Professores europeus stressados com trabalho administrativo

47% dos professores europeus dizem sofrer “muito” ou “bastante” de stress. As tarefas administrativas fazem aumentar os níveis de stress, a autonomia no trabalho fá-los diminuir. A análise é da rede europeia Eurydice.
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“Os professores estão na linha da frente da educação”, reconhece a comissária europeia da Educação, Juventude, Cultura, Inovação e Pesquisa, Mariya Gabriel. “Ter professores motivados é um dos pré-requisitos essenciais para um sistema educativo de sucesso, no qual os alunos de diferentes contextos podem alcançar todo o seu potencial”, escreve no prefácio do último relatório europeu que faz um retrato de como os professores se sentem nas escolas.

O Teachers in Europe: Careers, Developmente and Well-being, coleta dados qualitativos da rede Eurydice e quantitativos do Teaching and Learning International Survey (TALIS) de 2018. Para mostrar que, ao nível do bem-estar, 47% dos professores da União Europeia relatam “bastante" ou "muito" stress quando estão a trabalhar. Portugal surge no topo da tabela. 87% dos professores que dão aulas a alunos do 7.º, 8.º e 9.º ano afirmaram sentir-se “muito” ou “bastante” stressados quando estão a lecionar.

Dois países partilham níveis de stress próximos dos professores portugueses: Hungria e Inglaterra, onde 70% dos professores sofrem do mesmo mal. “O mais preocupante é que nestes três países a percentagem de professores que se diz bastante stressado é o dobro da média europeia”, alertam os autores do relatório que abrange os 27 estados-membros e outros países europeus.  

Em média, apenas 16% dos docentes europeus se sentem “bastante stressados”, enquanto em Portugal são 35%. Por outro lado, no nível “muito stressados”, a média europeia é de 31% face a 53% em Portugal.

Na lista dos países cujos professores se sentem “muito” ou “bastante” stressados com o seu trabalho, bem acima da média europeia, constam ainda: Bélgica – comunidade flamenga (69%), Malta (64%), Letónia (64%), Bélgica – comunidade francesa (61%), Bulgária (57%), Estónia (56%), Islândia (55%), Dinamarca (54%), França (52%) e Chipre (49%).

Do lado oposto, Roménia (22%), Turquia (23%) Croácia (31%) figuram entre os países com menor percentagem de professores que se sentem “bastante” ou “muito” stressados a trabalhar. Também abaixo da média europeia (47%) - que junta ambos os níveis de stress - estão os professores da Eslovénia (46%), Suécia (45%), Eslováquia (44%), Finlândia (43%), Noruega (43%), Áustria (42%), Itália (35%), Holanda (34%), Lituânia (33%), Espanha (33%) e República Checa (32%).

Trabalho administrativo

No inquérito do TALIS 2018, foi pedido aos professores do 3.º ciclo que indicassem em que medida uma lista de situações poderiam ser consideradas fonte de “bastante” e “muito” stress. Entre os países da União Europeia, 53% dos professores apontaram o “trabalho administrativo” como a principal causa de stress.

Na Estónia e na Finlândia, apenas um em cada três professores considera ser esta a fonte do seu stress, mais de dois terços respondem o mesmo na comunidade flamenga da Bélgica e em Portugal. “Não é surpreendente que nos países onde os professores relataram gastar mais tempo em tarefas administrativas tenham também indicado, em média, níveis mais elevados de stress devido a
tarefas administrativas”, conclui a Eurydice.

De acordo com o relatório, “três das quatro principais fontes de stress não estão diretamente ligadas às tarefas centrais do ensino”. Além do trabalho administrativo, são elas o ser responsabilizado pelos desempenhos dos alunos e manter-se atualizado sobre as mudanças exigidas pelas autoridades. Fatores de stress para, respetivamente, 47% e 46% dos professores europeus inquiridos.

Manter-se a par das mudanças requeridas pelas autoridades é a quarta fonte de stress mais reportada. Na Holanda, menos de 20% dos professores estão preocupados com isso, enquanto na França, Malta, Lituânia e Portugal, mais de 60% dos professores experimentam stress devido a mudanças exigidas pelas autoridades.

Muitas notas, muitas aulas

Ter de atribuir demasiadas notas é a segunda maior causa de stress nos professores europeus, afeta 49% dos inquiridos. De acordo com os dados, os países em que os professores gastam mais tempo a fazer correções são aqueles que, em média, indicaram níveis mais elevados de stress devido ao excesso de correções.

Ser responsável pelo desempenho dos alunos é a terceira fonte de stress mais sinalizada. Na Finlândia e Noruega, no entanto, apenas um em cada cinco professores indica que esta é uma fonte de “muito” ou “bastante” stress.

O estudo realizado antes da pandemia revela que o stress aumenta entre os professores que reportam maior carga horária. Sofrem mais de stress os professores com mais experiência e os que têm contratos permanentes. O stress aumenta ainda quando há indisciplina na sala de aula e quando os professores se sentem menos confiantes na forma como lidam com o comportamento ou a motivação dos alunos.

São ainda fatores de “muito” ou “bastante” stress ter demasiadas aulas para preparar (37% dos professores), atender às preocupações de pais e encarregados de educação (37%), modificar as aulas tendo em conta as necessidades educativas especiais dos alunos (36%), ter demasiadas aulas para lecionar (30%), ter tarefas extras devido à ausência de colegas (23%) e ser intimidado ou verbalmente agredido pelos alunos (14%).

Por outro lado, os professores relatam níveis mais baixos de stress quando consideram que o ambiente escolar é colaborativo e quando acreditam ter autonomia no seu trabalho. Segundo a análise da Eurydice, a confiança do professor na sua competência como profissional desempenha um papel no stress que experimenta.

“Um professor autoconfiante pode ter níveis mais baixos de stress, enquanto um professor que não está tão confiante pode experimentar as diferentes facetas do seu trabalho de uma forma mais stressante”, lê-se no relatório.

Profissional vs pessoal

A par da experiência de stress no trabalho, o questionário TALIS 2018 mostra o impacto que a profissão docente tem na saúde mental e física dos professores. Alude ainda ao equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Na Europa, 24% e 22% dos professores admitem que o trabalho tem um impacto negativo na sua saúde mental e física, respetivamente. Mais de metade dos professores diz o mesmo na Bélgica (comunidade francesa) e em Portugal. A saúde mental também é uma preocupação para um em cada três professores na Bélgica (comunidade flamenga), Bulgária, Dinamarca, França, Letónia e Inglaterra.

O equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, refere a Eurydice, “também é um fator importante para medir o bem-estar, e pode ter um impacto na atratividade da profissão docente”.  Os dados do TALIS 2018 indicam que quase 55% dos professores na União Europeia (UE) afirmam que o emprego lhes deixa
“bastante” ou “muito” tempo para sua vida pessoal. “O que ainda significa que uma grande percentagem de professores não vê o equilíbrio entre profissão docente e vida pessoal de forma tão positiva”, contrapõe a Eurydice.

Além dos 27 estados-membros da União Europeia, o relatório da Eurydice inclui a análise às respostas de professores do Reino Unido, Albânia, Suíça, Bósnia Herzegovina, Islândia, Turquia, Liechtenstein, Montenegro, Noruega, Macedónia e Sérvia. O estudo, apesar de divulgado em março de 2021, resulta de dados recolhidos antes da pandemia e do encerramento das escolas por toda a Europa.
 

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