Escola Básica e Secundária de Arga e Lima: trabalhar (n)a proximidade ajuda a bons resultados

No concelho de Viana do Castelo, a EBS de Arga e Lima faz acreditar que ali mora o verdadeiro elevador social. Apesar de quase metade dos alunos beneficiar da ação social escolar, é uma das escolas públicas com melhor desempenho no último ranking.
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“Aqui nunca valorizamos muito os rankings. Porque num ano podemos estar muito bem e no outro damos um trambolhão e já não estamos. Eu não sou contra os rankings, mas acho que temos de ter cuidado com essas comparações”. José Manuel Costa Leme, diretor do Agrupamento de Escolas de Arga e Lima, em Viana do Castelo, reage assim aos resultados conhecidos há duas semanas, que colocam a [sua] secundária entre as escolas públicas com melhor desempenho nos exames. Desta vez a média alcançada foi de 14,95 em 95 provas.

O diretor, que desempenha este cargo há cerca de dois anos, justifica a sua posição: “não podemos comparar uma escola situada no meio rural, com metade dos alunos em situação social frágil, com um colégio em que quase todos os pais frequentaram o Ensino Superior. É por isso que eu considero que os rankings são relativos”, afirma ao EDUCARE.PT, ressalvando que a isso se deve a relutância de embandeirar em arco com os resultados deste ano. “Claro que é bom estar nos primeiros. Mas se não estivéssemos também não ficaríamos tristes”, conclui. Além disso, há outros rankings que se somam aos dos exames, e apesar de sempre bem classificada, a EBS (Escola Básica e Secundária) de Arga e Lima não faz disso alarde. O diretor refere-se ao “ranking dos percursos diretos, criado paralelamente pelo Ministério da Educação, mas ao qual os media nunca deram grande importância. E nesse estamos sempre nos primeiros três lugares”, revela José Manuel Leme, referindo-se ao instrumento que avalia a capacidade “de uma escola pegar nos alunos no 5.º ano e levá-los até ao 12.º sem grandes retenções nem desistências”.

O Agrupamento de Escolas de Arga e Lima é frequentado por cerca de 650 alunos, desde o Pré-Escolar ao Ensino Secundário. Na escola sede não chegam a ser 300 alunos. E são esses que constam do ranking em causa. “Nós conseguimos fazer bem um ensino personalizado precisamente por serem poucos alunos”, sublinha o diretor, que enaltece o trabalho da centena de professores que ali trabalha. Nesta fase, por exemplo, em que se aproxima o final do ano, “os professores dão aulas de apoio suplementar, fora do horário, sem que isso seja sequer contabilizado. Na verdade, “isto é quase como um colégio, por causa da dimensão”, acrescenta. 

Sendo uma escola “muito pequena e situada num meio rural, há aqui uma relação de muita proximidade entre professor e alunos”, enfatiza José Manuel Leme, apologista da pouca formalidade que imprime em todo o agrupamento. É assim que lida com uma maioria de alunos de classes sociais desfavorecidas, “muitos são do escalão A, por exemplo, e nós criamos neles a expetativa de seguirem os estudos”, dando corpo à ideia de que a Escola é o verdadeiro elevador social. Em todo o agrupamento trabalha-se nesse registo. O diretor aponta, como exemplo, nesse domínio, a atividade desenvolvida pela biblioteca. Por outro lado, a interação com a comunidade também é uma constante. “Fazemos muitas conferências. Nomes grandes de várias áreas já passaram por aqui”, desvenda o diretor, orgulhoso na participação das famílias nessas mesmas atividades. “Em breve a câmara vai inaugurar um museu dedicado à exploração do volfrâmio e nós estamos a participar nessa recolha. Os alunos convidaram os avós, que trabalharam nas minas, a virem à escola dar os seus testemunhos”, revela.

Licenciado em Engenharia Petroquímica, com mestrado em Física, José Manuel Leme foi parar ao ensino e de lá nunca mais saiu. No agrupamento de Arga e Lima tem ajudado uma comunidade maioritariamente constituída por “gente com parcos recursos financeiros, em que quase 50% dos alunos beneficia da ação social escolar, a perceber que é preciso valorizar a Escola. Que a Escola é um local que lhes pode mudar a vida para melhor”.

Uma história com três décadas

A Escola Básica e Secundária de Arga e Lima nasceu há 30 anos em Lanheses, no concelho de Viana do Castelo. Num artigo publicado em 2015 na revista “Ensino, Emoção e Alma”, o primeiro diretor, Agostinho Gomes, contou como em meados de agosto de 1990 aceitou presidir à comissão executiva instaladora da C+S de Lanheses, considerando ter sido “um desafio de alto risco, carregado de incertezas, em contextos difíceis de entender face às paixões e alinhamentos gerados na época”.

“As expetativas eram elevadas, falhar não estava sequer nas nossas mais comezinhas preocupações. Havia o compromisso do arranque da escola, em finais de setembro, mas apenas com cerca de uma dezena de salas de aula disponíveis, tudo o demais eram paredes ao alto e terra batida, fustigadas ainda por um longo e chuvoso inverno, dificultando ainda mais a vida escolar a esta comunidade que, carregada de uma nova esperança, se ia adaptando às novas realidades”. De resto, a ligação à comunidade estava na génese da criação desta escolha minhota. “Firme no propósito da prestação dum bom serviço público a escola C+S, de imediato, procurou abrir-se à comunidade, criando o ensino noturno, que durante tantos anos diplomou centenas de adultos. Volvidos quatro anos, mais um facto marcante aconteceu, a criação do Ensino Secundário e que tão boa nota tem dado ao longo dos tempos”, recorda nesse artigo o primeiro diretor.

Em 2007, face ao “aumento significativo da população escolar, às novas valências curriculares, ao cumprimento da escolaridade obrigatória, as instalações, apesar de recentes, começaram a ser escassas e tornou-se necessário construir duas salas pré-fabricadas em tempo recorde, construir laboratórios e sensibilizar o ministério para a necessidade da ampliação e requalificação do edifício”. 

Na comemoração dos 25 anos, então já como Agrupamento de Escolas de Arga e Lima, Agostinho Gomes considerava ser “inegável que ao longo deste quarto de século nem tudo foram rosas havendo momentos de alguma preocupação e até situações de angústia que a Educação, no geral, ao longo dos tempos tem vivenciado. Porém a marca identitária das relações humanas estiveram sempre e continuam a estar na primeira linha das prioridades da Escola/Agrupamento, onde a inclusão e o espírito de pertença emergem de forma tão natural”. 
 

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