Desinformação: qual o valor da verdade?

Combater a desinformação passa por explicar, desde logo, às crianças “a importância do valor da verdade” diz a investigadora Sara Pereira do MILObs. Para ela, as empresas e os meios de comunicação devem participar do esforço social para educar as famílias a lidar com a informação falsa.
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Desinformar, há dicionários que não trazem o significado da palavra. A desinformação, todavia, é uma realidade cada vez mais presente nos meios de comunicação. Tornou-se mais visível nos dois últimos anos. Em que, a propósito da pandemia, circularam pelas redes sociais todo o tipo de informações sobre pretensas (e falsas) curas. As chamadas fake news (notícias falsas) vieram para ficar.

A Comissão Europeia (CE) anda desde 2018 a combater fake news no espaço digital, seguindo um plano de ação contra a desinformação que já em 2020 se via reforçado e ampliado pelo Plano de Ação para a Democracia Europeia. Em abril deste ano, Bruxelas deu outro passo no combate à desinformação. Desta vez com a publicação de uma série de materiais e recursos pedagógicos (disponíveis em Português no Espaço Aprendizagem) dirigidos a alunos do 3.º ciclo e Ensino Secundário.

Para a investigadora do Observatório sobre Média, Informação e Literacia (MILObs), criado em 2018 com a missão de promover a literacia mediática, Sara Pereira, “a desinformação deve começar a ser trabalhada a partir do momento em que as crianças começam a andar nas redes sociais”. Estes primeiros passos, diz, estão a acontecer pelos 11, 12 anos; idades em que “é preciso haver algum cuidado com o que é verdadeiro ou falso”, alerta.

Mesmo antes da entrada no mundo digital, acrescenta, é possível fazer entender às crianças outro aspeto associado à informação falsa: “A importância do valor da verdade”, refere Sara Pereira. “Sabemos sempre como se pode chegar à verdade, a importância de ser verdadeiro, de falar a verdade e de detetar a mentira.” Explicados estes conceitos, “as crianças começam já a desenvolver alguns mecanismos, nomeadamente a valorizar a informação verdadeira, para depois compreender qual é o problema da desinformação”.

Mas, então, qual é o problema da desinformação?  “É também as pessoas não perceberem porque é que a informação é problemática”, responde a investigadora. “Para além de a receberem e de a poderem partilhar e da opinião que formam a partir daí, com uma base enganadora, a questão é se as pessoas percebem realmente a importância do ser verdade e do ser falso.”  Assim se compreende por que a desinformação “é um problema para a sociedade e para as democracias”, pelo “que pode trazer de visões completamente deturpadas da realidade”.

A experiência com jovens, público-alvo de diversas ações de educação para os media desenvolvidas pelo MILOBs, tem mostrado que o caminho “para além de os ensinar a validar e verificar informação é fazê-los compreender que a desinformação é um problema para a sociedade porque a verdade é um valor coletivo”, defende Sara Pereira. Pela desinformação ser um fenómeno social, não há quem esteja 100% a salvo de ser mal informado. “Mesmo as pessoas que não estão nas redes sociais e podem não ser tanto objeto dessa desinformação - não a encontrar, não a publicar, não a partilhar - são também vítimas da desinformação porque na sociedade em que estão vão ser vítimas em outros âmbitos.”

Ler bem, compreender melhor

O combate à desinformação passa também pela promoção de competências de leitura crítica, lembra a investigadora Sara Pereira. “Saber ler criticamente e analisar o que é lido. Quando a pessoa lê e não reconhece os problemas do que está a ler ou não consegue compreender e interpretar o que está a ler, isto pode ser um problema.” Atender apenas ao lado técnico ou tecnológico do problema da desinformação, não o resolve, diz a investigadora. “Bloquear ou deixar de participar nas redes sociais pode resolver o problema ao nível individual, mas não resolve o problema ao nível social.”

Por entender que a desinformação é um problema social, Sara Pereira defende que não são apenas os pais, nem a escola, os agentes responsáveis por esta matéria. Mas vamos por partes. Em casa, os pais podem ajudar os filhos a entender melhor a realidade que lhes chega dos media através do diálogo.

“A questão da mediação - de explicar, dialogar, conversar - esse diálogo em permanência deve existir.” Nada de novo. Trata-se, como realça a investigadora, de ter o mesmo tipo de abordagem que os pais têm para compreender onde é que os filhos andaram ou que problemas tiveram, mas aplicada às questões da desinformação. “A abertura para saber se eles receberam alguma informação que seja duvidosa, isso é que leva à conversa e ao alerta e até para se sentarem em conjunto e ver que informação chegou.”

Mas para isto acontecer, ao nível da desinformação, “é preciso que as famílias saibam conversar sobre o tema”, o que, “nem todas saberão”. Daí que a escola seja o agente em que se deposita parte da responsabilidade de ajudar crianças e jovens a distinguir a informação verdadeira da falsa e a saber lidar com ela.

Lê-se nos materiais da Comissão Europeia, dirigidos aos professores, que para responder à desinformação, primeiro é necessário duvidar. Depois da dúvida sobre a informação que nos chega, é preciso dar outro passo, o da verificação os factos. Perceber quem os escreve, ou seja, qual a sua proveniência, a sua fonte. Ter uma visão crítica e, logo de seguida, analítica. Observar as imagens que acompanham o texto, com a mesma dúvida. Pensar antes de partilhar.

Em jogo, estão ainda competências emocionais. Por exemplo, evitar envergonhar a pessoa que nos diz algo que sabemos não ser verdade. Antes, mostrar empatia.  Não entrar em discussões do género: “Eu tenho razão e tu estás errado!”. E, outro ponto essencial, não esperar por uma mudança imediata. É preciso paciência para travar alguém que partilha desinformação. Mas podemos ser ativos e reportar a falsa informação à plataforma que a publica. Traços gerais são estas as recomendações que se retiram dos materiais que a Comissão Europeia coloca à disposição dos professores.   

Responsabilidade social

“A escola é o sítio onde todos os alunos podem ter essa igualdade de aprender”, por isso, todas as questões, incluindo a da desinformação, “são remetidas para a escola, porque em casa o cenário é muito diferente”, reflete Sara Pereira. Todavia, a responsabilidade de ajudar a sociedade a estar mais ciente dos problemas da desinformação, contrapõe a investigadora, deve ser repartida por outros agentes, como as empresas e os meios de comunicação.

“Andamos sempre a pensar na educação para os media sem envolver os media. Os meios de comunicação e as empresas, em geral, poderiam contribuir para a tal formação/ informação sobre a desinformação que falta às famílias.”

A título de exemplo, a investigadora aponta uma ação de informação ao público em geral sobre proteção de dados desenvolvida pela famosa Apple. Um roteiro, em inglês, intitulado Um dia na vida dos seus dados que a investigadora, e também professora na Universidade do Minho, traduziu para usar em contexto de aula. Resume-se assim: um pai e uma menina pequena vão ao parque e o roteiro vai relatando todos os dados que várias empresas recolhem deles desde que saem até que regressam. O pai consulta o telemóvel tira uma selfie com a filha e dados são capturados, depois vão comer um gelado, ele paga com o cartão e mais dados são capturados.

Sobre este roteiro, e considerando também os interesses publicitários da empresa, Sara Pereira reconhece que acaba por fazer um serviço público.  Porquê? “É um documento escrito numa linguagem acessível e baseada no quotidiano que qualquer pai vai entender”, descreve a investigadora para chegar a uma outra conclusão. “Se a empresas criassem este tipo de narrativas - sobre a desinformação, as notícias falsas, os dados, a privacidade, o discurso de ódio - poderíamos ter famílias mais bem informadas a partir de situações do quotidiano delas. Isto é responsabilidade social das empresas que a têm mas nem sempre a cumprem.”
 

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