Como foi ensinar remotamente e de emergência?

Estudo do CNE mostra como foi ensinar e aprender nos primeiros meses de aulas à distância. Mais de quatro mil docentes e diretores de escola responderam às questões colocadas pelos investigadores em julho de 2020. 
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A falta de computadores e de ligação à Internet de qualidade, mas também a falta de formação dos professores, dos alunos e das famílias para o uso dos recursos digitais afetaram o ensino remoto de emergência, aponta o estudo “Educação em Tempos de Pandemia: problemas, respostas e desafios das escolas”, realizado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Nele, se faz o retrato da situação vivida após o primeiro encerramento de escolas. As conclusões têm por base um inquérito nacional a diretores e a professores com funções de coordenação aplicado em julho de 2020.

Em 92% das escolas não havia nem dispositivos, nem rede com capacidade suficiente para suportar aulas online. Em 80% das escolas, a falta de dispositivos por parte dos alunos afetou o ensino. O problema não afetou o país de forma igual. “Foram evidentes assimetrias”, refere o CNE. Alentejo Litoral, Tâmega e Sousa, Alto Tâmega e Beira Baixa, foram as regiões com percentagens mais elevadas de escolas “muito afetadas”. 

As escolas “muito afetadas” pela falta de recursos digitais dos alunos e das famílias foram as que tinham mais alunos desfavorecidos e em que mais de 30% dos alunos não tinha equipamentos digitais. Mas também as escolas com mais de 10% de alunos com necessidades educativas especiais e 10% ou mais com Português Língua Não Materna.   

Falta de competências digitais

Outro problema, foi a falta de formação de professores, alunos e pais para usar os recursos digitais. De acordo com o CNE, “a perceção relativa à adequação das competências digitais dos professores para o ensino a distância dividiu opiniões”. 41% dos diretores e 47% dos professores admitiram que o ensino online foi “afetado ou muito afetado” pela inadequação das competências digitais dos docentes. 

Do lado das famílias a situação é idêntica. 79% dos diretores e 80% dos professores inquiridos pelo CNE, apontaram a mesma falta de formação ao nível dos alunos e dos seus pais como causa de dificuldades na implementação do ensino a distância. 

Entre os professores inquiridos, 36% têm formação “elementar” em ferramentas digitais. Ou seja: estão aptos a produzir documentos escritos, fazer cálculos simples ou apresentações. A maioria dos professores utiliza com mais frequência ferramentas e recursos “generalistas”, como as pesquisas na Internet (97%) e as apresentações em PowerPoint (78%). Apenas 25% dizem “avaliar os alunos através de aplicações online”, como o Quizizz.

A generalidade dos professores usou uma ampla gama de recursos digitais e não digitais. Alguns semelhantes aos usados no ensino presencial, como fichas de trabalho (79%), vídeos (76%), páginas da Internet (72%), apontamentos elaborados por si mesmo (71%) ou de apresentações em PowerPoint (70%) ou dos manuais (68%).

76% dos professores recomendou aos seus alunos que assistissem às emissões do #EstudoEmCasa, sendo que a maior parte dos docentes (76%) considerou esta programação relevante para minimizar as desigualdades de acesso ao ensino e à aprendizagem. 

Para "criar condições para o bom desempenho profissional", 86% das escolas fizeram ações de formação interna sobre utilização e criação de recursos digitais. 81% dos diretores disseram ter realizado formação para o pessoal docente da escola; 48% visando também o apoio a pais e alunos para usar as plataformas de comunicação.

De novo, o CNE conclui que as escolas com mais dificuldades em lidar com os baixos níveis de competências digitais de alunos, famílias e professores são as mesmas 30% em que os alunos não dispunham de computador. São ainda escolas situadas em territórios de baixa ou muito elevada densidade populacional.   

Parcerias de emergência

A transição para o ensino online despoletou uma série de medidas de gestão comuns aos vários níveis de educação, refere o CNE, destacando o levantamento das necessidades de equipamentos, o fornecimento de refeições e a resposta às necessidades dos alunos mais carenciados. O CNE recorda ainda que os diretores das escolas reforçaram a atividade dos serviços de psicologia e orientação, para responder a eventuais consequências na saúde física e mental dos alunos, bem como a sinais de violência doméstica, negligência e bullying
  
“O estabelecimento de parcerias com a comunidade, foi umas das estratégias adotadas para procurar garantir as aprendizagens a todos os alunos”, sublinha o CNE. Parcerias que ajudaram, sobretudo, no fornecimento de equipamentos - tablets e computadores - e ligação à Internet, dizem 76% dos diretores inquiridos; mas também na distribuição e recolha de materiais de apoio às aprendizagens, entre os alunos que não tinham dispositivos digitais. 

93% dos diretores recorreram “a vias de comunicação alternativas para contatar com os alunos” e 40% fizeram contactos pessoais. As autarquias (61%) e as juntas de freguesia (23%) foram as entidades que mais colaboraram com as escolas. 

Escola sai valorizada  

Questionados sobre a perceção dos pais quanto ao papel da escola, 85% dos diretores referiu que os pais e a comunidade passaram a valorizar mais ou muito mais o "apoio às aprendizagens" por parte dos professores. Deram também mais valor ao "desenvolvimento da autonomia e sentido de responsabilidade" (82% e 83%). 77% dos diretores acredita que os pais e a comunidade também passaram a valorizar mais a escola na sua função de promover a "socialização" das crianças e dos jovens. 

Programas ficaram por cumprir

Será que o ensino a distância compromete as aprendizagens? Nas respostas, dividem-se as opiniões. 52% dos professores considera que não, 42% que sim. Mas 72% dos professores reconhecem que as dificuldades de aprendizagem aumentaram. Este foi o aspeto mais assinalado pelos professores do 1. ° ciclo. 

O ensino em casa não facilitou o cumprimento dos programas. Para 78% dos professores, "as sessões síncronas foram pouco eficazes para o conseguir". 66% dos professores não conseguiram lecionar todos os conteúdos inicialmente previstos para o 3.° período ou 2.° semestre, no caso das escolas que organizam os calendários letivos desta forma. O 1.° ciclo foi o nível de ensino em que menos professores (19%) mantiveram a planificação das suas aulas e matérias a lecionar. Já no Ensino Secundário, 49% dos professores conseguiram cumprir o que estava previsto antes da suspensão das aulas presenciais. 

Se, por um lado, as sessões síncronas falharam no apoio ao cumprimento dos programas, por outro, na opinião dos professores revelaram-se eficazes para esclarecer dúvidas (89%), questionar e dar feedback (88%), explicar e clarificar conteúdos (83%), apresentar desafio é exercícios (81%) e apresentar e sistematizar conteúdos (80%).

O estudo do CNE apresenta também evidência para o que empiricamente se antevia no que toca à concretização do trabalho autónomo. Quanto menor a idade da criança, maior a percentagem de professores que tiveram dificuldades em implementá-lo. Foi o que confirmaram 88% dos educadores e 72% dos professores do 1.° ciclo.

Poucas inovações  

Menos de um quarto dos professores usou metodologias que colocaram os alunos no centro das aprendizagens, aponta o estudo do CNE. 74% dos professores disse não ter optado pelo trabalho de projeto, 84% não recorre ao trabalho por portfólio e 85% não seguiram a metodologia da aula invertida. As formas mais escolhidas pelos professores para envolver os alunos foram a planificação e calendarização de tarefas com a participação dos alunos (77%) e a realização de jogos e desafios (53%).

O CNE revela ainda que no que toca à organização do trabalho, a tendência geral foi a de não seguir modalidades que implicam a interação dos alunos. A maior parte dos professores reconheceu “poucas vezes ou nunca" ter incentivado o trabalho de grupo (83%), o role-play (88%) ou debates (75%).
 

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