Bibliotecas escolares são determinantes na promoção da literacia mediática

A biblioteca escolar é o “parceiro fundamental” para levar os alunos a compreender a relação dos media com o mundo. Um inquérito a 723 professores bibliotecários coloca a segurança e os riscos na Internet no topo da lista de atividades de literacia mediática mais realizadas. Fica a faltar a análise crítica.
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O estudo realizado pelo Observatório sobre Media, Informação e Literacia (MILObs) da Universidade do Minho e a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) revela que o professor bibliotecário tem um papel decisivo na promoção da literacia mediática. Não apenas pelas atividades que desenvolve na biblioteca, mas porque ele é o elo de ligação com os outros professores e a sala de aula.

“O professor bibliotecário, talvez mais solto daquilo que é o cumprimento do programa, pode ter a liberdade e a criatividade de ligar a literacia mediática às diversas áreas disciplinares”, explica Sara Pereira, investigadora do MILObs e uma das autoras desta nova pesquisa que tem por base as respostas a 723 questionários, representando 53% dos professores a exercer funções nas bibliotecas escolares de todo o país.

Mais do que números, as conclusões do estudo Literacia Mediática nas Bibliotecas Escolares, divulgado em março, apontam caminhos. Um deles, é o potencial para educar para os media. “A biblioteca escolar tem de ser um centro de informação e aprendizagem, que ensina os seus utilizadores a encontrarem informação válida no ecossistema mediático, a tratar essa informação e a perceber como ela se constrói e como constrói a realidade que representa”, esclarece Margarida Toscano, coordenadora interconcelhia da RBE e outra das autoras do estudo.

Os questionários online foram realizados em 2019. Os resultados mostram uma relação positiva - que estatisticamente pode ser extrapolada para a população de professores bibliotecários - entre formação em literacia mediática ou educação para os media e o desenvolvimento de atividades nesse âmbito. 67% dos professores bibliotecários que tinham feito formação na área da literacia mediática disseram ter dinamizado atividades. Por outro lado, 71% dos professores bibliotecários que não frequentaram ações de formação também não realizaram atividades.

Da experiência como formadora em literacia mediática, Sara Pereira garante que os professores bibliotecários são os que mais têm procurado formação nesta área. “Têm consciência da importância das questões relacionadas com os media na vida das crianças e dos jovens e um interesse por se atualizar e inovar.” As autoras do estudo argumentam, além de continuar a apostar na formação de professores, é necessário assegurar que a oferta formativa reflita e possa ajudar à progressão de um nível de iniciação à literacia mediática para níveis mais avançados.

Outra conclusão surpreendeu as investigadoras. Os professores com mais anos de serviço mostraram ter mais de predisposição para resolver entraves às atividades - como falhas na Internet ou problemas no computador - do que os colegas com menos anos de serviço.

Ressalvando que a evidência será objeto de maior estudo no futuro, Sara Pereira arrisca uma explicação: “Se os professores com menos anos de serviço, também com menos idade e talvez mais familiarizados com as tecnologias, têm mais dificuldade em resolver problemas, isto leva-nos a considerar que a própria experiência pedagógica do professor bibliotecário tem um papel importante na questão de ultrapassar eventuais entraves.”

Para entender este dado qualitativo, imagine-se a situação anedótica durante uma atividade de pesquisa de informação na Wikipédia. Perante uma falha na Internet, o professor com menos anos de serviço decide esperar pelo restabelecimento da rede, que foi abaixo a meio da busca, enquanto o professor com mais anos de serviço opta por ir buscar o “calhamaço” da enciclopédia em papel quase esquecido na estante da biblioteca. “É uma questão interessante que nos remete para a distinção entre nativos e imigrantes digitais de Marc Prensky (ler aqui entrevista) e nos leva a pensar que nem sempre os nativos digitais são aqueles que têm maior predisposição para resolver problemas.”

Literacia mediática não é só fake news

As investigadoras quiseram perceber que tipo de atividades no âmbito da literacia mediática eram dinamizadas pelos professores bibliotecários e a que alunos se dirigiam. “Tivemos um número muito significativo de atividades reportadas como sendo de literacia mediática que não eram, talvez os professores bibliotecários as tivessem considerado como tal”, começa por dizer Sara Pereira. Algumas das atividades de literacia mediática realizadas “surgiam sem a vertente do pensamento crítico associada”, completa Margarida Toscano.

Existe uma explicação para esta ausência: “No discurso dominante a literacia mediática tende a ser identificada com literacia digital e/ou competências de uso dos próprios media”, admite a coordenadora da RBE. “A questão de perceber o funcionamento dos media e de como são determinantes na formação da nossa perceção do mundo só começou a ser mais consciente a partir do fenómeno recente da desinformação e das fake news. Mas ainda não demos o salto suficiente para integrar devidamente estas questões.”

As atividades realizadas nas escolas refletem os projetos da “comunidade em geral” na qual se inserem tanto o Ministério da Educação como as próprias universidades, sublinham as investigadoras. “As bibliotecas escolares incorporam aquilo que também lhes chega de proposta”, resume Sara Pereira.

Talvez por isso, a investigadora não tenha estranhado a predominância das atividades ligadas à segurança e riscos na Internet e nas redes sociais: 31% do total de atividades de literacia mediática realizadas nos dois últimos anos letivos. “Os riscos da Internet, numa vertente um bocadinho protetora, foi sem dúvida um dos grandes temas”, confirma. A abordagem dos media como ferramentas digitais e recursos representa 16% do total de atividades; a pesquisa, o plágio e os direitos de autor, 10% e a desinformação e as notícias falsas, 7%; cinema e literacia fílmica, 3%.

Com base nestas evidências, as autoras querem que o estudo seja uma chamada de atenção para a necessidade de rever políticas ministeriais na área da educação para os media: “O que se promove a nível nacional – seja em concursos ou em projetos – tem um impacto grande naquilo que são as práticas nas bibliotecas”, alerta Sara Pereira.

As investigadoras conseguiram também tirar conclusões sobre a falta de periodicidade das atividades realizadas. Existe uma tendência para as atividades serem esporádicas, sem um carácter contínuo, explicam. Enquanto coordenadora interconcelhia da RBE, Margarida Toscano, assume algum encargo por uma mudança: “Temos de encontrar forma de incentivar que este tipo de atividades sejam desenvolvidas de forma mais sistemática.”

Será também preciso olhar para os públicos a que se destinaram as atividades. As respostas dos professores bibliotecários apontam como público principal os alunos do 3.º ciclo do Ensino Básico, que representam 35% do total de destinatários. Os alunos do 1.º ciclo representam 23% e os do 2.º ciclo também 23%, já os do Ensino Secundário, representam apenas 14% do total dos destinatários. Apenas 4% dos destinatários das atividades de literacia mediática são professores e 1% são pais ou encarregados de educação.

Sobre os motivos que levam a que os alunos do 10.º, 11.º e 12.º ano tenham menos atividades de literacia mediática, Margarida Toscano recorda as dificuldades reportadas pelos professores aquando a aplicação no Ensino Secundário em 2017 do “Aprender com a Biblioteca Escolar”, um referencial de aprendizagem para a leitura, a literacia de informação e dos media. “Uma das dificuldades maiores foi a concorrência entre o tempo para preparar exames - dar o programa de forma intensa e até mais expositiva - e o tempo para realizar projetos, num outro tipo de formação mais enriquecedora, mas mais morosa.”

De volta às bibliotecas escolares, Margarida Toscano dá exemplos de como estes espaços físicos estão a mudar para acomodar novos desafios. Entre o “fazer recuar o peso das estantes e das dezenas de livros que já não são usados”, o “acabar com as zonas delimitadas da informática e do multimédia” e o “permitir que os alunos possam estar no seu tablet ou smartphone ligados a uma boa rede de Internet”, algum espaço para a análise crítica dos media, se há de arranjar.

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