Ranking das escolas: o que os números (não) dizem

A revelação do ranking das escolas, esta sexta-feira, acendeu um debate importante: por que razão as melhores posições são ocupadas por colégios privados? O ministro da Educação considera as listagens “injustas e redutoras”.
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O que aparentemente parecia tratar-se de uma boa notícia - a média dos exames nacionais subiu dois a três valores, em ano de pandemia - rapidamente se transformou numa discussão sem precedentes no universo educativo. Afinal, o ranking das escolas relativo ao ano de 2020, revelado esta sexta-feira, tem estado a ser escalpelizado em toda a linha, por professores, pais, e com direito a uma caraterização inédita por parte do ministro da Educação. Em declarações à agência Lusa, Tiago Brandão Rodrigues considerou que as listagens de estabelecimentos de ensino baseadas nas médias dos exames nacionais são "injustas e redutoras", além de “não refletirem a qualidade do trabalho das escolas”.

De acordo com os dados disponibilizados desde ontem à noite, o primeiro lugar volta a ser ocupado pelo Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto, sendo a instituição de Ensino Secundário que registou a melhor média nos exames nacionais. O colégio teve uma média de 17,6 nas provas realizadas em 2020, ficando mais de duas décimas acima do segundo classificado, o Colégio D. Diogo de Sousa, em Braga. À semelhança do que se tem vindo a verificar nos últimos anos, as 10 escolas com melhores médias são todas do ensino privado, dividindo-se entre os distritos de Lisboa e Porto, havendo ainda uma no distrito de Braga e outra em Aveiro. 

Quanto às escolas públicas, a primeira aparece em 34.º lugar do ranking nacional, e é uma repetente: Escola Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra. Obteve a melhor classificação entre as escolas públicas, com uma média de 15,01, depois de em 2019 ter conseguido o 2.º lugar no mesmo ranking.
Apesar de terem descido na tabela, as notas nas escolas públicas subiram de forma considerável em relação ao ano passado, o que é entendido como consequência da pandemia de covid-19, que acabou por resultar em exames diferentes, incluindo nos critérios de correção. E isso inflacionou as médias.

Tabelas “redutoras e injustas”

Nas últimas duas décadas, o Ministério da Educação passou a disponibilizar anualmente, a pedido dos órgãos de comunicação social, dados sobre os resultados dos alunos nos exames e provas nacionais, assim como as notas internas dadas pelas escolas aos estudantes e alguns dados de contexto.

Uma das listas (ranking) de escolas agora divulgadas é feita com base nas médias das notas nas provas nacionais dos alunos. Para o ministro da educação, essas tabelas “são redutoras, injustas e não refletem a qualidade do trabalho que é realizado pelas respetivas comunidades educativas”. O ministro acrescenta que as classificações dos alunos dependem de diversos fatores “que não têm qualquer relação com a ação da escola”.

Nos últimos anos, o Ministério da Educação começou também a apresentar alguns indicadores para análise, como os percursos diretos de sucesso, que procuram os alunos que conseguem terminar um ciclo sem reprovar. Por exemplo, no caso do Secundário, os alunos com percursos diretos de sucesso são aqueles que fazem os três anos (do 10.º ao 12.º) sem “chumbar” e que têm positiva nos exames nacionais trianuais.

A tutela apresentou este ano um novo indicador - intitulado equidade - que se foca nos percursos escolares dos alunos carenciados, com Apoio Social Escolar (ASE), e permite observar as escolas que se destacam por terem mais casos de sucesso entre esses estudantes. E estes indicadores têm em linha de conta tanto o contexto socioeconómico dos alunos e das escolas, como a avaliação integral das aprendizagens, incluindo a realizada em exames nacionais e a realizada pelos professores que trabalham diariamente com os alunos.

Na verdade, os alunos mais carenciados só conseguem superar as expectativas em metade dos concelhos país, como revela esse novo indicador. As conclusões são da Agência Lusa, numa análise ao novo indicador de equidade, tendo em conta o tempo esperado dos 1.º e 2.º ciclos e dos percursos diretos de sucesso no 3.º ciclo e Secundário.

Em média, e ao longo da escolaridade obrigatória, os alunos mais carenciados tendem a ficar ligeiramente atrás dos outros colegas, mas em relação às expectativas para o seu sucesso escolar, só em cerca de metade dos municípios do país é que essas foram superadas. Essas representam, na prática, a média nacional dos alunos com o mesmo nível de partida à entrada de cada ciclo de estudos, e nem todos conseguem ter desempenhos superiores aos colegas com o mesmo perfil.

Logo no 1.º ciclo, cerca de 82% dos mais de 26 mil alunos com ASE que deveria ter terminado o 4.º ano no ano letivo de 2018/19 conseguiram fazê-lo sem “chumbar” em nenhum dos anos anteriores, pouco menos em comparação com a taxa nacional de conclusões no tempo esperado (87%). Por outro lado, só em 118 dos 213 municípios analisados neste nível de ensino é que os seus alunos conseguiram, em média, igualar ou superar as expectativas. Nos restantes, que representam 45% do total, as crianças tiveram desempenhos ligeiramente inferiores aos colegas com o mesmo perfil.

A tendência repete-se no nível seguinte: entre os cerca de 33.700 estudantes carenciados no 6.º ano, cerca de 29 mil conseguiram terminar o 2.º ciclo nos dois anos letivos expectáveis, o que representa uma média nacional de 89%.

Apesar de melhores em relação aos mais novos, só em 60% dos 245 municípios com dados disponíveis é que os estudantes conseguiram igualar ou ter desempenhos superiores à média com o mesmo perfil. A partir do 3.º ciclo, o cenário torna-se mais preocupante, à semelhança do que acontece com a generalidade dos alunos.

Diretores e pais falam de “realidades incomparáveis”

Os diretores escolares criticam os rankings das escolas, elaborados pela comunicação social com base em dados oficiais, por ocultarem muito do trabalho feito por alunos e professores e “compararem realidades incomparáveis”, que podem desmotivar toda a comunidade escolar. É essa a opinião de Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), em declarações à Lusa.

Para os diretores escolares, as listagens feitas com base nessas informações agora divulgadas, “revelam apenas uma ínfima parte do trabalho diário das escolas e alunos”. “Há escolas que fazem um trabalho de excelência e ficam mais para baixo nestas tabelas. É muito injusto”, sublinha aquele responsável.

A opinião é partilhada por Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Diretores Escolares (ANDE), que também lamenta a comparação de realidades escolares muito distintas.
Também o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, relativiza as listagens hoje conhecidas.

Os encarregados de educação consideram que os rankings devem ser olhados “com ponderação” e relativizados, mas admitem a sua utilidade para as escolas perceberem como podem melhorar a partir dos bons exemplos.
Numa análise breve, mas amplamente partilhada nas redes sociais, o economista Ricardo Paes Mamede afirmou que “mais uma vez os rankings das escolas são publicados sem que sejam disponibilizados dados sobre a composição socioeconómica dos alunos dos colégios privados”.

Aludindo a uma realidade paralela, Paes Mamede considera que “enquanto assim for, os rankings apenas sugerem que escolas frequentadas por filhos de famílias com mais recursos económicos e culturais têm melhores notas nos exames. É um ótimo momento de publicidade grátis para alguns colégios, mas diz-nos pouco sobre o que funciona bem e o que se pode melhorar no sistema de ensino”. 
 

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