Reutilizar & reciclar: como criar hábitos nos mais pequenos

Mais de 20 anos depois do programa Eco-Escolas chegar a Portugal, há uma crescente consciência ecológica entre os mais novos, que começam cedo a aprender a reciclar e a reutilizar. 
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“Às vezes quase me emociono quando vejo o meu filho preocupado em reutilizar materiais, usar palhinhas ‘que não sejam de plástico’, com uma consciência ambiental que a minha geração não tinha. Quando eu era da idade dele ainda andávamos a aprender a não atirar papéis para o chão”. Susana Gomes fala ao EDUCARE.PT da preocupação que vai sentindo crescer no filho Martim, de apenas 9 anos, por oposição à sua experiência e à memória de uma infância que aconteceu há 20 anos. E não tem dúvidas: “é a escola que tem aqui um papel fundamental”, considera, ela que é funcionária administrativa numa escola da região centro, uma das mais de 1500 que ostenta a bandeira verde do programa Eco-Escolas, desenvolvido em Portugal pela ABAE (Associação Bandeira Azul da Europa).

O programa internacional da FEE (Foundation for Environmental Education) chegou a Portugal em 1996 e tem vindo a fazer um percurso insistente junto de milhares de crianças e jovens. O objetivo continua a ser encorajar ações e reconhecer o trabalho de qualidade desenvolvido pela escola, no âmbito da Educação Ambiental para a Sustentabilidade. O programa é coordenado a nível internacional, nacional, regional e de escola. “Esta coordenação multinível permite a confluência para objetivos, metodologias e critérios comuns que respeitam a especificidade de cada escola relativamente aos seus alunos e caraterísticas do meio envolvente”, refere a descrição geral do projeto, que para além do apoio das pessoas e Instituições da Comissão Nacional, conta ainda com a parceria de vários municípios em todo o país. Muitos deles acabaram por alocar recursos específicos a esta área, por forma a apoiar alunos e professores. É assim na escola que Martim vai frequentar a partir do próximo ano letivo, e por isso está entusiasmado em fazer parte desse movimento.

E é de envolvimento que fala a professora de Ciências Naturais, Carla Antunes, que ao cabo de 25 anos no ensino da disciplina nota que “os miúdos têm cada vez uma maior preocupação com o meio ambiente, com as alterações climáticas. Acho que o fenómeno Greta Thunberg conseguiu mobilizá-los para essa luta ecológica, também, e as próprias redes sociais dão uma ajuda”, conta ao EDUCARE.PT.

Não é por isso de estranhar que cada vez mais escolas invistam numa horta, num pomar, envolvendo os alunos em todo o processo de plantação e colheita. Mas há um projeto da Associação Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável - que dá o passo seguinte em matéria de reutilização: a compostagem. Chama-se “Devolver à Terra” e envolve perto de uma centena de escolas em todo o país. Criado no ano letivo de 2019/2020, o projeto acabou por andar em velocidade mais lenta do que o esperado, à conta da pandemia. “Tínhamos programado ir a todas as escolas, dar formação e fazer a sensibilização de toda a comunidade escolar, mas infelizmente as escolas fecharam em março e só neste último ano letivo foi possível pôr em prática o projeto na maioria das escolas”, revela Sara Correia, responsável por este projeto da Zero em parceria com a SILVEX – Indústria de Plásticos e Papéis, S.A. Em conjunto, têm a ambição de colocar 100 escolas de Portugal Continental a fazer a compostagem dos seus resíduos orgânicos. Para já, conseguiram 96. 

A importância de “devolver à terra”

O projeto tem como objetivo incentivar boas-práticas ecológicas entre os mais novos, nomeadamente na aprendizagem da valorização de resíduos orgânicos e na sua transformação em composto de grande qualidade. “Após compreenderem o processo da compostagem, os alunos poderão verificar como resíduos, sem valor aparente, podem ser muito úteis para fertilizar os jardins e hortas escolares, desviando assim toneladas de resíduos dos nossos aterros e poupando toneladas de emissões de CO2”.

Com o aumento da quantidade média de resíduos que são produzidos por cada português nas últimas décadas, em resultado do crescimento económico e do consequente aumento do consumo, “é de extrema importância a redução da quantidade de resíduos gerados e encaminhados para aterro ou para incineração”, considera a Zero, para quem “a compostagem doméstica é um método simples de reciclagem de resíduos orgânicos resultantes da confeção de refeições e da limpeza de espaços verdes, que pode facilmente ser posto em prática quer em escolas, quer pelas famílias. Desta forma estarão a produzir composto, um material rico em nutrientes, que permite devolver ao solo a matéria orgânica reciclada e a fomentar, junto dos mais jovens, práticas mais ecológicas e hábitos mais saudáveis”.

E foi com base nestes pressupostos que nasceu o projeto “Devolver à Terra”, onde tudo foi feito de raiz: “quando eles [os alunos] pensavam que lá íamos entregar um compostor, o que chegou foi a madeira (de pinho), em bruto, para que eles próprios o fizessem, em conjunto com os professores”. “Porque o sucesso deste projeto depende muito dos professores”, sublinha Sara Correia, que espera agora conseguir implementar no terreno a parte presencial, numa altura em que entra no seu terceiro ano letivo. 

Para trás ficam centenas de conversas em Zoom, sempre à distância, mas permance a ideia de pé. E viva.

Mais informações sobre este tema:

https://ecoescolas.abae.pt

https://devolveraterra.zero.ong/primeiros-compostores-ja-estao-montados

 

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