Método Montessori. A criança no centro da aprendizagem 

Um método que nasceu em Itália, no início do século XX, espalhou-se pelo mundo e continua vivo. A criança é protagonista do seu caminho. Decide o que tem vontade de fazer, o tempo que quer dedicar a temas que lhe interessam, as vezes que quer repetir uma atividade, uma experiência. O adulto é um guia atento e observador, que interfere o mínimo possível. 
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Itália, século XIX, Maria Montessori desbravava caminhos nunca antes explorados e fazia-o com profundidade e intensidade. Foi uma das primeiras mulheres a estudar Medicina no seu país, dedicou-se a dar condições dignas de vida e de aprendizagem a crianças com deficiência, que estavam internadas em instituições psiquiátricas. Um projeto a três com mais dois colegas. Inovador e com resultados visíveis, palpáveis. Maria Montessori voltaria a estudar, queria perceber melhor a antropologia pedagógica, a psicologia experimental, a educação, seus detalhes e filosofias.  

Depois disso, Maria Montessori abriu uma escola na periferia de Roma para testar novos métodos de ensino. Nascia assim a Casa das Crianças num ambiente livre e adaptado às necessidades de desenvolvimento e curiosidade dos mais pequenos. Em 1907, pelas suas mãos e pensamentos, ideias e ideais, nascia o Método Montessori que não tardou a saltar fronteiras, a espalhar-se pelo mundo, e a ganhar adeptos. Portugal não foi exceção. 

Maria Montessori viajou por vários países para falar sobre uma nova ciência de educação e para colaborar com professores espalhados por diversos pontos do planeta. Partilhou descobertas e observações que fazia em ambientes diversos, seus pensamentos e práticas. O desenvolvimento visto de forma integral e profunda. A criança no centro do seu crescimento e desenvolvimento. A criança como um ser ativo que se constrói a si e à humanidade. 

Rosana Fernandes é mãe, psicóloga, diretora da Escola Montessori do Porto que surgiu em 2019 e que, neste momento, tem cerca de 60 bebés e crianças dos 18 meses aos seis anos de idade. O projeto nasce de uma necessidade pessoal, da procura por propostas de um ensino alternativo, da vontade de uma abordagem que abrangesse várias dimensões. Tudo fez sentido numa formação de Montessori. “O que me encantou? Acima de tudo, colocar a criança no centro da aprendizagem, retirar o foco do professor e do educador e colocá-lo na criança”, conta ao EDUCARE.PT. 

As crianças querem conhecer, aprender, explorar. O ambiente é preparado para que tudo aconteça com naturalidade. O adulto, sempre atento, só intervém quando é estritamente necessário e de forma a fomentar a autonomia e a independência de quem absorve o mundo. Neste método, o adulto anula-se, adota uma postura mais passiva, entra em cena quando a criança precisa. “O adulto é o maestro, mas que sai do centro da aprendizagem”. E isso faz toda a diferença. É como, adianta Rosana Fernandes, “replicar a sociedade, a comunidade, a vida, num microambiente na sala de aula.” Nesse sentido, as crianças aprendem, percebem como enfrentar dificuldades, gerir frustrações, saber esperar, ter paciência. Escolhem, organizam, planeiam, decidem.  

Ambiente preparado, aprender com entusiasmo
Joana Rebelo é mãe, psicóloga, guia Montessori na Escola do Porto, tem os dois primeiros anos do curso de Educação Básica, e tem horas e horas de treino e de observação para dar às crianças o que elas precisam e solicitam. Há uma frase de Maria Montessori que faz questão de lembrar: “Eu não ensino nada, as crianças é que aprendem”. Com estímulos, com materiais na sala e nos espaços no exterior, através de atividades que encaixam nos seus interesses, nas suas preferências. 

Há três pilares fundamentais neste método: ambiente preparado, adulto preparado, a forma como se olha para a criança. “É a criança que está no centro de tudo, é a protagonista”, sublinha Joana Rebelo. Uma criança que gosta de dinossauros pesquisa sobre o assunto e, de repente, fala-se sobre esses animais na sala, diz-se o som da primeira letra do nome das suas espécies em voz alta, essa sonoridade fonética, contam-se os números desses bichos. “Aprendem e descobrem com outro entusiasmo, aprendem com emoção”, sustenta Joana Rebelo. 

As crianças querem aprender, explorar o mundo com todos os sentidos em alerta. “As crianças decidem o que querem fazer, o tempo que querem fazer, as vezes que querem repetir. O adulto interfere o mínimo possível e as crianças acabam por explorar o material além do objetivo”. Tudo é aprendizagem, tudo importa, tudo interessa.     

A Escola Montessori do Porto apresenta-se com várias frases. “Educamos para a vida” é uma delas. É uma escola que “oferece à criança um ambiente especial, onde ela possa explorar os seus interesses, crescer com curiosidade, mente crítica e vontade de aprender”. Uma escola com atividades de estimulação cognitiva, motora, sensorial e social para crianças em idade pré-escolar e escolar e um centro de formação. Para que, acima de tudo, as crianças sejam felizes nesse caminho que se constrói todos os dias. 

As crianças partem à descoberta do que as rodeia de acordo com os seus interesses. Disponibilizam-se materiais, compõe-se a sala consoante essas vontades. Há liberdade para escolher, liberdade para fazer. “É uma liberdade com limites, sabem quais são as regras”, adianta Rosana Fernandes. Acompanhamento de perto, ensino mais individualizado consoante as necessidades de cada um. “Nesta escola, as crianças têm toda a autonomia”. Dessa forma, educa-se para a vida, as capacidades, as funções executivas, a flexibilidade do próprio pensamento, o espírito crítico, a adaptação ao que é novo e diferente. Ainda não há um grande número de projetos Montessori, há um grande interesse das famílias, mas ainda não há muita formação em Portugal. 

Respeitar, perceber, observar, ouvir  
Márcia Carvalho é mãe de dois filhos, o primeiro tem três anos e meio e está na Escola Montessori do Porto. O segundo tem sete meses e, quando tiver idade, seguirá o exemplo do irmão. “Sempre achei que, a nível de educação, não me identificava muito com o método tradicional”, confessa. Com fórmulas formatadas, operações demasiado formuladas, a formação sempre igual, narrativas que não mudam. “Ninguém dá voz às crianças para nada, a realidade é essa”, comenta.

“É uma questão de os tratar com respeito e de os ouvir”. Sem pressões, sem datas para isto e para aquilo, sem um papel escrito por um adulto que define o que tem de ser feito, a forma de o fazer, o tempo destinado tarefa a tarefa. Márcia Carvalho ainda frequentou o 3.º ano de Educação Básica, não terminou o curso, trabalha na banca, e não se arrepende, nem por um segundo, de ter optado pelo Método Montessori para o seu filho. Foi à procura de um caminho diferente e encontrou-o num ensino em que a criança é o centro de tudo e define o seu ritmo. “É respeitá-los, é percebê-los”. “Só aprendemos aquilo que fazemos”, acrescenta.  

O seu filho tirou a fralda da noite para o dia. “Aos 13 meses, comia sozinho porque lhe dei oportunidade para isso”. Aos três anos e meio, prepara os cereais do pequeno-almoço sem ajuda, vai ao frigorífico, e trata de tudo. Veste-se sem ajuda, vai às gavetas buscar a sua roupa. Percebe o cansaço e as fraquezas dos adultos, os dias de trabalho intenso de quem cuida. Há beijos e abraços, desculpas quando são necessárias. Tudo flui no dia a dia. Márcia Carvalho reforça que tomou a decisão certa. “Completamente rendida. Cada vez mais rendida”. 

A influência de Maria Montessori na história da educação é evidente. As suas ideias disseminaram-se e estruturaram conceitos alicerçados na observação constante das crianças e suas aprendizagens. Das suas vontades e curiosidades. É uma educação assente no trabalho sensorial. Mesas e cadeiras baixas. Materiais para mexer, tocar, brincar. Tudo é importante. O que acontece na primeira infância. As descobertas que valorizam e validam práticas pedagógicas. Crescer e aprender sem descurar aspetos cognitivos, sociais, emocionais. Aprender e caminhar pelo próprio pé. 

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