportamentais nas crianças e adolescentes. Segundo Bárbara César Machado, “existem vantagens na compreensão destes comportamentos numa moldura que enquadre os diversos aspetos do funcionamento comportamental, emocional e social das crianças e adolescentes, quer do ponto de vista adaptativo, quer desadaptativo, para além de também serem consideradas as competências das crianças e adolescentes (sociais, escolares e relacionadas com as atividades que desenvolvem)”.

Os investigadores concluíram ainda a necessidade de haver um olhar integrador quanto ao funcionamento global das crianças e adolescentes quando o objetivo é compreender o terreno favorável para a emergência de problemas da ingestão e alimentação, ao longo das diferentes etapas de desenvolvimento das crianças e adolescentes. “Através do Sistema de Avaliação Empiricamente Validado (ASEBA), somos capazes de avaliar o ‘picky eating’ e o ‘overeating’, podendo ajudar a contribuir para o prognóstico, curso e evolução de comportamentos que podem ser transitórios ou, pelo contrário, ter uma duração mais prolongada”, sublinha a investigadora, em declarações à Lusa.

O principal contributo do artigo publicado foi reforçar que os resultados da investigação suportam a “possibilidade de um padrão mais vasto de problemas emocionais e comportamentais, potencialmente desadaptativos, poderem estar associados à presença de ‘picky eating’ e de ‘overeating’”.

O estudo é assinado por Bárbara César Machado, Pedro Dias, Vânia Sousa Lima e Alexandra Carneiro, em coautoria com Sónia Gonçalves, investigadora do GEPA, Unidade de Investigação em Psicoterapia e Psicopatologia do CIPsi – Escola de Psicologia, Universidade do Minho.

 

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